Os dados são do MapBiomas Água, que mapeia rios e lagos por satélite e inteligência artificial desde 1985 e foram divulgados em 16 de junho. Em 2025, 2.511 cidades, 45% do país, tiveram água abaixo da própria média. O estudo mede a área vista por satélite, não o volume.
Imagens de satélite mostram que o Brasil encolheu mais de 2,5 milhões de hectares de rios e lagos em 40 anos, e o Pantanal, que depende quase 100% da chuva por não ter represas, ficou 56% abaixo da média histórica em 2025. O retrato vem do MapBiomas Água, iniciativa que usa imagens de satélite e inteligência artificial para mapear, mês a mês, toda a superfície coberta por água no país desde 1985, em levantamento divulgado em 16 de junho.
Quase metade das cidades brasileiras teve menos água do que o normal no último ano. Segundo informações divulgadas pelo G1, em 2025, 2.511 municípios, 45% do total, ficaram com superfície de água abaixo da própria média histórica, em um cenário que especialistas associam à combinação de mudanças climáticas, desmatamento, eventos extremos e alterações no uso do solo. Vale um alerta importante: o estudo mede a extensão das áreas cobertas por água vistas por satélite, e não diretamente o volume disponível, a qualidade da água ou a segurança hídrica de cada município.
As cidades que mais perderam rios e lagos em 2025

As maiores perdas se concentram no coração do Pantanal. Em 2025, os recuos mais fortes de rios e lagos, em volume absoluto e em proporção, aparecem em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, os dois estados cortados pelo bioma. Corumbá (MS) perdeu 474 mil hectares, ou 56,7% de sua superfície de água, seguida por Cáceres (MT), com 189 mil hectares a menos, Poconé (MT), com queda de 61%, e Aquidauana (MS), que recuou 69,7%. Juntos, os dois estados formam a Região Hidrográfica do Paraguai, que sozinha perdeu 53,8% de sua água em 2025, o equivalente a 877 mil hectares.
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O problema, porém, se espalha por várias regiões. Entre os municípios mais afetados também estão cidades do Norte, como Barcelos (AM), Rorainópolis (RR), Pimenteiras do Oeste (RO), que perdeu 74,7% da superfície de água, Chaves (PA) e Alto Alegre dos Parecis (RO), com recuo de 79%. Em todos esses pontos, o encolhimento atinge rios e lagos, além de áreas alagadas espalhadas pelo território.
A água natural some enquanto as represas crescem
O tipo de água que está desaparecendo muda toda a leitura dos números. O levantamento separa a água do país em duas categorias: os corpos naturais, como rios e lagos e áreas alagadas, e os artificiais, como represas e reservatórios. Hoje, 76,7% da superfície de água mapeada é natural e 23,3% é artificial, mas as duas seguem direções opostas. Desde 1985, a água artificial cresceu 69%, ganhando 1,7 milhão de hectares, enquanto a natural encolheu 19%, perdendo 3,2 milhões de hectares, justamente a que abastece sem depender de barragens.

Esse contraste fica evidente quando se olha bioma a bioma. No Cerrado, 55,1% da água mapeada está em reservatórios de hidrelétricas e apenas 34,4% é natural, enquanto na Mata Atlântica 61,5% vem de represas, a maior área absoluta de água artificial do país, com 1,3 milhão de hectares. Proporcionalmente, a Caatinga lidera em água artificial, com 78%, e o Pampa ainda preserva água natural em 88,1%, embora concentre a segunda maior área de reservatórios. Já no Pantanal, mais de 99% da água é natural, o que deixa o bioma dependente quase inteiramente do ciclo de chuvas, sem a reserva que as represas poderiam oferecer.
Por que o Brasil seca há 40 anos
A análise por década mostra um recuo contínuo da água no país. A área média coberta por água caiu de 19,86 milhões de hectares entre 1985 e 1994 para 18,71 milhões na década seguinte, 18,16 milhões entre 2005 e 2014 e 17,28 milhões entre 2015 e 2024, uma perda de 2,58 milhões de hectares da primeira para a última década, área maior que todo o estado de Sergipe. Em 2025 houve leve melhora, com 18,2 milhões de hectares, 5,3% acima de 2024, mas ainda abaixo da média histórica de 18,5 milhões, ou seja, sem recuperação completa. “Mesmo com sinais pontuais de recuperação, a situação ainda é preocupante no longo prazo”, afirma Juliano Schirmbeck, coordenador técnico do MapBiomas Água.
O encolhimento dos rios e lagos resulta de uma soma de fatores. O Brasil está ficando mais seco por causa de mudanças no regime de chuvas, puxadas por elementos como o El Niño, confirmado em 2026, que aquece o Oceano Pacífico e costuma reduzir as chuvas no Norte, no Nordeste e em parte do centro do país. A isso se somam o aquecimento global, que eleva a evaporação e deixa menos água na superfície mesmo sem queda no volume de chuva, e o desmatamento, que reduz a umidade liberada para a atmosfera, como já documentado na Amazônia, e altera o curso e o volume dos rios por meio de queimadas e movimentação de solo.
Pantanal no pior cenário e Amazônia em recuperação
O Pantanal foi o bioma mais castigado do país em 2025. A superfície de água ficou 56% abaixo da média histórica, no único bioma em que todos os 12 meses do ano ficaram abaixo do esperado, depois da pior seca já registrada no Brasil em 2024, segundo o Cemaden, e de incêndios que, já em junho daquele ano, superaram o recorde anterior. A água voltou a crescer 34% em relação a 2024, mas o bioma terminou 2025 com 679 mil hectares, muito longe da média de 1,56 milhão, e, pela leitura da pesquisadora Mariana Dias, mudou também a dinâmica hidrológica: enchentes marcaram os anos 1980, mas a região vive secas prolongadas desde 2019.
A Amazônia, por outro lado, teve o melhor desempenho entre os biomas. Após dois anos de seca severa, a região fechou 2025 com superfície de água 2,6% acima do esperado, e o Pará registrou o maior ganho do país, com 142 mil hectares, em um bioma que concentra 61,4% de toda a água do Brasil, área maior que Pernambuco e quase toda formada por rios e lagos naturais. A recuperação, porém, não foi uniforme, já que cerca de 37% das bacias monitoradas na Amazônia seguem abaixo da média, o que afeta comunidades ribeirinhas que dependem dos rios para transporte, pesca e abastecimento. “A recuperação da superfície de água na Amazônia em 2025 é um sinal positivo”, explica Bruno Ferreira, pesquisador do MapBiomas e do Imazon.
Os dados de satélite do MapBiomas Água mostram que o Brasil perdeu mais de 2,5 milhões de hectares de rios e lagos em 40 anos, uma área maior que Sergipe, com a água natural encolhendo 19% enquanto as represas cresciam. Em 2025, 45% das cidades ficaram abaixo da própria média, o Pantanal chegou a 56% abaixo do normal por depender quase só da chuva, e a Amazônia se recuperou em parte, mas de forma desigual. O cenário é ligado a mudanças climáticas, El Niño, desmatamento e eventos extremos, e os pesquisadores reforçam que um único ano melhor não reverte a tendência de queda, lembrando ainda que o estudo mede a área de água, e não o volume, a qualidade ou a segurança hídrica.
E você, percebeu rios e lagos encolhendo perto de onde mora, ou notou rios secando em viagens pelo país? Comente a sua experiência e troque ideias com outros leitores sobre a crise da água no Brasil, com respeito às diferentes visões.

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