Maior zona de acúmulo de plástico em mar aberto mostra como resíduos descartados em terra e no oceano são levados por correntes marítimas, formando uma concentração gigantesca que se fragmenta lentamente em partículas quase invisíveis e difíceis de remover.
Grande Mancha de Lixo do Pacífico é o nome dado à concentração de resíduos que ocupa uma área estimada em 1,6 milhão de km² entre o Havaí e a Califórnia, no Oceano Pacífico, segundo a organização The Ocean Cleanup.
Considerada a maior zona de acúmulo de plástico em mar aberto do mundo, a região reúne mais de 1,8 trilhão de fragmentos e cerca de 100 mil toneladas de resíduos flutuantes.
Ao contrário da imagem popular de uma ilha compacta de lixo, a mancha não forma uma superfície sólida e contínua sobre o mar.
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O material aparece espalhado em diferentes densidades, com maior concentração no centro, o que torna parte da poluição difícil de ver a olho nu e impossível de tratar como um bloco único.
Responsável por manter esse acúmulo, o Giro Subtropical do Pacífico Norte funciona como um sistema de correntes que prende objetos flutuantes em uma área relativamente estável.
Garrafas, redes, tampas, caixas, cordas e fragmentos menores podem circular por anos nesse ambiente, enquanto se degradam lentamente sob ação do sol, das ondas e da vida marinha.
O que forma a mancha de lixo no Pacífico
Na composição da Grande Mancha, a maior parte da massa não vem dos microplásticos, mas de objetos maiores que 0,5 centímetro.
A The Ocean Cleanup estima que esses itens representem 92% da massa total, enquanto os microplásticos correspondem a 94% da contagem de objetos, revelando uma diferença importante entre peso e quantidade.
Entre os materiais recolhidos, aparecem sobretudo plásticos rígidos de polietileno e polipropileno, além de equipamentos de pesca abandonados, como redes e cordas.
Esses resíduos maiores preocupam porque continuam se quebrando em partículas menores, que depois se tornam muito mais difíceis de remover e podem ser confundidas com alimento por animais marinhos.
Pelos rios, segundo a organização, entram nos oceanos todos os anos entre 1,15 milhão e 2,41 milhões de toneladas de plástico.
Depois de chegar ao mar, os materiais mais leves e resistentes podem viajar por longas distâncias até serem empurrados por correntes convergentes, permanecendo na superfície ou nas camadas superiores da água.
Microplásticos ampliam a ameaça invisível
Levantamento de sete anos divulgado pela The Ocean Cleanup em 19 de novembro de 2024 apontou avanço expressivo dos fragmentos plásticos na região.
A massa de pequenos fragmentos subiu de 2,9 kg por km² para 14,2 kg por km², enquanto pontos de maior concentração passaram de 1 milhão para mais de 10 milhões de pequenos detritos por km² entre 2015 e 2022.
No mesmo estudo, a média de microplásticos por km² aumentou de 960 mil para 1,5 milhão de itens, e a de mesoplásticos saltou de 34 mil para 235 mil.
Esse crescimento reforça a urgência de retirar resíduos ainda em tamanhos maiores, antes que a fragmentação torne a limpeza mais complexa.
Nem todo o problema, porém, está restrito ao que flutua na superfície.
A The Ocean Cleanup informa que microplásticos já foram encontrados nas camadas superficiais da água, na coluna d’água e até no fundo do oceano, ampliando o alcance ambiental dessa poluição para além da área visível da mancha.
Animais marinhos enfrentam risco de ingestão e emaranhamento
Para a vida marinha, o plástico representa ameaça por ingestão e emaranhamento, sobretudo quando resíduos têm tamanho, cor ou movimento semelhantes aos de presas naturais.
Segundo a The Ocean Cleanup, estudos citados pela organização indicam que cerca de 900 espécies já tiveram contato com detritos marinhos, e 92% dessas interações envolveram plástico.
Entre os resíduos mais perigosos estão as redes de pesca abandonadas, conhecidas como redes-fantasma, porque continuam capturando animais no mar.
Na Grande Mancha, a organização estima que redes representem 46% da massa total, dado que ajuda a explicar o risco para tartarugas, aves, peixes e mamíferos marinhos.
Outro sinal do desequilíbrio aparece na própria superfície da região, onde a concentração de plástico flutuante chega a ser 180 vezes maior que a de vida marinha na área analisada.
Com partículas menores misturadas ao alimento disponível, cresce a chance de ingestão acidental por espécies que atravessam ou habitam a zona contaminada.
Limpeza da Grande Mancha ainda depende de redução no descarte
Para retirar resíduos de giros oceânicos, a The Ocean Cleanup afirma que já opera sistemas de coleta na Grande Mancha de Lixo do Pacífico com o System 03.
Mesmo com tecnologia em operação, a escala do problema exige mapeamento, eficiência nas coletas e redução contínua da entrada de novos resíduos no mar.
Retirar o lixo acumulado resolve apenas parte da crise, já que o fluxo constante de plástico pelos rios e por atividades no mar mantém a mancha em renovação.
Sem reduzir o descarte, fiscalizar fontes de poluição e recuperar resíduos antes da fragmentação, a área contaminada tende a produzir partículas cada vez menores.
No Pacífico, a mancha de lixo revela uma contradição difícil de ignorar: resíduos descartados por sociedades em terra firme acabam concentrados em uma região remota que quase ninguém vê.
Se uma área maior que a França ainda não basta para mudar hábitos, políticas públicas e fiscalização, qual será o tamanho necessário para tratar o oceano como prioridade?
