Em uma propriedade de 12 hectares no bairro Pessim, em Erechim, um fruticultor mantém vivo o cultivo de frutas nativas e variedades antigas, unindo saber de família, manejo paciente e venda direta.
No interior de Erechim, no norte do Rio Grande do Sul, Luciano Corto transformou um pomar em laboratório vivo de fruticultura diversificada. Em cerca de 5 a 6 hectares dedicados às frutas, cultiva de tudo um pouco, das nativas como butiá, goiaba serrana e araçá às antigas como marmelo e figo. O restante da área serve para manejo e preservação.
O sistema é simples no visual, mas sofisticado no manejo. A roçada ocorre em períodos-chave, próximo à poda e à colheita, reduzindo custo e formando uma camada de matéria orgânica no solo. Para quem olha de longe, parece capim alto; para quem conhece, é um mosaico produtivo com milhares de frutíferas em diferentes idades e portes.
Com 5 a 6 mil plantas, Corte organiza o ano para colher quase sempre. A safra abre em outubro com amora-preta e framboesa, passa por pêssego e ameixa, e avança com mirtilo, figo e marmelo do verão ao outono. A diversificação dilui riscos climáticos e de preço e evita picos de trabalho que exigiriam muita mão de obra.
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Entre as fileiras, ele mantém abelhas para polinização e guarda estacas de variedades raras para multiplicar. Não se trata de agrofloresta, mas de pomar conduzido com foco em manejo, preservação genética e mercado de nicho, abastecido por uma tenda à beira da estrada e clientes da região.
Variedades antigas e frutas nativas sustentam renda, garantem oferta contínua e preservam genética
Em vez de apostar tudo em uma única cultura, o produtor distribui o risco entre frutas nativas e variedades antigas de figo, marmelo e outras espécies. Ele resgata estacas em sítios vizinhos, produz as próprias mudas e devolve ao pomar cultivares que o comércio abandonou por questões de logística e padronização.
Além da preservação, a estratégia ajuda no mercado local. Quem compra direto busca sabor, história e diversidade, e paga melhor por framboesa, mirtilo e processados artesanais quando a oferta é curta.
Marmelo exige frio e manejo o ano todo, resgate de cultivares amplia calibre e sabor e evita perdas
O marmelo é o orgulho e o desafio. Exigente em frio e em água, produz melhor em altitude no Sul do Brasil. De acordo com a Embrapa Clima Temperado, o marmeleiro demanda horas de frio no inverno para quebrar dormência e florescer com regularidade em regiões acima de 600 m, o que converge com a experiência de produtores na Serra Gaúcha.
Para funcionar, o manejo é contínuo. No inverno, Corte aplica calda sulfocálcica para higienizar cascas e conter doenças como entomosporiose, conhecida também na maçã, que no marmelo pode ser devastadora. A poda reduz a quebra por vento e concentra a frutificação em ramos mais firmes.
A polinização cruzada entre diferentes tipos de marmelo melhora produtividade e calibre. No sítio, convivem o marmelo-maçã e o marmelo imperial, este último rende frutos muito grandes, às vezes perto de 1 kg, embora mais ácidos. A diversidade genética compensa falhas e alonga a janela de colheita.
Como parte da fruta é atacada por mosca-das-frutas e mariposa-oriental, o produtor recorre a insumos químicos de forma criteriosa na fase de crescimento, trocando para repelentes como o óleo de nim na aproximação da maturação. Segundo o Senar/RS, essa transição reduz resíduos e preserva polinizadores quando bem planejada e respeitada a carência.
No preço, o marmelo in natura sai a cerca de R$ 10 o quilo, e parte vai para marmelada, geleia, compota e chá, usos tradicionais que ajudam a girar estoque e valorizar a safra.
Figo, framboesa e mirtilo, escolha das variedades e polinizadores certos garante produção no frio
No figo, ele mantém um banco vivo de cultivares como São Pedro, Gota de Mel e roxo de Valinhos, cada qual com produtividade e tolerância ao frio diferentes. Em invernos rigorosos, variedades menos rústicas sofrem, por isso a aposta é em diversificar para sempre ter safra.
A framboesa tem duas colheitas ao ano, na primavera e no outono. É trabalhosa, mas paga bem no varejo, com potes de 100 g vendidos por R$ 10 a R$ 15 na ponta da safra. Já o mirtilo é minucioso na colheita e sensível a fungos e ao pH do solo, o que explica preços em torno de R$ 70 a R$ 80 o quilo no congelado local.
Para o mirtilo, abelhas nativas e mamangavas são chave. De acordo com pesquisas divulgadas pela Embrapa, a polinização por abelhas de maior porte melhora o vingamento do mirtilo, já que a abelha europeia visita menos suas flores. Preservar esses polinizadores é vital para a agricultura familiar.
Venda direta e diversificação protegem da pressão de preços e da dependência do atacado
Em vez de ficar preso a um atacadista e enfrentar leilão de preços, o produtor prioriza a venda direta na tenda da estrada e para consumidores da cidade. Assim, agrega valor nas frutas miúdas e processados, e não precisa escalar volume além da demanda local.
Quando a oferta regional explode, como no pêssego em safras cheias, quem depende de atravessador sofre para escoar. Com o leque de frutas, Corte evita o “tudo ou nada” e mantém renda distribuída ao longo do ano.
Calendário de colheita, manejo do solo e insumos na medida certa equilibram o sistema
A agenda anual é afinada com o clima de altitude do Alto Uruguai. Outubro abre com amora e framboesa; no verão entram pêssego, ameixa, mirtilo e figo; o marmelo ocupa o fim do verão e outono; cítricos e nativas ajudam a preencher lacunas.
O solo raso e pedregoso pede paciência com o enraizamento, e a roçada pontual forma um “tapete” de palhada que conserva umidade e nutre o terreno. Em áreas mais secas ou expostas à geada, ele protege com árvores e testa espécies como pitaia e palma, que toleram adversidades.
Nem tudo é 100% orgânico. Amoras, framboesas, mirtilos e figos tendem a ir bem com manejo biológico; já frutas de caroço exigem tratamentos na fase de formação do fruto. Segundo a Emater/RS-Ascar, a chave é ajustar o manejo integrado para reduzir impactos e preservar polinizadores.
Com mão de obra escassa, o produtor calibra área e escala para não perder fruta no pé. A diversificação não apenas espalha riscos, como também distribui o trabalho em janelas mais curtas e manejáveis.
O que você pensa sobre a estratégia de diversificar e vender direto no campo gaúcho? Em regiões com atacado forte, faz sentido abrir mão de escala para priorizar valor agregado? Comente e traga sua experiência, especialmente se você já cultivou marmelo, framboesa ou mirtilo. O debate sobre preço justo, polinização e preservação de variedades antigas merece ganhar voz.


Acho muito validou esse tipo de produção, já que quem se beneficia somos nós aqui do sul.
Como fazer para adquirir mudas destas plantas.(meu watzap 87-981783162)
Escreva para o Globo Rura, Embrapa, pesquise no Google.