Medidas incluem substituição de cerca de 700 pontes de madeira, monitoramento com inteligência artificial e criação de sistema nacional unificado para identificar riscos estruturais em rodovias federais. Governo aposta em sensores, imagens de satélite e resposta rápida para evitar colapsos, reduzir isolamento de cidades e ampliar a segurança viária.
O Ministério dos Transportes definiu novas regras para substituir cerca de 700 pontes de madeira ainda existentes em rodovias federais, em uma tentativa de reduzir riscos de interdição, colapso e isolamento de comunidades dependentes dessas ligações viárias.
Pelas novas diretrizes, o DNIT deverá apresentar, em até 45 dias, um plano de ação com cronograma detalhado das medidas previstas, enquanto o levantamento completo das estruturas terá prazo de um ano para ser concluído em toda a malha federal.
A iniciativa foi formalizada pela Portaria nº 305, de 5 de maio de 2026, dentro de um pacote mais amplo voltado à gestão das chamadas Obras de Arte Especiais, grupo que inclui pontes, viadutos, túneis, passarelas e estruturas de contenção.
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Governo quer acelerar substituição de pontes de madeira
A substituição das pontes seguirá critérios técnicos, como volume de tráfego, histórico de ocorrências, gravidade dos problemas estruturais e importância da rota para o acesso a portos, aeroportos, hospitais e outras infraestruturas consideradas essenciais.
Na avaliação do governo, as pontes de madeira apresentam vida útil reduzida e demandam manutenção frequente, principalmente em áreas mais isoladas, onde a presença de empresas capacitadas para executar os serviços ainda é limitada, o que encarece as intervenções e dificulta respostas rápidas em situações críticas.
Com o objetivo de ampliar o interesse das construtoras pelas futuras licitações, o Ministério dos Transportes avalia reunir diferentes pontes em lotes maiores, estratégia que pode gerar ganho de escala, reduzir custos operacionais e tornar economicamente viáveis obras em regiões menos atrativas.

Além disso, o governo pretende estimular o uso de modelos construtivos pré-moldados, permitindo que partes das estruturas sejam produzidas em centros industriais e transportadas posteriormente para os locais de instalação, alternativa que tende a reduzir prazos e ampliar a concorrência entre empresas.
Segundo a secretária nacional de Transporte Rodoviário, Viviane Esse, a interrupção de uma ponte em regiões isoladas pode afetar escolas, atendimento de saúde e escoamento da produção.
“Quando uma ponte dessas cai, regiões inteiras podem ficar isoladas”, afirmou à Agência iNFRA.
Inteligência artificial e sensores entram no monitoramento
Além da troca das pontes de madeira, o governo criou diretrizes para padronizar o monitoramento das Obras de Arte Especiais em toda a malha rodoviária federal, tanto nas vias administradas diretamente pela União quanto nas concedidas à iniciativa privada.
Dentro da nova política, será criado um cadastro geral unificado chamado SGE, responsável por reunir informações técnicas sobre todas as estruturas monitoradas, numa tentativa de reduzir a fragmentação de dados entre DNIT, ANTT, concessionárias e demais órgãos ligados ao Ministério dos Transportes.
O monitoramento deverá usar imagens de satélite, sensores inteligentes, acompanhamento remoto e ferramentas de inteligência artificial.
Esses recursos serão empregados para identificar sinais de deterioração, antecipar falhas e orientar intervenções antes que os problemas avancem.
Enquanto as concessionárias ficarão responsáveis pelo acompanhamento operacional das estruturas nas rodovias concedidas, sob fiscalização da ANTT, caberá ao DNIT monitorar as vias administradas diretamente pela União e regulamentar o envio das informações ao sistema nacional.
A política incorpora ainda critérios de adaptação climática e resiliência da infraestrutura.
Entre os fatores considerados estão aumento do volume de chuvas, mudanças hidrológicas e eventos extremos capazes de comprometer a estabilidade de pontes, viadutos e contenções.
Estruturas críticas terão avaliação emergencial
Uma terceira portaria determina o mapeamento nacional de Obras de Arte Especiais consideradas críticas.
O levantamento será conduzido pelo DNIT nas rodovias federais sob gestão direta e, no caso das concessões, pela ANTT em conjunto com as concessionárias.
O trabalho deverá identificar estruturas com risco iminente de colapso ou indícios de comprometimento estrutural.
Quando houver ameaça à segurança viária, as equipes técnicas responsáveis deverão fazer avaliação específica em até 24 horas após tomarem conhecimento do problema.
Além do diagnóstico técnico, os órgãos responsáveis deverão estimar os custos necessários para recuperação, reforço ou solução definitiva de cada estrutura problemática, permitindo ao governo organizar uma carteira nacional de intervenções prioritárias baseada em critérios técnicos e não apenas em demandas emergenciais.
O Ministério dos Transportes também determinou a adoção do BIM, sigla em inglês para Modelagem da Informação da Construção, como ferramenta padrão para projetos de recuperação, reabilitação e construção de Obras de Arte Especiais.
Esse modelo permite concentrar dados de projeto, execução, manutenção e monitoramento ao longo do ciclo de vida das obras.
Na prática, a ferramenta pode ajudar o poder público a acompanhar melhor o histórico de cada estrutura e planejar intervenções futuras.
Recursos federais e contratos de concessão bancarão intervenções
Os investimentos nas estruturas administradas diretamente pela União continuarão sendo feitos com recursos do Orçamento Geral da União, embora o ministério também preveja a possibilidade de financiamentos externos, acordos de cooperação técnica internacional e apoio de organismos multilaterais.
Viviane Esse afirmou que a nova política não cria uma rubrica orçamentária específica.
Nas rodovias concedidas, os custos devem ser absorvidos pelos próprios contratos, especialmente nos projetos mais recentes, que já reservam parte da tarifa para resiliência e adaptação climática.
De acordo com a secretária, cerca de 2,5% da tarifa nos contratos mais novos é destinada a medidas ambientais e de adaptação estrutural.
Esses recursos podem financiar reforço, elevação, recuperação ou reconstrução de estruturas afetadas por riscos climáticos e operacionais.
Tragédia no Tocantins ampliou pressão por fiscalização
As medidas foram anunciadas após uma sequência de quedas de pontes registrada desde 2022, cenário que ganhou ainda mais repercussão depois do colapso da Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, entre Estreito, no Maranhão, e Aguiarnópolis, no Tocantins, em dezembro de 2024, acidente que deixou 14 mortos e três desaparecidos.
Relatório posterior da Polícia Federal apontou falhas estruturais, omissão de agentes públicos e excesso de peso como fatores relacionados ao colapso da ponte, que integrava uma ligação estratégica sobre o rio Tocantins.
Viviane Esse reconheceu que a tragédia ampliou a urgência das ações, embora tenha afirmado que a política de manutenção de Obras de Arte Especiais já integrava os planos do governo.
“A ideia é ter informação antecipada para preservar vidas e manter a integração nacional”, disse.
