Vendedor ambulante que já percorreu 218 municípios do Nordeste para ajudar os filhos a se formarem, se emociona ao receber homenagem de um deles durante ensaio de formatura em Odontologia.
Aos 53 anos, Francisco André Camelo, conhecido como Francisco da Merenda, viveu uma cena que o deixou sem palavras durante o ensaio de formatura do filho Raimundo Matheus Camelo. Vendedor ambulante e pai de cinco filhos, ele se emocionou ao ver o estudante de Odontologia transformar no jaleco os símbolos da luta da família para alcançar o diploma.
A homenagem partiu de Matheus, de 24 anos, que decidiu agradecer publicamente o esforço do pai para mantê-lo na faculdade. No braço do jaleco, o formando mandou bordar referências aos dois trabalhos que marcaram a trajetória de Francisco: o carrinho de lanches que ajudou a sustentar a casa por muitos anos e o colete usado atualmente nas viagens em que vende adesivos por cidades do Nordeste.
Segundo Matheus, aquele momento teve um peso ainda maior porque ele nunca tinha visto o pai chorar. “Nunca vi meu pai chorando. Foi uma emoção tão genuína que, na hora, não consegui segurar o choro de emoção e felicidade. Até agora a ficha não caiu que ele chorou”, relatou.
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Homenagem levou para o jaleco a história de trabalho do pai
A ideia começou a amadurecer em maio, quando Matheus se aproximava da fase final do curso e da entrega do trabalho de conclusão. Ele queria prestar algum tipo de reconhecimento ao pai, mas precisava encontrar uma forma que resumisse a trajetória vivida pela família.
Como o antigo carrinho de lanches já não existia e não havia fotografias dele, o estudante recorreu à inteligência artificial para gerar uma imagem que lembrasse o ofício exercido por Francisco no passado. O desenho foi incluído primeiro no TCC e também na apresentação, na parte reservada aos agradecimentos.
No dia em que defendeu o trabalho, porém, o pai estava viajando pela Paraíba e não assistiu à homenagem. Foi então que Matheus decidiu levar o tributo para outro espaço ainda mais simbólico: o jaleco usado no ensaio da formatura.
Além dos bordados, a peça trazia a passagem bíblica de Êxodo 20:12: “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá”.

Pai diz que não esperava gesto do filho
Francisco contou que já havia sido surpreendido em outras conclusões de curso da família, mas dessa vez a emoção foi diferente. O vendedor ambulante disse que o detalhe bordado no jaleco o atingiu de forma imediata.
“Os meninos sempre surpreendem, mas não esperava que o Matheus fizesse o que ele fez. Bordar o carrinho do lanche e o colete dos adesivos no jaleco dele. Não esperava nunca aquilo dali. Foi o que me tocou para valer mesmo, que me fez chorar”, afirmou.
Durante o ensaio de formatura, os dois protagonizaram um gesto simbólico: Matheus colocou o capelo na cabeça de Francisco e, logo depois, passou a usar o chapéu de palha que acompanhava o pai durante as viagens de trabalho.
Ao lembrar daquele instante, Francisco voltou a se emocionar. “A hora de trocar o chapéu não vou nem dizer qual foi a sensação. Precisava procurar palavras, não tenho nem palavras para dizer a emoção que senti”, declarou.

Vendas de adesivos se tornaram caminho para manter o sonho dos filhos
Natural de Santa Quitéria, Francisco construiu a vida como vendedor ambulante. Durante muitos anos, ele e a esposa, Lucivânia, sustentaram a família comercializando lanches em um carrinho, atividade que acabou originando o apelido pelo qual é conhecido até hoje nas redes sociais.
Depois da pandemia, a rotina mudou. Para continuar ajudando os filhos a concluir os estudos, ele passou a viajar pelo Nordeste vendendo adesivos. A nova etapa do trabalho o levou a circular por 218 municípios espalhados em sete estados da região.
Até agora, faltam apenas Sergipe e Alagoas para completar o que ele chama de mapa de sua “busca de sonhos”. As viagens variam conforme o resultado das vendas. Em alguns momentos, ele passa até três meses fora de casa antes de retornar para reabastecer o catálogo.
Os adesivos são vendidos por preços populares: uma unidade custa R$ 2, enquanto três saem por R$ 5. Nos melhores dias, Francisco consegue comercializar mais de 250 unidades.

Distância da família também cobra um preço emocional
Se por um lado o trabalho colocou os filhos mais perto do diploma, por outro exigiu um afastamento doloroso de casa. O próprio Francisco admite que a saudade é um dos pontos mais difíceis dessa rotina.
“Tem a saudade que a gente sente nessas viagens, visitando o Nordeste e passando meses fora de casa”, contou.
Ele lembrou ainda um episódio que define bem o lado mais duro desse sacrifício. Segundo o vendedor ambulante, uma das situações mais tristes aconteceu quando a neta telefonou no aniversário de dez anos para dizer que faltava apenas o avô na comemoração.
“Durante essas viagens minha neta ligou e disse que no aniversário dela de dez anos só faltava o avô. Isso foi muito doloroso”, revelou.
Matheus é o quarto filho de Francisco e Lucivânia a alcançar a graduação. Antes dele, o trabalho do pai ajudou Carlos, de 32 anos, a se formar em Jornalismo. Giordano, de 30 anos, concluiu o curso técnico em Segurança do Trabalho. Já Francisco Júnior, de 27 anos, também seguiu a Odontologia.
Todos estudaram em escola pública, mas, quando chegou o momento do ensino profissionalizante ou da graduação, precisaram recorrer à rede privada para seguir adiante com os planos.
Filho diz que exemplo do pai sustentou sua caminhada
Matheus afirma que a ausência do pai sempre pesou, mas nunca foi interpretada como abandono. Pelo contrário: os filhos enxergam nas viagens uma prova de dedicação.
O recém-formado contou que, ao longo da graduação, costumava se lembrar diariamente do esforço de Francisco. “Meu pai sempre se esforçou para que nada faltasse para mim e meus irmãos. Sempre ajudou a todos com um sorriso no rosto e isso me inspira profundamente”, declarou.
Ele acrescentou que o pai se tornou uma referência de perseverança e coragem. “Todos os dias em que acordava para ir à faculdade, pensava na luta dele, no esforço diário durante a merenda e os adesivos. Ele sempre foi, e continua sendo, uma fonte de força para mim”, afirmou.
A admiração, inclusive, não ficará restrita a esse episódio. De acordo com Matheus, uma nova homenagem está sendo preparada, desta vez reunindo os cinco filhos do casal.
Formatura em agosto promete nova emoção para Francisco da Merenda
A colação de grau de Matheus está marcada para agosto, no Centro Universitário Uninta, em Sobral. Até lá, Francisco tenta equilibrar a emoção recente com a necessidade de seguir trabalhando na estrada.
A homenagem recebida no ensaio transformou em imagem tudo aquilo que a família viveu ao longo dos anos: o carrinho de lanches, os adesivos, a distância, a saudade e a insistência em não desistir dos estudos dos filhos.
Ao ver a própria história bordada no jaleco do filho, Francisco da Merenda deixou escapar as lágrimas que, em 24 anos, Matheus jamais tinha presenciado. E foi justamente esse choro, tão raro quanto sincero, que acabou resumindo o tamanho do caminho percorrido até ali.
Fonte: Diário do Nordeste

