Espécime encontrado no Texas foi confundido com crustáceo desde 1985, mas nova análise revelou animal ancestral com 24 patas, possível vida aquática e terrestre e anatomia próxima à dos insetos modernos em estudo da Nature.
Um fóssil de inseto encontrado no oeste do Texas e confundido durante quase 40 anos com um jovem crustáceo foi identificado como um animal de 324 milhões de anos, dotado de 24 patas e possíveis adaptações à água e à terra.
Fóssil de inseto permaneceu classificado como crustáceo desde 1985
O espécime foi coletado em 1985 nas proximidades do Rancho Rough Creek, no Condado de Brewster, ao norte do Parque Nacional Big Bend. Achatado e preservado em xisto escuro, o fóssil parecia apenas uma mancha sobre a rocha.
Como apareceu no mesmo leito fossilífero de Tesnusocaris goldichi, um crustáceo com vários segmentos corporais, os pesquisadores inicialmente interpretaram o animal como um exemplar juvenil dessa espécie.
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A classificação começou a ser questionada quando Erik Tihelka, paleoentomologista da Universidade de Cambridge, encontrou um desenho antigo do espécime em um livro didático russo usado. A imagem despertou dúvidas sobre a identificação mantida até então.
Depois de conseguir acesso ao fóssil, Tihelka examinou o material sob luz polarizada cruzada. A técnica revelou uma anatomia diferente daquela esperada para um jovem crustáceo.
O animal possuía seis patas distribuídas pelo tórax e outras 18 ao longo do abdômen. Com 24 patas no total, ele combinava características associadas atualmente a insetos e crustáceos.
O estudo identifica a espécie como Chosha praecursor e a apresenta como um provável ancestral dos insetos. Segundo Tihelka, o fóssil “preenche uma grande lacuna no registro fóssil”.
Anatomia revela fêmea adulta com 24 patas
A equipe encontrou um tórax dividido em três partes, organização corporal característica dos insetos. O animal também apresentava um abdômen formado por 11 segmentos, um par de antenas longas e um filamento central na cauda.
Nove segmentos abdominais continham pares de pernas articuladas. Somadas às seis patas torácicas, essas estruturas elevaram para 24 o número total de patas identificadas no espécime.
Os apêndices localizados na parte posterior terminavam em estruturas achatadas, sulcadas e semelhantes a pás. Esse formato é uma das principais pistas sobre a possível relação do animal com ambientes aquáticos rasos.
O corpo media aproximadamente 3,2 centímetros de comprimento. Considerados também os filamentos da cauda, o animal chegava a quase 5 centímetros.
Outro elemento identificado foi um ovipositor, estrutura utilizada para a postura de ovos. Sua presença indica que o fóssil provavelmente corresponde a uma fêmea adulta, e não a um animal juvenil, como se acreditava anteriormente.
A anatomia oferece um raro registro de um período anterior à consolidação do plano corporal dos insetos modernos. Atualmente, esses animais são definidos pela presença de seis patas, condição que ainda não aparecia plenamente estabelecida em Chosha.
Análise posiciona espécie próxima aos insetos vivos
Para investigar a posição evolutiva do animal, os pesquisadores compararam Chosha com outros 22 táxons de artrópodes vivos e fósseis. Ao todo, 58 características anatômicas foram classificadas e utilizadas na elaboração da árvore evolutiva.
A árvore considerada mais bem fundamentada colocou Chosha imediatamente fora do grupo que reúne os insetos vivos. A análise indica que o animal não era um crustáceo, contrariando a interpretação adotada após sua descoberta.
Os cientistas, porém, não descartaram uma posição um pouco mais profunda na base de todos os hexápodes. Como existe somente um espécime, que também está incompleto, a posição exata da espécie na árvore da vida permanece incerta.
A pesquisa ainda reclassificou outros três fósseis considerados enigmáticos. Entre eles está Leverhulmia mariae, espécie escocesa de aproximadamente 405 milhões de anos posicionada no grupo basal dos insetos.
Com essa classificação, Leverhulmia mariae tornou-se o inseto mais antigo reconhecido pelo estudo. Dois fósseis de animais com muitas pernas, provenientes de Mazon Creek, em Illinois, também foram incluídos nesse grupo mais amplo.
Esses fósseis possuem cerca de 306 milhões de anos. Em conjunto com Chosha, ajudam a preencher uma lacuna de aproximadamente 80 milhões de anos entre os hexápodes do início do Devoniano e a diversidade de insetos encontrada posteriormente no Carbonífero.
Patas semelhantes a remos podem indicar vida entre água e terra
As patas abdominais achatadas são a principal pista sobre o modo de vida de Chosha. Em posição e formato, elas se parecem com estruturas branquiais encontradas em algumas efêmeras atuais.
Os autores sugerem que esses apêndices poderiam ser utilizados para respirar, nadar ou permitir a movimentação sobre a lama em águas rasas. Também existe a possibilidade de terem desempenhado simultaneamente funções respiratórias e de natação.
As patas do tórax, por outro lado, apresentavam estruturas adequadas para caminhar em terra. O ovipositor poderia permitir que a fêmea depositasse seus ovos em fendas protegidas.
Essa combinação sustenta a possibilidade de uma transição gradual entre ambientes aquáticos costeiros e o solo. O animal reuniria, portanto, adaptações relacionadas tanto à água quanto à locomoção terrestre.
O ambiente exato ocupado pela espécie não foi determinado. A Formação Tesnus, onde o fóssil foi encontrado, é considerada um antigo ambiente marinho raso, deltaico ou litorâneo.
O espécime também não preservou espiráculos, as aberturas ligadas ao sistema traqueal dos insetos. Por isso, não foi possível confirmar se os apêndices abdominais funcionavam como brânquias, estruturas de natação ou exerciam ambas as funções.
A identificação foi testada em múltiplas análises filogenéticas, mas os pesquisadores ainda dependem da descoberta de novos fósseis para fortalecer a interpretação. Para o paleobiólogo William Shear, o achado “abre muitas portas para o estudo da evolução dos insetos”.

