Filho de trabalhador da limpeza urbana, Maicon Rainan atravessou anos de estudo e trabalho até chegar à Medicina e, na faculdade, transformou um vídeo com colegas negros em uma mensagem de representatividade.
Um vídeo publicado por Maicon Rainan de Almeida Silva, estudante de Medicina no Rio de Janeiro, transformou uma pergunta simples em uma discussão sobre quem consegue se imaginar usando um jaleco e ocupando determinadas especialidades médicas no Brasil.
Diante da câmera, cerca de 15 colegas negros contaram quais áreas pretendem seguir depois da graduação.
As respostas passaram por cardiologia, psiquiatria, ginecologia, cirurgia, endocrinologia, oncologia, pediatria e medicina de família e comunidade.
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A gravação ganhou repercussão nas redes sociais no fim de outubro de 2025 e chamou atenção para a presença de estudantes negros em um curso que ainda apresenta forte desigualdade racial entre seus graduados.
Por trás do vídeo estava também a própria trajetória de Maicon.
Natural de Pedreiras, no Maranhão, ele chegou ainda pequeno a Goiânia, foi criado durante boa parte da infância e adolescência pela avó e cresceu como filho do gari José Francisco Conrado da Silva e da dona de casa Silvia Helena de Almeida.
Anos antes de aparecer cercado por futuros médicos, ele estudava em escola pública, conciliava preparação para o vestibular com trabalho e via a Medicina como um objetivo difícil de alcançar.
Em março de 2025, deixou Goiás para iniciar o curso na Universidade Unigranrio, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Vídeo com estudantes negros de Medicina nasceu como rede de acolhimento
Quando Maicon decidiu gravar os colegas, a intenção inicial não era produzir um conteúdo viral.
Segundo contou ao O Popular, a ideia surgiu a partir da tentativa de criar uma rede de acolhimento entre estudantes negros dentro da faculdade, permitindo que eles se conhecessem e encontrassem apoio em um ambiente no qual ainda percebiam poucos colegas com histórias semelhantes às suas.

O estudante começou então a perguntar diante da câmera qual especialidade cada participante pretendia seguir.
As respostas mostraram uma diversidade de planos profissionais.
Um dos estudantes disse querer se tornar cardiologista, enquanto outros citaram áreas como pediatria, oncologia, cirurgia, ginecologia e psiquiatria.
A repercussão ultrapassou o círculo da universidade.
Segundo a reportagem original, o vídeo recebeu reações de nomes conhecidos, entre eles Fred Nicácio, médico e ex-participante do Big Brother Brasil, além de Milton Cunha e outros profissionais e personalidades que atuam ou discutem representatividade negra.
Para Maicon, entretanto, o significado estava principalmente nas mensagens de pessoas que passaram a se identificar com aqueles rostos e projetos.
“Quando começamos, o intuito era simples, acolher os estudantes negros da faculdade, criar um espaço para nos conhecermos melhor e formarmos uma rede de apoio mútua dentro do curso de Medicina”, relatou.
Filho de gari cresceu entre Goiânia e os cuidados da avó
A trajetória que levou Maicon até uma faculdade de Medicina começou longe do Rio de Janeiro.
Ele nasceu em Pedreiras, no Maranhão, mas se mudou ainda criança para Goiânia.
Diferentes entrevistas registram que passou grande parte da infância sob os cuidados da avó, Luiza Helena, a quem atribui parte importante de sua formação.
O pai, José Francisco, construiu sua carreira profissional nas ruas da capital goiana.
Funcionário da Companhia de Urbanização de Goiânia, a Comurg, desde 2006, ele trabalhava na limpeza urbana e cumpria jornadas noturnas que começavam por volta das 19h e avançavam até o dia seguinte.
Dentro de casa, parte do que encontrava durante o trabalho também ganhava uma segunda utilidade.
José Francisco contou à própria Comurg que levava para o filho livros, chuteiras e brinquedos encontrados durante a coleta e que ainda podiam ser aproveitados, especialmente itens que nem sempre teria dinheiro para comprar.
A mãe, Silvia Helena, era dona de casa.
Ao relembrar a influência dos pais, Maicon associou o pai à perseverança e a mãe à valorização da educação.
“Meu pai sempre me ensinou o valor da perseverança e minha mãe me mostrou que a educação é o maior legado”, afirmou na reportagem que acompanhou a repercussão do vídeo.

Filme sobre neurocirurgião despertou sonho de cursar Medicina
O desejo de ser médico apareceu ainda durante a adolescência.
Maicon conta que um dos momentos importantes ocorreu quando assistiu ao filme Mãos Talentosas, produção baseada na trajetória do neurocirurgião norte-americano Ben Carson.
O jovem viu na história de um menino negro de origem pobre que conseguiu chegar à Medicina uma referência que dialogava com suas próprias dúvidas sobre o futuro.
“Foi quando percebi que, mesmo vindo de uma realidade simples, era possível conquistar grandes coisas com esforço, fé e determinação”, contou posteriormente.
Entre descobrir aquela possibilidade e entrar em uma faculdade, porém, houve um caminho bem mais longo.
Maicon estudou na rede pública e passou pelo Colégio Estadual Balneário Meia Ponte, em Goiânia.
Depois, conseguiu condições para frequentar um cursinho preparatório enquanto precisava continuar trabalhando.
Rotina de estudos começava às 5h e terminava à noite
Durante cerca de três anos de preparação, o dia começava cedo.
Maicon relatou que acordava às 5h para chegar às aulas às 7h.
Permanecia no cursinho até 12h45, almoçava e voltava aos estudos durante a tarde, geralmente até as 17h.
Às 18h, começava o trabalho.
Reportagens sobre sua trajetória registram que ele atuou como auxiliar de campo de futebol no período noturno, encerrando o expediente por volta das 22h antes de reiniciar praticamente a mesma rotina na manhã seguinte.
O ritmo trouxe consequências.
Em entrevista ao Correio Braziliense, Maicon afirmou que chegou a desenvolver alopecia durante 2024 e que recebeu orientação médica relacionando a queda de cabelo ao estresse e à ansiedade provocados pela rotina intensa.
Na reta final de preparação para o Enem, aumentou ainda mais o esforço dedicado à redação.
Durante cerca de um mês, chegou a produzir duas redações por dia e obteve 920 pontos na prova de redação do Enem, segundo as reportagens publicadas após sua aprovação.

Futebol profissional quase levou Maicon por outro caminho
Antes da Medicina ocupar definitivamente o centro de seus planos, outra profissão esteve próxima de se tornar sua carreira.
Maicon jogou futebol nas categorias de base de Vila Nova e Atlético Goianiense e chegou ao futebol profissional pelo Goiânia Esporte Clube por volta dos 21 anos.
A experiência profissional nos gramados durou aproximadamente um ano e meio.
Depois, ele decidiu abandonar o caminho esportivo para concentrar energia nos estudos.
Ainda antes de ingressar em Medicina, conseguiu aprovações em Medicina Veterinária na Universidade Estadual de Goiás e em Odontologia na Universidade Paulista.
Houve até um momento em que considerou seguir profissionalmente o mesmo caminho do pai.
Maicon contou que aguardou a possibilidade de um concurso para gari da Comurg e que não teria problema em trabalhar ao lado de José Francisco caso o edital tivesse sido aberto enquanto ele buscava a vaga na universidade.
A aprovação em Medicina chegou no início de 2025.
O resultado foi recebido pela família em 27 de fevereiro, e Maicon se mudou para o Rio de Janeiro para iniciar as aulas em 10 de março na Universidade Unigranrio, campus de Duque de Caxias.
Entrada no curso de Medicina ocorreu por meio do Fies
Há uma diferença entre as primeiras reportagens sobre a aprovação que exige cuidado.
Algumas publicações trataram o ingresso como uma “bolsa integral”.
Outras fontes, incluindo Correio Braziliense, Mais Goiás e reportagem posterior sobre sua trajetória, registram que Maicon ingressou pelo Fundo de Financiamento Estudantil, o Fies, com financiamento de 100%.
Por isso, a forma mais segura é identificar o Fies como mecanismo utilizado para viabilizar o curso, sem confundi-lo com uma bolsa de estudos convencional.
Quando o vídeo com os colegas viralizou, em outubro de 2025, Maicon já estava instalado no Rio de Janeiro e havia passado dos primeiros meses de faculdade.
Seu perfil público continua se apresentando como ligado à formação médica.
As especialidades que despertavam seu interesse também foram mudando ou se ampliando com o contato com o curso.
Em diferentes entrevistas, mencionou cardiologia e ortopedia, enquanto a reportagem sobre o vídeo também citou interesse por urologia.
