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Grupo criado no Vidigal para ensinar teatro a jovens da favela chegou à Royal Shakespeare Company e levou Shakespeare do morro para um dos maiores festivais teatrais do mundo

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Escrito por Caio Aviz Publicado em 20/08/2026 às 17:01 Atualizado em 20/08/2026 às 17:02
Jovens atores participam de apresentação teatral em uma comunidade, em imagem ilustrativa inspirada na trajetória do Nós do Morro, criado no Vidigal.
Imagem ilustrativa representa jovens durante uma apresentação teatral em uma comunidade, remetendo ao Nós do Morro, projeto criado no Vidigal que levou uma montagem de Shakespeare à Inglaterra.
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Criado em 1986 para formar atores e técnicos entre moradores do Vidigal, o Nós do Morro atravessou quatro décadas, recebeu milhares de participantes em suas oficinas e levou uma montagem brasileira de Shakespeare até Stratford-upon-Avon, cidade inglesa diretamente ligada à história do dramaturgo.

No alto do Vidigal, na Zona Sul do Rio de Janeiro, jovens entravam em cena, aprendiam interpretação, experimentavam iluminação, produção e outras funções dos bastidores. O palco estava dentro da favela, mas o projeto que começava ali acabaria atravessando o Atlântico.

Era o início do Nós do Morro, grupo fundado em 1986 pelo ator e diretor Guti Fraga com uma proposta que parecia simples: criar oportunidades para que moradores da comunidade tivessem acesso à formação em teatro e pudessem contar histórias a partir de suas próprias experiências.

Com o passar dos anos, aquela iniciativa comunitária cresceu, formou atores e técnicos, acumulou montagens e conquistou reconhecimento dentro e fora do país.

Três décadas depois da fundação, a Prefeitura do Rio registrava que cerca de 3 mil pessoas já haviam passado pelas oficinas do grupo, enquanto mais de 300 jovens e adultos da comunidade haviam participado dos cursos de formação.

Mas um dos capítulos mais simbólicos dessa trajetória aconteceria a milhares de quilômetros do Vidigal.

O teatro que nasceu dentro do Vidigal

A proposta do Nós do Morro não se limitava a colocar jovens diante de uma plateia.

Desde o início, o projeto buscou oferecer formação de atores e técnicos em artes cênicas, criando dentro da própria comunidade um espaço no qual crianças, adolescentes e adultos pudessem experimentar diferentes áreas da produção teatral.

O grupo passou a desenvolver tanto criações coletivas quanto adaptações de textos conhecidos. Aos poucos, o trabalho realizado no Vidigal começou a circular por outros palcos e conquistar premiações.

Segundo a Prefeitura do Rio, a trajetória acumulou reconhecimentos como Prêmio Shell, Prêmio Coca-Cola de Teatro Jovem, Prêmio Orgulho Carioca e Menção Honrosa da ONU/Unesco, além de prêmio no Festival de Cinema de Brasília pelo curta “Mina de Fé”.

A experiência também ultrapassou o teatro. O núcleo audiovisual do projeto produziu curtas-metragens e integrantes do Nós do Morro passaram a aparecer em filmes, novelas e séries de televisão. O MIT Global Shakespeares registra que, desde 1986, o grupo apresentou dezenas de peças e manteve como missão aproximar jovens de cultura, arte e cidadania.

Jovens atores em apresentação teatral coletiva, representando o trabalho artístico desenvolvido pelo Nós do Morro no Vidigal.
Imagem ilustrativa representa jovens atores durante apresentação teatral inspirada na trajetória do Nós do Morro, projeto criado no Vidigal que levou uma montagem de Shakespeare aos palcos da Inglaterra.

Shakespeare entrou no morro e ganhou outra linguagem

Entre os autores que chegaram ao repertório estava William Shakespeare.

Em 2005, o grupo apresentou uma adaptação de “Sonho de uma Noite de Verão”, aproximando o texto escrito séculos antes da realidade brasileira e da experiência social de seus integrantes.

A montagem utilizava materiais reaproveitados e estabelecia relações entre personagens da obra shakespeariana e questões de exclusão social. Pouco depois, integrantes do grupo participaram de uma oficina ligada à Royal Shakespeare Company.

Era o início de uma aproximação que colocaria uma companhia formada dentro de uma favela carioca diante de um dos ambientes mais importantes do teatro shakespeariano mundial.

No ano seguinte, veio o convite que transformaria aquela relação.

Em 2006, o Vidigal chegou a Stratford-upon-Avon

O Nós do Morro foi convidado para participar do Complete Works Festival, projeto promovido pela Royal Shakespeare Company em Stratford-upon-Avon, na Inglaterra.

O festival reuniu montagens relacionadas à obra de Shakespeare, e o grupo carioca levou “Os Dois Cavalheiros de Verona”, com direção de Guti Fraga.

Segundo registro da Globo, o Nós do Morro foi a única companhia brasileira a participar do festival em 2006.

O salto geográfico era enorme: um projeto surgido no Vidigal estava agora apresentando Shakespeare justamente na cidade inglesa onde o dramaturgo nasceu.

Mas o grupo não tentou simplesmente reproduzir uma montagem britânica.

Levou para Shakespeare parte do Brasil que havia construído sua identidade artística.

Música brasileira e capoeira transformaram a peça

A montagem dispensava grandes cenários e objetos de cena.

Os próprios corpos dos atores eram utilizados para representar móveis, paredes, prédios e outros elementos, criando uma encenação física na qual o elenco assumia diferentes funções diante do público.

A produção também incorporou música brasileira e capoeira, aproximando a obra do universo cultural dos atores. O MIT Global Shakespeares descreve a apresentação como uma montagem energética, capaz de transitar entre momentos cômicos e sérios.

A participação aconteceu no Courtyard Theatre, em 27 de agosto de 2006, dentro da programação do festival. Registros acadêmicos da temporada confirmam a apresentação de The Two Gentlemen of Verona pelo Nós do Morro, sob direção de Guti Fraga.

Shakespeare continuava no centro da peça, mas a linguagem carregava marcas do lugar de onde aqueles artistas haviam saído.

O Vidigal estava dentro da montagem.

Cicely Berry também trabalhou com os jovens brasileiros

A aproximação com a Royal Shakespeare Company não ficou restrita à apresentação.

O material preservado pelo MIT Global Shakespeares registra uma oficina realizada em Stratford, em 2006, com Cicely Berry, histórica diretora de voz da Royal Shakespeare Company e uma das profissionais mais influentes na preparação vocal de atores ligados ao teatro shakespeariano.

Era mais uma conexão improvável quando comparada ao ponto de partida do projeto.

Duas décadas antes, o Nós do Morro havia começado como uma iniciativa comunitária dedicada à formação artística de moradores de uma favela carioca.

Agora seus integrantes estavam trocando experiências dentro do universo profissional diretamente associado a uma das companhias de teatro mais conhecidas do mundo.

E a história inglesa ainda não havia terminado.

O grupo voltou à Inglaterra e chegou ao Barbican

A repercussão da montagem abriu outro capítulo.

Em 2008, o Nós do Morro retornou à Inglaterra para apresentar “Os Dois Cavalheiros de Verona” no Barbican Theatre, em Londres. O MIT registra que a produção recebeu reconhecimento de público e crítica tanto na Inglaterra quanto no Brasil.

O caminho percorrido pelo grupo mostrava uma inversão importante.

Em vez de artistas de fora entrarem na favela para interpretar aquele território, moradores do próprio Vidigal receberam formação, desenvolveram uma linguagem artística e passaram a ocupar palcos nacionais e internacionais levando suas próprias referências.

A favela deixou de aparecer apenas como cenário.

Passou também a produzir atores, técnicos, diretores, filmes, peças e interpretações próprias de alguns dos textos mais conhecidos do teatro mundial.

Milhares passaram pelas oficinas iniciadas no morro

Quando o Nós do Morro completou 30 anos, em 2016, a dimensão alcançada pelo projeto já podia ser medida em números.

De acordo com a Prefeitura do Rio, aproximadamente 3 mil pessoas haviam passado pelas oficinas, enquanto mais de 300 jovens e adultos haviam realizado os cursos de formação oferecidos pelo grupo ao longo das três primeiras décadas.

O resultado ajuda a dimensionar uma história que começou em escala comunitária.

Um projeto criado no Vidigal para aproximar moradores do teatro construiu um repertório de dezenas de espetáculos, desenvolveu produção audiovisual, formou profissionais e estabeleceu intercâmbios internacionais.

Entre todos esses capítulos, a viagem de 2006 permanece especialmente simbólica.

Naquele ano, jovens ligados a uma companhia nascida dentro de uma favela do Rio atravessaram o oceano para apresentar Shakespeare em Stratford-upon-Avon, levando música brasileira, capoeira e a identidade artística construída no Vidigal para o palco de um festival da Royal Shakespeare Company.

Você imaginava que um projeto teatral criado dentro do Vidigal havia chegado a um festival da Royal Shakespeare Company na Inglaterra?

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Caio Aviz

Escrevo sobre o mercado offshore, petróleo e gás, vagas de emprego, energias renováveis, mineração, economia, inovação e curiosidades, tecnologia, geopolítica, governo, entre outros temas. Buscando sempre atualizações diárias e assuntos relevantes, exponho um conteúdo rico, considerável e significativo. Para sugestões de pauta e feedbacks, faça contato no e-mail: avizzcaio12@gmail.com.

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