1. Início
  2. Curiosidades
  3. Intrigada com um buraco quase perfeitamente redondo de 1,5 metro de largura no chão do porão, uma moradora da Carolina do Norte descobriu que a casa foi construída em cima de um túnel de mina de ouro abandonada
Faça um comentário 9 min de leitura

Intrigada com um buraco quase perfeitamente redondo de 1,5 metro de largura no chão do porão, uma moradora da Carolina do Norte descobriu que a casa foi construída em cima de um túnel de mina de ouro abandonada

Imagem de perfil do autor Bruno Teles
Escrito por Bruno Teles Publicado em 26/07/2026 às 02:24 Atualizado em 26/07/2026 às 02:34
Buraco redondo de 1,5 metro no porão revelou que a casa em Charlotte foi erguida sobre uma mina de ouro do século 19. Seguro negou o conserto duas vezes.
Buraco redondo de 1,5 metro no porão revelou que a casa em Charlotte foi erguida sobre uma mina de ouro do século 19. Seguro negou o conserto duas vezes.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Ela desceu ao porão para pegar a decoração de Natal e encontrou uma cratera onde antes havia um pilar de sustentação. A casa, erguida em 1933 em Charlotte, fica sobre uma malha de túneis de garimpo do século 19 que ninguém mapeou direito, e o seguro se recusou a pagar o conserto.

Ashley Weidner desceu ao porão de casa no sábado seguinte ao Dia de Ação de Graças de 2018 para buscar enfeites de Natal e deu de cara com um buraco quase perfeitamente redondo, com cerca de 1,5 metro de largura, aberto no chão. A cratera havia engolido um pilar de cimento e tijolo que sustentava o piso da cozinha, da sala de jantar e do corredor que leva ao quarto do casal, na casa em Duckworth Avenue, bairro de Seversville, em Charlotte, na Carolina do Norte, segundo reportagem de Anna Douglas publicada pelo Charlotte Observer em fevereiro de 2019.

Depois de semanas consultando engenheiros, peritos de solo e a própria seguradora, a moradora chegou a uma explicação que ninguém tinha considerado: o buraco é o que sobrou de um poço de mina de ouro desativado no século 19. Um mapa antigo localizado por um repórter do jornal colocou a residência dela exatamente sobre a antiga Chinquepin Mine, uma entre mais de 75 minas que operaram em Charlotte e no condado de Mecklenburg há quase 150 anos.

O buraco que engoliu o pilar de sustentação

Buraco redondo de 1,5 metro no porão revelou que a casa em Charlotte foi erguida sobre uma mina de ouro do século 19. Seguro negou o conserto duas vezes.
Buraco redondo de 1,5 metro no porão revelou que a casa em Charlotte foi erguida sobre uma mina de ouro do século 19. Seguro negou o conserto duas vezes.

O primeiro impacto foi de incompreensão. Weidner, então com 32 anos, contou que ficou sem palavras diante da cratera e levou algum tempo para entender o que estava olhando. Só depois percebeu que os destroços no fundo eram os restos do pilar que sustentava boa parte do piso da residência.

A gravidade da situação apareceu rápido. O buraco não abriu em um canto qualquer, mas quase no centro da estrutura, engolindo justamente a coluna que segurava cozinha, sala de jantar e corredor. Ela e o noivo, Darrius Marable, de 37 anos, chegaram a considerar deixar a casa imediatamente, com medo de que o assoalho cedesse sob os pés deles.

O casal acabou ficando, mas conviveu com o susto por meses. Em entrevista à imprensa local, Weidner brincou que passou um período inteiro se preparando toda vez que ouvia a madeira ranger, imaginando que aquele seria o momento em que tudo iria abaixo. A casa foi construída em 1933, e ninguém sabia explicar o que tinha acontecido.

Poço velho, cano estourado ou coisa pior: as hipóteses descartadas

A semana seguinte à descoberta virou uma maratona de telefonemas. A moradora falou com a seguradora, com engenheiros estruturais, com especialistas em solo, com topógrafos e com construtoras da região, e cada um trouxe uma teoria diferente.

As possibilidades levantadas iam do trivial ao improvável. Podia ser um poço antigo tapado. Podia ser uma dolina aberta por um cano de esgoto rompido que não foi fechado corretamente. Chegou-se a cogitar que alguém tivesse invadido o espaço embaixo da casa para cavar, ou que um animal fosse o responsável.

Nenhuma das explicações se sustentava diante do formato do buraco. Uma cratera quase circular, de bordas regulares e vários metros de profundidade, não é o desenho que um cano rompido produz. O impasse durou até alguém sugerir um caminho de pesquisa completamente diferente.

A pista veio da corrida do ouro de 1830

A virada na investigação partiu de uma conversa informal. Um amigo recomendou que ela procurasse na internet informações sobre a corrida do ouro que aconteceu na Carolina do Norte na década de 1830, período em que a região virou destino de garimpeiros.

Foi assim que Weidner encontrou uma reportagem recente do Charlotte Observer descrevendo uma rede de túneis subterrâneos e poços de mina desativados espalhados até hoje por Charlotte. A leitura mudou completamente o tipo de especialista que o casal passou a procurar, e a moradora entrou em contato com o próprio jornal em busca de ajuda.

A resposta veio rápido e convergente. Segundo ela, várias pessoas passaram a dizer que se tratava, muito provavelmente, de um poço de mina colapsado. O que parecia teoria da conspiração de vizinhança começou a ganhar sustentação técnica e documental.

O mapa antigo que colocou a casa em cima da Chinquepin Mine

Buraco redondo de 1,5 metro no porão revelou que a casa em Charlotte foi erguida sobre uma mina de ouro do século 19. Seguro negou o conserto duas vezes.
Buraco redondo de 1,5 metro no porão revelou que a casa em Charlotte foi erguida sobre uma mina de ouro do século 19. Seguro negou o conserto duas vezes.

A prova mais concreta veio de um documento esquecido. O repórter do Observer que havia escrito sobre a história do garimpo em Charlotte localizou um mapa antigo que posicionava a residência de Weidner exatamente sobre a Chinquepin Mine, mina de ouro que operou na cidade no século 19 e que praticamente ninguém lembrava mais.

A geologia reforçou a leitura. Andy Bobyarchick, professor associado do Departamento de Geografia e Ciências da Terra da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, foi até o local, examinou a cratera e descartou a hipótese de dolina natural. “Não é um buraco qualquer”, resumiu. Segundo ele, não existe calcário nem outra causa natural de dolinas na região de Charlotte, e a explicação mais provável é a conexão com as antigas operações de mineração de ouro. O geólogo do estado da Carolina do Norte, Kenneth Taylor, também apontou ligação provável com a Chinquepin.

A vizinhança fecha o quebra-cabeça. Cruzando mapas e registros históricos, o jornal identificou que a casa fica exatamente entre dois pontos onde túneis de ouro ou poços de mina já foram documentados nos últimos cem anos. Os dois registros anteriores ficam a menos de 150 metros da residência, um ao sul e outro ao norte.

Mais de 75 minas embaixo de uma cidade que virou polo bancário

O contexto histórico explica por que isso não é tão raro quanto parece. Ao longo das décadas de 1830 e 1840, financistas e garimpeiros de várias partes do mundo foram para Charlotte atrás de ouro, e mais de 75 minas chegaram a operar na cidade e no condado de Mecklenburg.

As duas mais ricas ficavam onde hoje passa o dia a dia da cidade grande. As minas Rudisil e St. Catherine, próximas da atual Mint Street e do estádio do Carolina Panthers, exploravam um grande veio de minério e quartzo que segue enterrado sob arranha-céus e vias expressas. Minas menores existem em praticamente todas as direções a partir do centro, e algumas foram preservadas para fins educativos, como a Reed Gold Mine, no condado de Cabarrus.

O detalhe que transforma história em problema é regulatório. Bairros que hoje estão entre os que mais crescem em Charlotte, como Wilmore, Seversville e South End, foram o epicentro daquela corrida do ouro. Quando as minas fecharam, em meados do século 19, praticamente não havia exigência de tapar ou remediar os buracos e túneis deixados para trás. A casa de Weidner é de 1933, ou seja, foi construída quase um século depois do garimpo, sobre um terreno que ninguém verificou.

Contrabandistas de bebida e acampamentos dentro dos túneis

A pesquisa do casal desenterrou episódios curiosos da vida subterrânea de Charlotte. Registros antigos apontam que contrabandistas usaram os cantos escuros dos túneis de ouro para destilar bebida clandestina, aproveitando o isolamento das galerias.

Há também um capítulo social. Segundo o que o casal levantou, autoridades locais encontraram, há quase um século, acampamentos de pessoas em situação de rua instalados dentro de poços de mina abandonados nas proximidades.

O problema é que quase nada disso está mapeado com precisão. O escritório do geólogo do estado recebe ligações ocasionais de incorporadoras, planejadores de estradas e construtoras perguntando onde ficam as minas, mas os poucos mapas existentes mostram apenas localizações gerais. Na prática, a maioria dos túneis remanescentes só aparece depois que a escavação começa.

Seguro negado duas vezes e uma conta de dezenas de milhares de dólares

A parte financeira foi a que mais doeu. No mesmo dia em que encontrou o buraco, a moradora abriu um sinistro na seguradora da casa. Dois dias depois recebeu uma carta de recusa, informando que a apólice não cobre dolinas nem movimentação de terra na propriedade.

Ela tentou novamente e ouviu a mesma resposta. Em reportagem posterior, publicada em janeiro de 2021 pela emissora pública WFAE, a seguradora foi identificada como a Allstate, que alegou que a apólice só cobre colapsos abruptos sem relação com movimentação do solo. Weidner contestou a decisão, e a empresa manteve a posição.

Enquanto discutia, o casal precisou agir por conta própria. Eles pagaram do bolso a instalação de escoras para substituir o pilar que caiu dentro da cratera, uma solução provisória. O reparo definitivo foi estimado em dezenas de milhares de dólares, sem garantia de resolver o problema se o terreno estiver tomado por outros túneis prestes a ceder. A própria moradora chegou a dizer que poderia sair mais barato derrubar a casa e construir outra.

O desfecho da casa dos sonhos

O caso não terminou em anedota de festa. Em janeiro de 2021, a WFAE noticiou que os proprietários teriam de reconstruir o imóvel depois do colapso da antiga mina de ouro sob a estrutura, o que confirma o pior cenário considerado dois anos antes.

Há uma ironia imobiliária no meio disso. O terreno em Duckworth Avenue mais do que dobrou de valor na década anterior à descoberta, e nos quatro anos em que Weidner era proprietária a valorização passou de US$ 100 mil, segundo registros de impostos do condado. O que está embaixo da casa desvalorizou exatamente o que está em cima dela.

Antes de comprar, o casal alugava meia quadra abaixo, na mesma rua, e ela passava todo dia em frente ao imóvel levando o cachorro para passear. Quando a casa foi colocada à venda, eles fecharam negócio antes mesmo do anúncio entrar no mercado. O plano era ficar ali para sempre. A moradora passou a defender publicamente que a prefeitura e o condado montem um levantamento dos túneis e tornem essa informação acessível, para que compradores e construtoras saibam o que existe embaixo do terreno antes de assinar a escritura.

O que essa história deixa como alerta

Um buraco redondo no porão, um pilar engolido, um mapa esquecido e uma mina de ouro fechada há mais de 150 anos. A história da casa de Charlotte mostra que o subsolo urbano guarda passivos que ninguém registrou, e que a conta desses passivos costuma cair no colo de quem comprou o imóvel de boa fé, décadas depois.

E você, o que faria no lugar dela? Consertar, reconstruir ou vender e ir embora? Você já parou para pensar no que existe embaixo da sua casa, se ali já foi mina, lixão, cemitério ou leito de rio aterrado? E mais: seguro residencial que não cobre movimentação de terra é cláusula justa ou é exatamente o tipo de risco que deveria estar coberto? Comente sua opinião, principalmente se você trabalha com engenharia, perícia ou corretagem de imóveis e já viu caso parecido.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Tags
Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x