Com extensão equivalente a quatro vezes a distância entre Recife e Porto Alegre, o gasoduto que vai conectar a Nigéria ao Marrocos pode mudar permanentemente a geopolítica energética do continente africano e do sul da Europa
O gasoduto Nigéria-Marrocos é, oficialmente, o maior projeto de infraestrutura energética em desenvolvimento na África. Conhecido também como Atlantic African Gas Pipeline (AAGP), ele vai ter 5.660 quilômetros de tubos cruzando 13 países — Nigéria, Benin, Togo, Gana, Costa do Marfim, Libéria, Serra Leoa, Guiné, Guiné-Bissau, Gâmbia, Senegal, Mauritânia e Marrocos.
O orçamento estimado é de US$ 25 bilhões, e a capacidade máxima projetada é de 30 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano. A primeira exportação está prevista para 2031, com operação plena em fases até 2046.
Para entender o tamanho do projeto, vale a comparação visual. Os 5.660 km equivalem aproximadamente a quatro vezes a distância entre Recife e Porto Alegre. Em superfície atendida, o gasoduto Nigéria-Marrocos vai beneficiar diretamente 400 milhões de pessoas ao longo da rota.
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A rota offshore do gasoduto Nigéria-Marrocos: do delta do Níger até Cádis
O traçado do gasoduto Nigéria-Marrocos é predominantemente offshore, seguindo a costa atlântica oeste-africana. Esse é um diferencial técnico crucial — em vez de cruzar terras instáveis e regiões com governança fraca, o duto fica enterrado no leito marinho, evitando boa parte dos riscos políticos.
Em paralelo, o ponto de partida é a chamada West African Gas Pipeline (WAGP), gasoduto curto de 678 km que já liga Nigéria, Benin, Togo e Gana há mais de uma década. O novo projeto se conecta à WAGP e a estende até Marrocos, atravessando todo o oeste africano.
A partir de Marrocos, o sistema pode se conectar ao Gasoduto Magreb-Europa, que historicamente leva gás argelino até a Espanha. O destino final do gás nigeriano, portanto, é o porto de Cádis, na Andaluzia espanhola — porta de entrada principal do gás africano no continente europeu.
Em comparação, há ramificações terrestres planejadas para Níger, Burkina Faso e Mali — três países sem litoral atlântico que dependem hoje de importações caras de combustíveis para gerar eletricidade.

Quem paga a conta de US$ 25 bilhões e quando começa a obra
O gasoduto Nigéria-Marrocos é coordenado por duas empresas estatais: a Nigerian National Petroleum Corporation (NNPC), do lado nigeriano, e a Office National des Hydrocarbures et des Mines (ONHYM), do lado marroquino. Os dois governos formalizaram o acordo durante visita oficial do rei Mohammed VI em dezembro de 2016.
De acordo com Amina Benkhadra, diretora da ONHYM, em entrevista à Tribuna do Sertão, “o projeto, avaliado em US$ 25 bilhões, terá extensão de 6.900 km (mar-terra-mar) e capacidade máxima de 30 bilhões de metros cúbicos de gás”. A primeira fase já está parcialmente em construção, conectando Marrocos, Mauritânia e Senegal.
Conforme afirmou Leila Benali, ministra da Transição Energética do Marrocos, em declaração ao Monitor do Oriente, “atualmente, estão em andamento os trabalhos para estabelecer uma parceria entre as partes marroquina e nigeriana, juntamente com os preparativos para a tomada da decisão final de investimento, prevista para o final de 2025”.
Em paralelo, o financiamento envolve consórcios internacionais, com forte interesse de bancos de desenvolvimento africanos, fundos soberanos do Golfo Pérsico e potencialmente Estados Unidos. Conforme reportagens recentes, a administração Trump também demonstrou interesse no megaprojeto, enxergando o gasoduto Nigéria-Marrocos como contraponto geopolítico ao gás russo na Europa.

A Europa e o vácuo deixado pelo gás russo
O cenário internacional ajuda a entender por que o projeto avança agora. Como reportou recentemente o Click Petróleo e Gás, a União Europeia perdeu 30% das importações de GNL russo a partir de 25 de abril de 2026, com banimento total previsto para final de 2027.
Por consequência, o continente europeu precisa diversificar fontes urgentemente. O gasoduto Nigéria-Marrocos pode entregar volumes significativos diretamente via tubo — solução mais barata e estável que GNL marítimo, que depende de navios metaneiros, regaseificadores e logística complexa.
De fato, naquele momento, a Espanha vira protagonista do mapa energético europeu. O país importa quase 100% do gás que consome, e o porto de Cádis está geograficamente posicionado para se tornar o principal hub de redistribuição do gás africano para o restante da Europa.
Em outras palavras, se o gasoduto Nigéria-Marrocos entrar em operação plena, a Espanha pode passar de importador líquido para reexportador estratégico de gás natural — papel que historicamente foi do Reino Unido até as reservas do Mar do Norte se esgotarem.
Comparação com o gasoduto Trans-Saara que nunca decolou
Para entender por que esse projeto pode ter sucesso onde outros falharam, vale o paralelo. Há mais de 20 anos, Argélia e Nigéria tentam construir o gasoduto Trans-Saara, com 4.128 km cruzando o deserto pelo Níger. O projeto está paralisado há quase uma década por questões geopolíticas, segurança e financiamento.
Em comparação, o gasoduto Nigéria-Marrocos escolheu rota mais cara mas menos arriscada. Em vez de cruzar regiões saarianas com presença de grupos armados como a JNIM e Boko Haram, ele segue o leito do Atlântico, sob controle militar marítimo de marinhas estáveis.
Por outro lado, há tradeoff. A rota offshore custa quase o dobro do trans-saara em capex inicial — mas evita atrasos de décadas e tem maior bancabilidade junto a investidores internacionais.
De acordo com analistas energéticos, é exatamente esse equilíbrio que destrava o financiamento. Bancos europeus e americanos, escaldados com gasodutos russos sancionados, preferem pagar mais por infraestrutura segura e politicamente estável.

Impacto econômico para os 13 países africanos no caminho
Para os países atravessados, o gasoduto Nigéria-Marrocos representa salto de desenvolvimento sem precedentes. Em primeiro lugar, todos vão receber acesso ao gás natural barato para gerar eletricidade — substituindo geradores a diesel poluentes e caros que dominam regiões rurais africanas.
Em segundo lugar, há royalties e taxas de passagem que cada país pode cobrar. Tipicamente, gasodutos internacionais pagam entre 0,5% e 2% do volume transportado aos países atravessados — receita expressiva ao longo de décadas de operação.
Em terceiro lugar, há geração de empregos diretos e indiretos. Estima-se que a obra possa criar até 50 mil postos de trabalho temporários durante construção, mais cerca de 5 a 10 mil empregos permanentes em manutenção, monitoramento e operação.
Em paralelo, o ganho mais difícil de mensurar é a integração regional. Hoje, países como Senegal, Mauritânia e Guiné-Bissau praticamente não comerciam entre si por falta de infraestrutura. O gasoduto Nigéria-Marrocos cria espinha dorsal energética que pode catalisar outras integrações comerciais — algo que a CEDEAO defende há décadas.
Os riscos geopolíticos do gasoduto Nigéria-Marrocos: golpes, instabilidade e disputas territoriais
Apesar do otimismo, há riscos reais. Em primeiro lugar, o Sahel africano vive onda de golpes militares desde 2020 — Mali, Burkina Faso, Níger e Guiné tiveram tomadas de poder por militares, criando incertezas regulatórias.
Em segundo lugar, há disputas territoriais antigas. O Marrocos, por exemplo, mantém conflito sobre o Saara Ocidental com a Argélia há décadas. Qualquer escalada pode comprometer a entrada do gás nigeriano no território marroquino.
Em terceiro lugar, há também riscos cibernéticos. Como reportou recentemente o Click Petróleo e Gás, ataques híbridos a infraestrutura energética se tornaram comuns na guerra do gás europeu — qualquer gasoduto submarino é potencial alvo.
Por fim, há o risco financeiro. US$ 25 bilhões é montante que pode crescer significativamente em obras dessa escala, e atrasos típicos de megaprojetos podem empurrar o orçamento para US$ 35-40 bilhões antes do final.
- 5.660 km — extensão estimada do gasoduto Nigéria-Marrocos
- 13 países — número de nações africanas atravessadas pela rota
- US$ 25 bilhões — orçamento base do projeto
- 30 bilhões m³/ano — capacidade máxima projetada
- 400 milhões — pessoas beneficiadas em rota
- 2031 — primeira exportação prevista
- 2046 — operação plena estimada
- 50 mil — empregos temporários estimados na construção
O que isso significa para o mapa global do gás
Geograficamente, o gasoduto Nigéria-Marrocos redesenha o jogo. A África Ocidental sempre foi vista como produtora de petróleo bruto e exportadora de matérias-primas — agora pode virar fornecedora estratégica de energia processada para Europa, com infraestrutura própria e contratos de longo prazo.
Em paralelo, há efeito sobre a OPEP. Como mostrou matéria recente do Click Petróleo e Gás, o cartel está enfraquecido com a saída dos Emirados Árabes em 1º de maio de 2026, e países como Nigéria — que ainda fazem parte do grupo — ganham mais espaço de negociação ao diversificar canais de exportação independentes.
De fato, a transição energética também entra na equação. Apesar da pressão climática, gás natural permanece visto como combustível “ponte” mais limpo que carvão, com vantagem técnica de gerar eletricidade firme e modular indústrias pesadas. O gasoduto Nigéria-Marrocos aposta exatamente nessa janela de demanda — provavelmente nos próximos 20 a 30 anos.
Por fim, a pergunta que fica é incômoda. Se a Europa precisava perder o gás russo para descobrir o quanto dependia dele, e a África tem reservas suficientes para abastecer o continente por décadas, será que a próxima fase da geopolítica do gás vai ser definida não no Mar do Norte ou no Golfo Pérsico, mas no Atlântico? E o Brasil, que já tem Pré-Sal e Margem Equatorial, deveria entrar nessa lógica de gasodutos transcontinentais ou apostar tudo em GNL marítimo?

O Brasil pode e deve fazer mais gasodutos e oleodutos para facilitar o escoamento.
Concordo, Wagner. O gargalo logístico no escoamento de gás brasileiro é real — o GASBOL e o GASENE atendem só uma fração da demanda. Em comparação, a malha europeia de 200 mil km mostra o tamanho do investimento necessário.
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