Marcada por trabalho precoce, perdas familiares e dificuldades financeiras, a trajetória atravessou universidades, cursos técnicos, estágios e coleta de lixo antes de alcançar uma oportunidade no serviço público, reunindo episódios que mostram como estudo, trabalho e responsabilidades familiares permaneceram lado a lado durante anos.
Lúcer Clébio Campos de Almeida começou a trabalhar ainda na infância, quando passou a dividir a rotina escolar com atividades na feira e em obras, e enfrentou aos 14 anos a morte da mãe, enquanto a família atravessava dificuldades financeiras em Macapá.
Mesmo sem estabilidade material, ele manteve os estudos, concluiu Pedagogia, formou-se como técnico em Enfermagem, ingressou em outros cursos e trabalhou como gari para sustentar os filhos antes de conquistar aprovação em concurso público municipal na área da saúde.
Filho de um pedreiro e de uma feirante, o amapaense cresceu no bairro Araxá, na zona sul da capital, e já aos 12 anos ajudava a mãe na feira, além de acompanhar o pai durante trabalhos realizados na construção civil.
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Dois anos mais tarde, a rotina familiar sofreu uma mudança profunda após o assassinato da mãe, mas a perda não interrompeu definitivamente o caminho escolar de Lúcer, que permaneceu ligado à educação enquanto precisava lidar com novas responsabilidades pessoais e financeiras.
Estudos em Macapá continuaram após o trabalho precoce
Na educação básica, ele concluiu o ensino fundamental na Escola Hildemar Maia e cursou o ensino médio na Escola Castelo Branco, ambas em Macapá, antes de passar três anos frequentando o Colégio Desafio, pré-vestibular direcionado a estudantes de baixa renda.
Registrada pelo portal SelesNafes em reportagem assinada pelo jornalista Rodrigo Índio, a trajetória mostra que uma das primeiras qualificações profissionais surgiu após sua aprovação em processo seletivo para o curso técnico de cozinha do Centro de Ensino Profissionalizante Professora Josinete Oliveira Barroso.
Concluída essa formação, novos caminhos acadêmicos passaram a fazer parte da rotina, e Lúcer ingressou na Universidade Estadual do Amapá depois de ser aprovado no vestibular para Pedagogia, curso que manteve até obter o diploma de graduação.
Ao mesmo tempo em que avançava na universidade, ele buscou qualificação na área da saúde e iniciou o curso técnico de Enfermagem no Centro de Educação Profissional Graziela Reis de Souza, formação profissional que também conseguiu concluir.

Falta de comida e dinheiro para ônibus marcou a formação
Conciliar aulas, estágios e deslocamentos trouxe dificuldades que ultrapassavam a exigência acadêmica, pois Lúcer relatou períodos em que passava o dia sem conseguir se alimentar adequadamente, principalmente durante atividades práticas que ocupavam grande parte de sua rotina.
Em outros momentos, o orçamento era tão limitado que faltava dinheiro para pagar a passagem de ônibus necessária aos deslocamentos entre estudos, estágios e demais compromissos, situação enfrentada enquanto ele continuava buscando novas possibilidades de formação profissional.
Depois das primeiras conquistas acadêmicas, o Exame Nacional do Ensino Médio abriu outra oportunidade, permitindo que Lúcer obtivesse uma vaga em Letras, com habilitação em Francês, novamente na Universidade Estadual do Amapá, onde iniciou uma nova etapa de estudos.
Embora tivesse começado essa graduação, a área da saúde continuava presente em seus planos, e uma convocação pelo Sistema de Seleção Unificada permitiria pouco depois uma mudança de curso ligada também às necessidades existentes dentro da própria família.
Fisioterapia abriu um novo caminho na Universidade Federal do Amapá
Por meio do Sistema de Seleção Unificada, Lúcer conseguiu ingressar em Fisioterapia na Universidade Federal do Amapá e deixou o curso de Letras para seguir a nova graduação, ampliando uma trajetória acadêmica que já reunia diferentes áreas de formação.
A escolha também possuía relação com sua realidade familiar, já que um dos filhos de criação tem paralisia cerebral e necessita de acompanhamento relacionado à saúde e ao desenvolvimento, aproximando ainda mais o estudante das atividades vinculadas à Fisioterapia.
Além desse filho, Lúcer assumiu responsabilidades com outra filha de criação e uma filha biológica, enquanto precisava conciliar as despesas da família com aulas, projetos universitários e atividades práticas exigidas pela nova graduação na Universidade Federal do Amapá.
Quando o calendário acadêmico sofreu atrasos durante a pandemia, a conclusão do curso de Fisioterapia também foi afetada, e a necessidade de garantir renda para a família permaneceu mesmo enquanto a formação universitária demorava mais tempo para avançar.
Trabalho como gari garantiu renda sem interromper os estudos
Diante das despesas familiares, Lúcer encontrou na coleta de lixo uma fonte de renda e passou a trabalhar como gari coletor em Macapá, ocupação que assumiu enquanto continuava matriculado na universidade e mantinha vínculo com atividades acadêmicas na área da saúde.
Mesmo vestindo diariamente o uniforme da limpeza urbana, ele permaneceu ligado à Fisioterapia e participou de um projeto de extensão dedicado ao tratamento neurofuncional, iniciativa da qual seu próprio filho também fazia parte na condição de paciente acompanhado pela equipe.
Durante esse período, a profissão de gari colocou Lúcer diante de comentários depreciativos, incluindo o questionamento de uma conhecida sobre sua decisão de trabalhar na coleta de lixo apesar das formações já concluídas e da graduação que ainda cursava.
Ao responder publicamente ao episódio, ele defendeu o respeito aos profissionais responsáveis pela limpeza das ruas e ressaltou que trabalhadores uniformizados também possuem famílias, estudos, dificuldades financeiras e projetos pessoais que não podem ser conhecidos apenas pela função exercida.
Na mesma manifestação, Lúcer também relatou experiências positivas encontradas durante o serviço, mencionando moradores que ofereciam água e alimentos às equipes de coleta, gestos que faziam parte de uma rotina profissional marcada pelo contato diário com diferentes regiões da cidade.
Concurso da Prefeitura de Macapá abriu vaga na saúde
Enquanto continuava na limpeza urbana e mantinha os estudos em Fisioterapia, uma qualificação conquistada anos antes criou outra possibilidade profissional, pois o curso técnico de Enfermagem permitia que Lúcer disputasse vagas públicas diretamente relacionadas à área da saúde.
Em concurso público municipal, ele conseguiu aprovação para o cargo de técnico em Enfermagem, aproveitando uma formação iniciada enquanto ainda avançava em Pedagogia e transformando o certificado obtido anteriormente em requisito para uma nova oportunidade profissional.
A sequência de estudos reunia, naquele momento, experiências bastante diferentes, passando por pré-vestibular, curso técnico de cozinha, graduação em Pedagogia, formação técnica em Enfermagem, ingresso em Letras e estudos de Fisioterapia na Universidade Federal do Amapá.
Posteriormente, a aprovação ganhou um desdobramento oficial quando Lúcer Clébio Campos de Almeida apareceu entre os candidatos convocados pela Prefeitura de Macapá para posse e nomeação como técnico em Enfermagem, ocupando a classificação 269 na relação referente ao cargo.
Publicado pelo município, o documento de convocação estava relacionado ao concurso destinado ao provimento de cargos e à formação de cadastro de reserva da Secretaria Municipal de Saúde, incluindo profissionais de diferentes especialidades entre os candidatos chamados naquela etapa.
A presença de Lúcer entre os técnicos de Enfermagem convocados acrescentou uma nova fase profissional a um percurso construído enquanto estudo e trabalho avançavam simultaneamente, muitas vezes sob limitações financeiras que afetavam alimentação, transporte e organização da própria rotina.
Ao longo desse caminho, a feira, as obras acompanhando o pai, o pré-vestibular, os cursos, os estágios, a coleta de lixo e a formação universitária coexistiram em diferentes momentos, sem que a trajetória permanecesse limitada a uma única atividade profissional.
Quantas histórias de formação, trabalho e mudança profissional podem permanecer desconhecidas por quem cruza diariamente com trabalhadores da limpeza urbana sem imaginar os estudos, responsabilidades familiares e projetos construídos por trás daquele uniforme?
