Mais de 11 mil estruturas tradicionais de captação de chuva, trabalho comunitário e rios que voltaram a correr em uma região marcada por seca extrema colocam Rajasthan no centro de um caso real de restauração hídrica reconhecido internacionalmente.
No estado indiano de Rajasthan, descrito por órgãos locais e instituições financeiras como o mais seco do país, uma estratégia baseada em estruturas simples de captação de chuva e trabalho comunitário passou a ser citada como exemplo de restauração hídrica em área semiárida: a construção de mais de 11 mil johads e outras obras de conservação que, segundo a Stockholm Water Foundation, ajudaram a “trazer água de volta” a mais de 1.000 vilas e a recuperar o fluxo de cinco rios.
A iniciativa é associada ao trabalho do ativista Rajendra Singh e da organização Tarun Bharat Sangh (TBS), reconhecido com o Stockholm Water Prize de 2015, premiação internacional concedida a projetos e lideranças ligados à água.
Rajasthan, seca extrema e pressão sobre água subterrânea
A escassez em Rajasthan é tratada como problema estrutural, com impacto direto em abastecimento, agricultura e disputa por aquíferos, e não como fenômeno episódico.
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Uma nota pública do governo estadual afirma que Rajasthan é o estado mais seco da Índia, menciona a baixa disponibilidade de água superficial e destaca a dependência elevada de água subterrânea.
Um documento de divulgação de projeto do New Development Bank também descreve Rajasthan como o estado mais seco do país e aponta limitações em recursos hídricos utilizáveis.
O que é johad e como funciona a captação de água da chuva

O “johad”, centro da estratégia, é apresentado em estudos e revisões como uma forma tradicional de colheita de água: pequenas barragens de terra e/ou pedras construídas para reter a água das chuvas e desacelerar o escoamento, permitindo que a água infiltre no solo e contribua para a recarga de poços e aquíferos rasos.
Um artigo publicado nos anais da IAHS (Copernicus) descreve johads como pequenos diques de terra que capturam e conservam água da chuva, melhorando a percolação e a recarga subterrânea.
Tarun Bharat Sangh e a mobilização comunitária em Alwar
A trajetória mais citada nas fontes institucionais começa em 1985, quando a TBS teria iniciado o trabalho a partir de uma única vila na região de Alwar, em Rajasthan, expandindo depois para outras comunidades com a recuperação de práticas locais de conservação de água e a construção de estruturas adicionais, como tanques de armazenamento e pequenas barragens.
A Stockholm Water Foundation descreve o modelo como uma mobilização em que moradores assumem papel central no planejamento e manutenção, com foco em soluções “testadas pelo tempo” para captar a água das monções e atravessar períodos de estiagem.
O termo “mutirão”, usado com frequência em reportagens em português, corresponde ao que as fontes internacionais descrevem como envolvimento comunitário intenso: as estruturas são feitas com materiais disponíveis localmente, em escala compatível com a paisagem de microbacias e caminhos naturais de drenagem, com manutenção dependente do interesse direto de quem precisa do armazenamento e da recarga.

A lógica, segundo a própria premiação de 2015, é de cooperação com moradores para solucionar problemas de água no nível local, em vez de depender exclusivamente de obras centralizadas.
Números do projeto: 8.600, 11.000 e mais de 1.000 vilas
Os números variam conforme o recorte temporal e o que entra na contagem.
Na página de laureados do Stockholm Water Prize, a Stockholm Water Foundation registra que, duas décadas após o início, haviam sido construídos 8.600 johads e outras estruturas.
Já em texto publicado pela fundação sobre a entrega do prêmio, o total aparece como “mais de 11.000 johads e outras estruturas de conservação”, indicando expansão posterior ou contagens diferentes ao longo do tempo.
Em ambos os casos, a marca de “cerca de 1.000 vilas” atendidas é repetida como síntese do alcance do trabalho.
Cinco rios citados como recuperados e o impacto visível
A recuperação de rios é um dos pontos que mais chama atenção porque mexe com um indicador visível: cursos d’água que voltam a correr por mais tempo no ano.
Documentos acadêmicos citam que cinco rios — Bhagani-Teldehe, Arvari, Jahajwali, Sarsa e Ruparel — que haviam se tornado sazonais foram relatados como tendo se tornado perenes em meados da década de 1990, beneficiando centenas de vilas, embora o próprio texto use linguagem de relato e reconhecimento de que a documentação disponível pode variar entre fontes e atores envolvidos.
Recarga de aquíferos e o que os estudos descrevem sobre o mecanismo
Em termos práticos, a explicação mais recorrente para o mecanismo é hidrológica: ao reduzir a velocidade do escoamento superficial e aumentar o tempo de permanência da água no terreno, a infiltração cresce e os níveis em poços tendem a responder, principalmente onde o solo e a geologia local permitem recarga.

Estudos sobre impactos hidrológicos de estruturas de colheita de água em regiões semiáridas na Índia analisam variações de recarga e mostram que resultados dependem do tipo de obra, da posição na paisagem e de condições locais, o que ajuda a explicar por que projetos desse tipo são descritos como “trabalho de microbacia” e não como solução única aplicável de forma idêntica em qualquer lugar.
Reconhecimento internacional e permanência do estresse hídrico
O caso ganhou projeção internacional por combinar três elementos que costumam aparecer separados: tecnologia de baixa complexidade, escala grande por repetição e governança comunitária.
O press release do SIWI sobre o Stockholm Water Prize de 2015 afirma que o trabalho “em estreita cooperação com residentes locais” teria trazido água e vida de volta a cerca de mil vilas e gerado esperança em áreas afetadas pela escassez.
O mesmo material registra declaração do laureado associando os resultados à “sabedoria” da colheita de chuva, sem apresentar, no texto, uma série única de medições hidrológicas para toda a área de atuação.
A relevância do tema permanece atual em Rajasthan porque a pressão sobre aquíferos continua a aparecer no noticiário.
Uma reportagem da Reuters publicada em 26 de dezembro de 2025 descreve o estado como árido e menciona aquíferos superexplorados e tensão social em torno do uso de água, em um contexto de crise hídrica mais ampla na Índia.

Matéria excelente.
Espero que os tais ambientalistas do Brasil leam essa bela reportagem e aprendam com isso.
Ótima matéria sobre restauração do meio ambiente