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Depois de ganhar um Fiat Uno zero num sorteio de bingo e nunca ter tirado carteira de motorista, um morador de Colatina guardou o carro na garagem com os plásticos ainda nos bancos, e o hatch foi vendido por mais de R$ 100 mil com 65 quilômetros rodados

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 26/07/2026 às 01:54 Atualizado em 26/07/2026 às 02:01
Morador de Colatina ganhou um Fiat Uno Mille 1990, nunca tirou CNH e guardou o carro na garagem. Com 65 km, o hatch foi vendido por mais de R$ 100 mil.
Morador de Colatina ganhou um Fiat Uno Mille 1990, nunca tirou CNH e guardou o carro na garagem. Com 65 km, o hatch foi vendido por mais de R$ 100 mil.
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O hatch vermelho nunca foi emplacado, nunca saiu para trabalhar e nunca levou família nenhuma para a praia. Ficou mais de três décadas parado na casa de um morador de Colatina, no Espírito Santo, até virar a estrela de um encontro de carros antigos no interior paulista e mudar de dono por seis dígitos.

Um Fiat Uno Mille 1990/1991 com apenas 65 quilômetros rodados foi vendido por pouco mais de R$ 100 mil a um colecionador do interior de São Paulo durante o Encontro Brasileiro de Autos Antigos, em Águas de Lindóia, em junho de 2024. O carro passou mais de três décadas guardado na garagem de um morador de Colatina, no noroeste capixaba, que ganhou o veículo em um sorteio, não tinha carteira de habilitação e não sabia dirigir, segundo relato do comerciante Reginaldo Ricardo ao portal UOL, reproduzido pelo site Colatina em Ação.

O estado de conservação é o que explica o preço. O hatch nunca foi emplacado, mantém todos os componentes originais e ainda exibia os plásticos de proteção nos bancos e a plaqueta da concessionária no momento da venda. Vídeos do carro exposto no evento circularam nas redes sociais e acumularam milhões de visualizações, transformando um dos automóveis mais simples já fabricados no Brasil em objeto de disputa entre colecionadores.

Sessenta e cinco quilômetros em mais de trinta anos

Morador de Colatina ganhou um Fiat Uno Mille 1990, nunca tirou CNH e guardou o carro na garagem. Com 65 km, o hatch foi vendido por mais de R$ 100 mil.
Morador de Colatina ganhou um Fiat Uno Mille 1990, nunca tirou CNH e guardou o carro na garagem. Com 65 km, o hatch foi vendido por mais de R$ 100 mil.

O número que sustenta toda a história cabe em dois dígitos. São 65 quilômetros no hodômetro, distância que um motorista comum faz em uma manhã de trabalho e que esse Uno levou mais de trinta anos para acumular, provavelmente em deslocamentos curtos entre a concessionária e a garagem.

Por causa disso, o carro é tratado no mercado de colecionismo como zero quilômetro. Ele nunca chegou a ser emplacado, ou seja, não teve placa, não circulou legalmente e não acumulou histórico de uso. É a condição mais rara possível em um veículo com mais de três décadas de fabricação.

O conjunto de detalhes originais reforça o status. Os plásticos de proteção seguiam nos bancos, como saíram da fábrica, e a plaqueta de identificação da concessionária continuava no lugar. São elementos que costumam desaparecer nos primeiros meses de uso de qualquer carro e que, aqui, atravessaram décadas intactos na casa do morador de Colatina.

O prêmio que virou peça de garagem

A origem da história é justamente o que a torna improvável. O primeiro dono recebeu o carro como prêmio de um sorteio, não o comprou. Sem carteira de habilitação e sem saber dirigir, ele não tinha o que fazer com o Uno além de guardá-lo.

Foi exatamente o que aconteceu. Em vez de vender ou aprender a dirigir, o morador de Colatina colocou o hatch na garagem de casa e o deixou ali. A decisão que parecia desperdício em 1990 se transformou, três décadas depois, no ativo mais valioso da família.

O tempo de armazenamento varia conforme a fonte consultada. O relato divulgado nacionalmente fala em mais de trinta anos parado. Uma apuração da imprensa capixaba menciona um período de pelo menos vinte e cinco anos sob a guarda do primeiro dono, antes da morte dele e do início do inventário.

Duas versões sobre como o carro foi parar na garagem

Morador de Colatina ganhou um Fiat Uno Mille 1990, nunca tirou CNH e guardou o carro na garagem. Com 65 km, o hatch foi vendido por mais de R$ 100 mil.
Morador de Colatina ganhou um Fiat Uno Mille 1990, nunca tirou CNH e guardou o carro na garagem. Com 65 km, o hatch foi vendido por mais de R$ 100 mil.

Aqui entra o ponto que a maior parte das publicações ignorou. A versão que circulou em todo o país partiu do comerciante Reginaldo Ricardo, conhecido como Reginaldo de Campinas, especializado em carros antigos com baixa quilometragem, que intermediou a venda. Segundo ele, a origem foi um bingo.

“O primeiro dono ganhou o Mille em um bingo”, afirmou Reginaldo em entrevista ao UOL, acrescentando que o homem não tinha CNH nem sabia dirigir e por isso decidiu guardar o prêmio na garagem de casa, em Colatina.

A imprensa do Espírito Santo publicou uma versão diferente e mais detalhada. De acordo com o jornal Tribuna Online, o Uno teria sido comprado na concessionária Fiat de Colatina pela Igreja Católica de São Roque do Canaã, município vizinho, para a realização de uma rifa. O ganhador da rifa é que seria o homem sem habilitação. As duas versões concordam no essencial, um sorteio e um ganhador que não sabia dirigir, mas divergem sobre quem organizou e sob qual formato. Nenhuma das partes citadas foi apresentada com documentação que resolvesse a diferença.

Do inventário à venda: a cadeia de donos

Morador de Colatina ganhou um Fiat Uno Mille 1990, nunca tirou CNH e guardou o carro na garagem. Com 65 km, o hatch foi vendido por mais de R$ 100 mil.
Morador de Colatina ganhou um Fiat Uno Mille 1990, nunca tirou CNH e guardou o carro na garagem. Com 65 km, o hatch foi vendido por mais de R$ 100 mil.

Depois da morte do primeiro proprietário, o carro entrou em inventário e os filhos decidiram vender. A partir daí, o Uno passou por intermediários até chegar ao evento onde foi negociado, e as informações disponíveis também não são totalmente coincidentes.

Pelo relato de Reginaldo Ricardo, os filhos venderam o veículo a um morador da região, que depois de cerca de dez anos de conversas com ele pediu que encontrasse um comprador, negócio fechado em 2024. Já a apuração capixaba identifica o advogado e colecionador Sizenando Braga como comprador junto a um intermediário, informando que o carro chegou a Vitória em 2018 e que ele o adquiriu em 2023, levando o veículo para a Serra antes de repassá-lo.

O desfecho é o mesmo nas duas versões. O Uno saiu do Espírito Santo, foi exposto no Encontro Brasileiro de Autos Antigos, em Águas de Lindóia, no interior de São Paulo, e acabou vendido a um colecionador paulista por pouco mais de R$ 100 mil. O carro que o morador de Colatina nunca dirigiu atravessou dois estados sem nunca ter tido placa.

R$ 100 mil por um carro que custava o equivalente a R$ 10 mil

A comparação de valores é o que mais chama atenção de quem não é do meio. Segundo levantamento citado pela imprensa capixaba, o preço de um Fiat Uno Mille na década de 1990 equivalia a algo em torno de R$ 10 mil em valores atualizados. O exemplar de Colatina foi negociado por dez vezes isso.

A explicação está na raridade, não no automóvel em si. Não é difícil encontrar um Uno Mille dos anos 1990 rodando por aí, e a maioria vale uma fração desse valor. O que praticamente não existe é um exemplar de mais de trinta anos sem uso, sem emplacamento e com componentes originais preservados.

Há uma condição embutida nesse preço, e ela é rígida. Colecionadores ouvidos na época avaliaram que o comprador precisa manter o carro exatamente como está para preservar o valor, porque qualquer uso relevante derruba a cotação. Na prática, o Uno deixou de ser um meio de transporte e passou a funcionar como peça de coleção, comparação usada por quem acompanha o mercado.

O que era, afinal, o Uno Mille de 1990

O modelo tem peso histórico na indústria nacional. Lançado em 1990, o Fiat Uno Mille foi o primeiro carro popular com motor 1.0 fabricado no Brasil, categoria que redefiniu o mercado de entrada e colocou milhares de famílias no primeiro automóvel próprio.

A ficha técnica explica por que a valorização soa contraditória para muita gente. O motor entregava 48 cavalos de potência e 7,4 kgfm de torque, números modestos até para os padrões da época. Não havia ar-condicionado, e a versão básica levava a simplicidade ao limite, com acabamento espartano e pouquíssimos equipamentos.

É justamente essa simplicidade que hoje joga a favor do preço. Um carro sem itens eletrônicos e sem sofisticação é mais fácil de manter original ao longo de trinta anos, e o exemplar guardado pelo morador de Colatina se tornou uma espécie de cápsula do tempo do início dos anos 1990, com peças que praticamente não existem mais em estado de fábrica.

Por que o caso viralizou nas redes

A repercussão não veio do valor sozinho. Vídeos do Uno exposto e limpo no evento de Águas de Lindóia circularam nas redes sociais e ultrapassaram milhões de visualizações, com o público reagindo ao contraste entre a fama de carro popular e o preço de automóvel de luxo.

O apelo emocional ajuda a explicar o alcance. O Uno Mille é um carro de memória afetiva no Brasil, associado ao primeiro veículo da família, à viagem de férias e à autoescola. Ver um exemplar intocado, com plástico de fábrica no banco, mexe com uma geração inteira que conviveu com o modelo.

Entre colecionadores, a leitura foi mais técnica. Um deles, o entusiasta Fernando Menezes, chegou a classificar o exemplar como uma obra de arte ao comentar o caso na imprensa capixaba. A história do morador de Colatina virou, ao mesmo tempo, notícia de mercado e caso de nostalgia coletiva.

O que sobra dessa história

Um prêmio de sorteio, uma habilitação que nunca foi tirada, uma garagem fechada por mais de trinta anos e 65 quilômetros no hodômetro. A soma improvável desses elementos transformou o carro mais comum das ruas brasileiras em item de colecionador avaliado em seis dígitos, e fez um morador de Colatina entrar na história automotiva do país sem nunca ter dado partida no próprio veículo.

E você, o que faria no lugar dele? Ganhar um carro zero sem saber dirigir e simplesmente guardar na garagem parece decisão estranha, mas rendeu à família dez vezes o valor original. Você acha certo pagar R$ 100 mil em um Uno Mille ou o mercado de carros antigos está descolado da realidade? E aí, tem algum carro parado na garagem de alguém da sua família que pode valer mais do que parece? Conte nos comentários, principalmente se você já teve um Uno Mille e lembra do quanto pagou nele.

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Bruno Teles

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