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Índia usa mais de 11 mil ‘barragens de barro’ e mutirões para fazer água voltar a 1.000 vilas, ressuscitar rios e frear a areia no estado mais seco do país

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 26/12/2025 às 21:31
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Mais de 11 mil estruturas tradicionais de captação de chuva, trabalho comunitário e rios que voltaram a correr em uma região marcada por seca extrema colocam Rajasthan no centro de um caso real de restauração hídrica reconhecido internacionalmente.

No estado indiano de Rajasthan, descrito por órgãos locais e instituições financeiras como o mais seco do país, uma estratégia baseada em estruturas simples de captação de chuva e trabalho comunitário passou a ser citada como exemplo de restauração hídrica em área semiárida: a construção de mais de 11 mil johads e outras obras de conservação que, segundo a Stockholm Water Foundation, ajudaram a “trazer água de volta” a mais de 1.000 vilas e a recuperar o fluxo de cinco rios.

A iniciativa é associada ao trabalho do ativista Rajendra Singh e da organização Tarun Bharat Sangh (TBS), reconhecido com o Stockholm Water Prize de 2015, premiação internacional concedida a projetos e lideranças ligados à água.

Rajasthan, seca extrema e pressão sobre água subterrânea

A escassez em Rajasthan é tratada como problema estrutural, com impacto direto em abastecimento, agricultura e disputa por aquíferos, e não como fenômeno episódico.

Uma nota pública do governo estadual afirma que Rajasthan é o estado mais seco da Índia, menciona a baixa disponibilidade de água superficial e destaca a dependência elevada de água subterrânea.

Um documento de divulgação de projeto do New Development Bank também descreve Rajasthan como o estado mais seco do país e aponta limitações em recursos hídricos utilizáveis.

O que é johad e como funciona a captação de água da chuva

Johads e mutirões no Rajasthan somam 11 mil barragens, levam água a 1.000 vilas e ajudam a recuperar cinco rios, segundo prêmio de Estocolmo.
Johads e mutirões no Rajasthan somam 11 mil barragens, levam água a 1.000 vilas e ajudam a recuperar cinco rios, segundo prêmio de Estocolmo.

O “johad”, centro da estratégia, é apresentado em estudos e revisões como uma forma tradicional de colheita de água: pequenas barragens de terra e/ou pedras construídas para reter a água das chuvas e desacelerar o escoamento, permitindo que a água infiltre no solo e contribua para a recarga de poços e aquíferos rasos.

Um artigo publicado nos anais da IAHS (Copernicus) descreve johads como pequenos diques de terra que capturam e conservam água da chuva, melhorando a percolação e a recarga subterrânea.

Tarun Bharat Sangh e a mobilização comunitária em Alwar

A trajetória mais citada nas fontes institucionais começa em 1985, quando a TBS teria iniciado o trabalho a partir de uma única vila na região de Alwar, em Rajasthan, expandindo depois para outras comunidades com a recuperação de práticas locais de conservação de água e a construção de estruturas adicionais, como tanques de armazenamento e pequenas barragens.

A Stockholm Water Foundation descreve o modelo como uma mobilização em que moradores assumem papel central no planejamento e manutenção, com foco em soluções “testadas pelo tempo” para captar a água das monções e atravessar períodos de estiagem.

O termo “mutirão”, usado com frequência em reportagens em português, corresponde ao que as fontes internacionais descrevem como envolvimento comunitário intenso: as estruturas são feitas com materiais disponíveis localmente, em escala compatível com a paisagem de microbacias e caminhos naturais de drenagem, com manutenção dependente do interesse direto de quem precisa do armazenamento e da recarga.

Johads e mutirões no Rajasthan somam 11 mil barragens, levam água a 1.000 vilas e ajudam a recuperar cinco rios, segundo prêmio de Estocolmo.
Johads e mutirões no Rajasthan somam 11 mil barragens, levam água a 1.000 vilas e ajudam a recuperar cinco rios, segundo prêmio de Estocolmo.

A lógica, segundo a própria premiação de 2015, é de cooperação com moradores para solucionar problemas de água no nível local, em vez de depender exclusivamente de obras centralizadas.

Números do projeto: 8.600, 11.000 e mais de 1.000 vilas

Os números variam conforme o recorte temporal e o que entra na contagem.

Na página de laureados do Stockholm Water Prize, a Stockholm Water Foundation registra que, duas décadas após o início, haviam sido construídos 8.600 johads e outras estruturas.

Já em texto publicado pela fundação sobre a entrega do prêmio, o total aparece como “mais de 11.000 johads e outras estruturas de conservação”, indicando expansão posterior ou contagens diferentes ao longo do tempo.

Em ambos os casos, a marca de “cerca de 1.000 vilas” atendidas é repetida como síntese do alcance do trabalho.

Cinco rios citados como recuperados e o impacto visível

A recuperação de rios é um dos pontos que mais chama atenção porque mexe com um indicador visível: cursos d’água que voltam a correr por mais tempo no ano.

Documentos acadêmicos citam que cinco rios — Bhagani-Teldehe, Arvari, Jahajwali, Sarsa e Ruparel — que haviam se tornado sazonais foram relatados como tendo se tornado perenes em meados da década de 1990, beneficiando centenas de vilas, embora o próprio texto use linguagem de relato e reconhecimento de que a documentação disponível pode variar entre fontes e atores envolvidos.

Recarga de aquíferos e o que os estudos descrevem sobre o mecanismo

Em termos práticos, a explicação mais recorrente para o mecanismo é hidrológica: ao reduzir a velocidade do escoamento superficial e aumentar o tempo de permanência da água no terreno, a infiltração cresce e os níveis em poços tendem a responder, principalmente onde o solo e a geologia local permitem recarga.

Johads e mutirões no Rajasthan somam 11 mil barragens, levam água a 1.000 vilas e ajudam a recuperar cinco rios, segundo prêmio de Estocolmo.
Johads e mutirões no Rajasthan somam 11 mil barragens, levam água a 1.000 vilas e ajudam a recuperar cinco rios, segundo prêmio de Estocolmo.

Estudos sobre impactos hidrológicos de estruturas de colheita de água em regiões semiáridas na Índia analisam variações de recarga e mostram que resultados dependem do tipo de obra, da posição na paisagem e de condições locais, o que ajuda a explicar por que projetos desse tipo são descritos como “trabalho de microbacia” e não como solução única aplicável de forma idêntica em qualquer lugar.

Reconhecimento internacional e permanência do estresse hídrico

O caso ganhou projeção internacional por combinar três elementos que costumam aparecer separados: tecnologia de baixa complexidade, escala grande por repetição e governança comunitária.

O press release do SIWI sobre o Stockholm Water Prize de 2015 afirma que o trabalho “em estreita cooperação com residentes locais” teria trazido água e vida de volta a cerca de mil vilas e gerado esperança em áreas afetadas pela escassez.

O mesmo material registra declaração do laureado associando os resultados à “sabedoria” da colheita de chuva, sem apresentar, no texto, uma série única de medições hidrológicas para toda a área de atuação.

A relevância do tema permanece atual em Rajasthan porque a pressão sobre aquíferos continua a aparecer no noticiário.

Uma reportagem da Reuters publicada em 26 de dezembro de 2025 descreve o estado como árido e menciona aquíferos superexplorados e tensão social em torno do uso de água, em um contexto de crise hídrica mais ampla na Índia.

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Marco Aurélio
Marco Aurélio
29/12/2025 13:18

Matéria excelente.

Elias
Elias
29/12/2025 11:06

Espero que os tais ambientalistas do Brasil leam essa bela reportagem e aprendam com isso.

Carlos
Carlos
29/12/2025 09:49

Ótima matéria sobre restauração do meio ambiente

Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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