A americana Amanda Hi-c largou a engenharia civil depois de aceitar o convite de um capitão que nunca tinha visto na vida. Passou dois anos morando em um veleiro no Pacífico e acabou na Indonésia, plantando corais e mantendo viveiros para recuperar recifes destruídos.
Uma mensagem de um estranho na internet costuma terminar em bloqueio. No caso da engenheira civil americana Amanda Hi-c, terminou com ela morando em uma ilha da Indonésia e plantando corais no fundo do mar, depois de largar quase dez anos de carreira em Los Angeles para embarcar em um veleiro rumo ao Pacífico. A trajetória foi contada por ela à revista People em reportagem publicada em 22 de junho de 2026.
A virada começou em 2018, quando um convite para tirar certificação de mergulho em Honduras mudou o rumo dos planos dela. De lá para cá foram dois anos morando dentro de um veleiro no Pacífico e a mudança definitiva para Sulawesi do Norte, na Indonésia, onde ela mantém viveiros submarinos, monitora a saúde dos recifes e transplanta mudas de coral para áreas destruídas. A definição que ela dá do próprio ofício é doméstica: jardineira, só que debaixo d’água.
A vida que estava certa no papel

imagem: amandahic
Do lado de fora, não havia o que reclamar. Engenheira civil morando no centro de Los Angeles, ela tinha carreira consolidada, conforto e um caminho profissional definido, exatamente o roteiro que havia planejado.
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O problema aparecia na contabilidade dos dias. “Mesmo sendo exatamente a vida que eu havia planejado sistematicamente para mim, parecia que eu passava 95% da minha vida esperando pelas três semanas de férias que eu tinha todo ano”, contou à revista.
Havia ainda o isolamento em meio à multidão. Enquanto amigas se casavam, formavam famílias ou mudavam de cidade, ela se sentia sozinha em uma das maiores metrópoles do país, com um futuro que já não dava vontade de acordar cedo.
A morte que fez a pergunta
O incômodo virou questão direta depois de uma perda. A mãe dela morreu pouco tempo depois de se aposentar, sequência que expôs a fragilidade do plano de deixar a vida para depois.
A pergunta que sobrou é a mesma que muita gente adia. “O que estou fazendo da minha vida?”, ela lembra de ter se perguntado na época.
A resposta não chegou pronta. Ela foi se formando aos poucos, em uma sequência de experiências que abriram possibilidades que nunca tinham entrado na conta, e nenhuma delas envolvia escritório.
O primeiro mergulho em Honduras

A virada começou com um convite banal. Em 2018, uma amiga a chamou para tirar a certificação de mergulho em Honduras, e o que era passeio virou descoberta.
O fascínio pelo mar já existia desde a infância, entre poças de maré e aquários, mas respirar embaixo da água era outra coisa. “Cada mergulho era como despertar uma parte de mim que estava adormecida há muito tempo”, afirmou.
O efeito foi imediato e sem meio-termo. “Fiquei imediatamente viciada”, resumiu, sobre a sensação daquela primeira experiência submersa.
Os Açores e a descoberta de outro modo de viver
Alguns meses depois, outra viagem mostrou que existia gente vivendo daquele jeito em tempo integral. Navegando pelas ilhas dos Açores, em Portugal, ela conheceu pessoas que moravam em veleiros e organizavam a vida em torno de viagens, explorando cantos remotos do planeta.
A paisagem ajudou a fixar a ideia. Nadar ao lado de raias-manta e ver golfinhos acompanhando o barco deixaram marca, tanto quanto o estilo de vida que ela observou de perto.
De volta ao trabalho, o pensamento não saiu. “Fiquei completamente fascinada pela ideia. Quando a viagem terminou, voltei para Los Angeles e retornei ao trabalho, mas não conseguia parar de pensar: ‘Um dia, quero fazer isso'”, contou.
Como ela se preparou para poder dizer sim
A decisão não foi impulsiva, e essa é a parte menos romântica da história. Em vez de pedir demissão de imediato, ela passou a construir condições financeiras para aceitar uma oportunidade caso ela aparecesse.
O método tem nome e seguidores. Ela mergulhou no movimento de independência financeira e aposentadoria antecipada, conhecido pela sigla FIRE, que prega cortar gastos e poupar de forma agressiva para comprar tempo livre.
As mudanças foram concretas. Reduziu o padrão de vida, saiu do apartamento no centro da cidade e passou a economizar com disciplina, montando a reserva que depois viabilizaria a virada.
A mensagem que mudou tudo
O convite chegou por um canal que ela mesma abriu. Depois de criar um perfil em um site que conecta veleiros a tripulantes, recebeu a mensagem de um capitão desconhecido.
O texto era curto e direto. “Ei, estou saindo de San Diego no dia 1º de novembro para dar a volta ao mundo de veleiro. Você tem interesse?”, dizia a mensagem.
A proposta soava improvável, mas ela foi conferir pessoalmente. “Encontrei o capitão pessoalmente uma vez, decidi que ele provavelmente não era um assassino em série e abandonei minha carreira de engenheira de quase dez anos no dia seguinte”, afirmou.
Dois anos morando dentro de um barco
A mudança foi rápida e definitiva. Em poucas semanas ela empacotou as coisas, foi morar no veleiro e deixou a Califórnia para trás, no que imaginava ser uma aventura de um ano.
O prazo se esticou sozinho. O primeiro ano foi navegando pela costa do México e explorando o Mar de Cortez, antes da travessia do Oceano Pacífico.
Depois veio a parte mais remota do trajeto. Foi mais um ano entre ilhas isoladas do Pacífico Sul, incluindo a Polinésia Francesa, com os dias divididos entre mergulho livre em recifes e observação de vida marinha.
A câmera que virou profissão
O interesse pela fotografia nasceu de uma vizinhança improvável em alto-mar. Ela conheceu um casal que trabalhava como fotógrafo subaquático e passou a se inspirar na forma como eles registravam o que existe abaixo da superfície.
O começo foi modesto. “Eu tinha uma câmera de ação e comecei a tirar mais fotos e vídeos, compartilhando o que estava vendo com amigos e familiares em casa nas redes sociais”, contou.
Com o tempo, o registro deixou de ser lembrança de viagem. Quanto mais tempo passava submersa, mais queria entender os ecossistemas que estava fotografando e as ameaças que eles enfrentam, o que empurrou o interesse para a conservação.
De voluntária em Bornéu a jardineira submarina

imagem: amandahic
Depois de dois anos no mar, a prioridade mudou de lugar. Ela percebeu que queria passar menos tempo navegando e mais tempo debaixo d’água, e começou a atuar como voluntária em projetos de conservação marinha em Bornéu.
Dali veio o encaixe definitivo. Em seguida ela se juntou a iniciativas de restauração de corais em outras partes da Indonésia, área que reuniu todos os interesses que tinha acumulado.
A explicação que ela dá para a escolha é bem específica. “Para mim, a restauração de corais representou a interseção perfeita de tudo o que eu amava: mergulho, vida marinha, ciência, resolução de problemas, contar histórias e conservação”, disse.
O que é, na prática, plantar coral
A comparação que ela usa dispensa termo técnico. “A explicação mais simples é que sou uma jardineira subaquática plantando corais”, afirmou.
As tarefas seguem a mesma lógica de um canteiro em terra firme. “Assim como um jardineiro terrestre cultiva plantas, remove ervas daninhas e controla pragas, fazemos as mesmas coisas debaixo d’água”, explicou.
O trabalho atual é feito em parceria com duas organizações. Ela atua com a Ocean Gardener e a Murex Resorts, em Sulawesi do Norte, mantendo viveiros de corais, recuperando recifes danificados e orientando visitantes sobre conservação marinha.
As ameaças que ela vê de perto

imagem: amandahic
O trabalho diário expõe o tamanho do problema. “Os recifes de coral sustentam uma quantidade incrível de vida, mas estão enfrentando uma imensa pressão devido às mudanças climáticas, à pesca excessiva, à poluição, às doenças e às práticas de pesca destrutivas”, afirmou.
São cinco frentes que costumam agir ao mesmo tempo. Aquecimento da água, retirada excessiva de peixes, despejo de resíduos, surtos de doença e métodos predatórios de pesca, cada um desses fatores atacando o recife por um ângulo diferente. No Brasil, a proteção de recifes e de áreas marinhas é atribuição de órgãos como o ICMBio.
Ainda assim, ela relata resultado visível no curto prazo. “Se você pegar uma área de entulho sem vida, começar a instalar algumas estruturas de restauração e plantar corais nelas, você literalmente começará a ver peixes e vida marinha ali no final do mergulho”, contou.
O recado que ela quer deixar

imagem: amandahic
A divulgação do trabalho nas redes tem objetivo declarado. Ela publica no Instagram e no TikTok vídeos sobre viveiros de corais, projetos de restauração e encontros com a vida marinha, tentando mostrar um mundo que a maioria nunca vai ver pessoalmente.
A aposta é que ver gere vontade de preservar. “Tem sido muito legal fazer isso em uma escala maior, mostrando às pessoas o quão incrível é o mundo subaquático, para que, com sorte, elas se sintam motivadas a protegê-lo”, disse.
E há um conselho que ela repete sobre a própria escolha. “Espero que as pessoas reconheçam que, quando sentirem um chamado para fazer algo diferente na vida, devem atendê-lo. Não se acomodem no desconforto silencioso e familiar pelo resto da vida”, afirmou.
E você, responderia essa mensagem?
De engenheira civil em Los Angeles a jardineira submarina plantando corais em uma ilha da Indonésia, Amanda Hi-c construiu uma segunda vida que começou com uma resposta a um desconhecido na internet. Antes disso, porém, houve dois anos de corte de gastos e reserva financeira, o detalhe que costuma sumir quando esse tipo de história é contada.
E você, teria coragem de responder sim a um convite desses? Acha que largar carreira estável para viver de outra coisa é liberdade ou irresponsabilidade? Conte nos comentários a sua opinião e marque aquela pessoa que vive dizendo que um dia larga tudo.
