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Aos 28 anos, pedreiro que acordava às 3h da manhã e estudava de vela leva o capacete de obra para dentro da colação, escreve ‘um pedreiro também tem direito de realizar seus sonhos’ nele e posa de beca com o capacete ao lado do diploma de Direito da UNAH, com láurea cum laude

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 10/08/2026 às 11:51 Atualizado em 10/08/2026 às 11:52
Pedreiro que estudava à luz de velas levou o capacete de obra à colação e recebeu o diploma de Direito da UNAH com cum laude, aos 28 anos.
Pedreiro que estudava à luz de velas levou o capacete de obra à colação e recebeu o diploma de Direito da UNAH com cum laude, aos 28 anos.
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Osman Geovanny Alonzo Gonzáles começou na lavoura ainda menino, virou pedreiro e passou nove anos conciliando obra e faculdade. No dia da formatura, tirou o capacete de uma sacola preta debaixo da cadeira e subiu ao palco com ele na mão.

Aos 28 anos, o hondurenho Osman Geovanny Alonzo Gonzáles recebeu o diploma de Direito da Universidade Nacional Autônoma de Honduras com distinção cum laude, depois de anos trabalhando como pedreiro para custear os próprios estudos, segundo reportagem publicada pelo jornal El Heraldo em 29 de setembro de 2023, assinada por Alejandra Rivera. Ele é natural de Ojojona, município do departamento de Francisco Morazán.

O gesto que fez a história circular aconteceu na cerimônia, realizada no Palácio dos Esportes da universidade. Osman levou para o auditório o capacete branco que usa nas obras, guardado dentro de uma sacola preta debaixo da cadeira, e subiu ao palco com ele nas mãos para receber o título. Na peça, ele havia escrito uma frase: um pedreiro também tem direito de realizar seus sonhos.

A infância que começou na lavoura

O primeiro trabalho de Osman não foi na construção civil. Ele conta que começou como trabalhador braçal na lavoura, plantando milho, feijão e café, cuidando do gado e andando a cavalo, ocupando-se de tudo o que envolve serviço no campo.

A rotina era pesada e começava antes do amanhecer. Ele acordava às 3h ou 4h da manhã para conseguir chegar ao local de trabalho, porque o trajeto era longo, e voltava para casa às 18h ou 19h. Entre a saída e o retorno havia até 16 horas de dia consumido, contando deslocamento e jornada, o que não deixava margem para frequentar escola em horário regular.

Estudar aos sábados e à luz de velas

Seu sonho de usar terno e gravata se tornou realidade quando ele se formou em direito.
Seu sonho de usar terno e gravata se tornou realidade quando ele se formou em direito.

Foi essa incompatibilidade que definiu a forma como ele estudou. Aos 11 anos, Osman passou a cursar o ensino na modalidade a distância, comparecendo apenas aos sábados, porque o trabalho no campo tomava todos os outros dias da semana.

O restante do estudo acontecia à noite, e sem energia elétrica em casa. Ele conta que fazia a lição e estudava à luz de velas, e que foi assim que concluiu os três anos de ensino fundamental e o ensino médio. A trajetória escolar dele inteira foi cumprida à luz de vela e em um único dia útil por semana. Carregar pá e balde de segunda a sexta e uma mochila com material aos sábados virou a divisão padrão da vida dele naquele período.

Vinte e cinco lempiras e um prato de comida

O pagamento no começo era mínimo. Osman relata que a motivação diária para levantar e trabalhar era um prato de comida e 25 lempiras por dia, valor que ele levava para ajudar em casa.

A remuneração aumentou quando ele passou a atuar em obras maiores. Chegou a ganhar 100 lempiras por dia, o que dava 500 por semana, e a divisão que fazia desse dinheiro explica a lógica dele: 300 iam para a mãe e 200 ficavam reservados para os estudos. Quarenta por cento do salário de um pedreiro virava mensalidade, material e transporte de faculdade.

Ele avalia que o desejo de melhorar de vida foi mais forte que o cansaço físico e que a ideia de desistir nunca chegou a passar pela cabeça. Admite ter dito, em algum momento, que não aguentava mais, porque a situação financeira estava no limite, mas separa isso de abandonar o curso.

De “maistro” na obra a “abogado” antes do nome

Com botas de borracha, uma picareta e uma pá, Osman abriu caminho para continuar seus estudos.
Com botas de borracha, uma picareta e uma pá, Osman abriu caminho para continuar seus estudos.

Na construção, Osman ouvia todos os dias a palavra “maistro”, forma como se chama o pedreiro experiente nos canteiros de Honduras. É o tratamento que acompanhou boa parte da vida adulta dele.

O que mudou com o diploma foi o vocativo. Ele diz que ouvir “abogado” antes do próprio nome o enche de orgulho, justamente porque só ele conhece o tamanho do sacrifício do período anterior. Não é troca de identidade, é acúmulo de títulos, e é exatamente essa leitura que aparece na frase escrita no capacete e na publicação que ele fez nas redes sociais, em que se descreve como pedreiro e advogado ao mesmo tempo.

Por que Direito, e não outra coisa

Com medo e nervosismo, mas de cabeça erguida, Alonzo carregou orgulhosamente seu capacete para receber seu título.
Com medo e nervosismo, mas de cabeça erguida, Alonzo carregou orgulhosamente seu capacete para receber seu título.

A escolha do curso vem da infância e tem uma origem visual, quase ingênua. Osman conta que, quando criança, gostava de como os advogados se vestiam, de como falavam e de como interpretavam a lei.

Ele se imaginava com camisa social, calça preta e paletó, e diz que a atenção que dava a esse detalhe surgiu ainda na escola. Mas o interesse não parou na aparência. Ele afirma que gosta de fato do Direito, de interpretá-lo e de dar a ele o significado adequado.

Há também um episódio pessoal que ele menciona sem detalhar. Osman relata um momento em que quase perdeu a liberdade, período em que chegou a achar que a vida nunca mais seria a mesma e que não alcançaria os próprios objetivos. Segundo ele, essa lembrança amarga acabou alimentando a paixão pelo Direito, e ele optou por não entrar em detalhes sobre o caso.

Nove anos entre o canteiro e a universidade

A entrada na Universidade Nacional Autônoma de Honduras trouxe um problema prático imediato. O horário de trabalho dele era incompatível com o horário das aulas, e a conciliação exigiu ajustes constantes ao longo de todo o curso.

O apoio financeiro da família era limitado, e ele acabou conseguindo um emprego mais estável para custear as despesas universitárias. A leitura que faz dessa fase não é de dívida com ninguém: ele avalia que, quando alguém realiza um trabalho, recebe um salário como contrapartida, e que tudo depende de como a pessoa se comporta.

Entre o ingresso e a formatura passaram-se nove anos. Ele trabalhava mais de oito horas por dia na construção e usava o restante do tempo para estudar. Fadiga, insônia e cansaço são as três palavras que ele usa para resumir o período.

O capacete que saiu da sacola preta

O momento da entrega do diploma foi descrito por ele em detalhes. Quando ouviu o próprio nome ser chamado, ficou ansioso e nervoso, sem saber o que sentiria. Manteve a calma, tirou o capacete de operário da sacola preta que estava debaixo da cadeira e o carregou nas mãos e no braço até o palco.

A reação da plateia acrescentou tensão à cena. Osman conta que as pessoas o olhavam de um jeito estranho enquanto ele passava, o que o deixou ainda mais nervoso, mas que ele ergueu a cabeça e seguiu caminhando até o ponto onde os diplomas eram entregues, voltando depois ao próprio lugar. Ninguém no auditório esperava um capacete de obra numa colação de grau em Direito.

Na foto que ele publicou depois, o capacete branco aparece posicionado exatamente ao lado do título de advogado, com a distinção cum laude em destaque. Foi essa imagem que circulou por Honduras.

A dedicatória e o recado para quem vem depois

Sua família foi sua principal motivação para continuar e alcançar este dia de formatura tão esperado. As lágrimas correram livremente entre seus entes queridos ao testemunharem sua conquista.
Sua família foi sua principal motivação para continuar e alcançar este dia de formatura tão esperado. As lágrimas correram livremente entre seus entes queridos ao testemunharem sua conquista.

Ao segurar o diploma, Osman dedicou a conquista ao bebê de quatro meses, à esposa e, principalmente, à mãe, que ele aponta como uma das pessoas que mais o motivaram a estudar. Estendeu a homenagem às avós materna e paterna, às tias, aos irmãos e ao restante da família.

O recado que ele deixa para outros jovens é sobre constância, e não sobre talento. Osman afirma que não se considera a única pessoa de origem humilde com sonhos, esperanças e vontade de ter uma carreira universitária, e pede que quem pensar em desistir seja consistente e perseverante, porque as coisas acontecem no tempo delas. A advertência que ele acrescenta é sobre desperdício: os anos passam de qualquer forma, e quem não os aproveita fica sem nada no fim.

E você, teria aguentado nove anos dividindo o dia entre obra e faculdade para chegar a um diploma, ou acha que existe um limite de esforço que ninguém deveria ter que pagar para estudar? Conta nos comentários o que você acha desse tipo de trajetória.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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