Filho de agricultores, estudante de escola pública e integrante de uma família numerosa, Samuel conciliou trabalho, faculdade e preparação para o vestibular até alcançar uma colocação de destaque em Medicina, depois de enfrentar limitações financeiras que já haviam impedido o aproveitamento de outra aprovação.
Filho de agricultores e sexto entre dez irmãos, Samuel Sobreira Cavalcante transformou os intervalos de uma rotina marcada por trabalho, deslocamentos e aulas noturnas em oportunidades de preparação para o vestibular de Medicina.
Aos 22 anos, enquanto mantinha dois empregos e cursava Biomedicina no período da noite, ele aproveitava o almoço, as viagens de ônibus, as madrugadas e os feriados para revisar conteúdos e resolver questões.
O esforço levou o estudante ao segundo lugar em Medicina na Universidade Estadual do Ceará, no campus de Quixeramobim, resultado alcançado depois de sucessivas tentativas e de uma aprovação anterior que não pôde ser aproveitada.
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Natural do distrito de Iborepi, na zona rural de Lavras da Mangabeira, no interior cearense, Samuel havia conquistado anteriormente uma vaga em Medicina em uma instituição de Santa Catarina, mas não conseguiu custear a mudança.
Sem recursos suficientes para pagar moradia, alimentação e transporte em outro estado, o jovem precisou abrir mão da primeira oportunidade, embora já tivesse superado a concorrência acadêmica exigida para ingressar no curso.
A nova aprovação também exigia que ele deixasse a cidade onde vivia, mas, dessa vez, o deslocamento seria para outro município do Ceará, a mais de 260 quilômetros de sua residência.
Segundo reportagem do Diário do Nordeste, Samuel precisaria se instalar em Quixeramobim para acompanhar uma graduação integral, situação que tornava incompatível a manutenção dos empregos usados até então para financiar seus estudos.
Dois empregos, faculdade noturna e preparação para Medicina
Antes de aparecer entre os aprovados, a rotina do estudante ocupava praticamente todos os períodos da semana, combinando atividades profissionais, formação universitária, viagens entre cidades e preparação para um dos cursos mais concorridos do país.

Durante o dia, ele trabalhava como visitador social na Prefeitura de Lavras da Mangabeira e também vendia passagens em uma agência de viagens, acumulando jornadas que se estendiam de domingo a domingo.
Quando o expediente terminava, Samuel ainda precisava se deslocar até Cajazeiras, na Paraíba, onde frequentava as aulas noturnas da graduação em Biomedicina, iniciada por meio de uma bolsa integral.
Em vez de contar com um período exclusivo para o vestibular, o jovem distribuía os estudos pelos pequenos intervalos disponíveis, ajustando revisões, exercícios e videoaulas ao espaço deixado entre o trabalho e a faculdade.
O horário de almoço se transformava em momento de leitura, enquanto o ônibus servia como sala de estudos improvisada e os feriados eram reservados para avançar nos conteúdos acumulados.
Bolsa integral não eliminou os custos da formação
O ingresso em Biomedicina ocorreu por meio de uma bolsa integral do Programa Universidade para Todos, o Prouni, que permitiu ao estudante entrar no ensino superior sem assumir o pagamento mensal das mensalidades.
Embora a bolsa cobrisse o curso, permanecer na graduação ainda exigia despesas com deslocamento, alimentação, materiais e equipamentos, custos que obrigavam Samuel a continuar trabalhando enquanto frequentava as aulas em outro estado.
Parte dos primeiros salários recebidos foi destinada à compra de um notebook, equipamento que passou a concentrar as aulas, as listas de exercícios e os materiais necessários para a preparação dos processos seletivos.
Sem condições de pagar um cursinho presencial especializado, ele recorreu a conteúdos disponíveis na internet, apostilas doadas por amigos e uma plataforma on-line compartilhada com outros estudantes.
Nesse modelo de preparação, o avanço dependia menos de uma estrutura sofisticada e mais da disciplina para aproveitar períodos curtos, organizar os assuntos pendentes e manter a regularidade mesmo diante do cansaço.
Escola pública marcou toda a trajetória acadêmica
Construída integralmente na rede pública, a formação escolar de Samuel começou em uma unidade localizada no distrito onde cresceu e continuou em uma escola estadual de educação profissional durante o ensino médio.
Ao concluir a educação básica, ele já carregava o interesse pela área da saúde, caminho que inicialmente o levou à Biomedicina e, posteriormente, fortaleceu a decisão de disputar uma vaga em Medicina.
Durante a graduação, a vontade de mudar de curso ganhou espaço, e o estudante passou a participar de diferentes processos seletivos, incluindo o Exame Nacional do Ensino Médio e o vestibular tradicional da universidade estadual.
Desde 2023, as tentativas resultavam em notas próximas da classificação necessária, mas ainda insuficientes para garantir uma vaga que pudesse ser assumida em condições compatíveis com a realidade financeira da família.
Segundo lugar em Medicina na universidade estadual
No vestibular 2025.2 da Universidade Estadual do Ceará, Samuel apareceu na segunda colocação para Medicina no campus de Quixeramobim, alcançando uma posição de destaque depois de conciliar trabalho, faculdade e preparação independente.
A divulgação do resultado provocou comemoração entre familiares e amigos, porém também apresentou um problema imediato, já que o curso integral impediria a continuidade da rotina profissional mantida pelo jovem.
Abandonar os dois empregos significava perder justamente as fontes de renda usadas para custear transporte, equipamentos e materiais, enquanto permanecer trabalhando tornaria inviável acompanhar as atividades acadêmicas previstas pela universidade.
Além da incompatibilidade de horários, a mudança para Quixeramobim acrescentaria despesas mensais com aluguel, alimentação, transporte local e itens acadêmicos, valores que a família de agricultores não tinha condições de assumir sozinha.
Diante dessa necessidade, Samuel iniciou uma mobilização para arrecadar recursos e reuniu a documentação exigida para solicitar os programas de assistência destinados a estudantes em situação de vulnerabilidade econômica.
Falta de dinheiro já havia impedido outra mudança
A dificuldade encontrada no Ceará repetia, em escala menor, o obstáculo que já havia impedido o jovem de aproveitar a aprovação conquistada em Santa Catarina durante uma tentativa anterior.
Mesmo após vencer a disputa por uma vaga, a ausência de recursos para morar longe de casa transformou a primeira aprovação em uma oportunidade inacessível, revelando que o ingresso acadêmico não encerrava os desafios financeiros.
Ao alcançar a classificação na universidade cearense, a distância diminuiu, mas os custos de permanência continuaram determinantes para que o estudante pudesse efetivamente trocar os empregos pela rotina integral da graduação.
Família numerosa acompanhou a preparação
Ao longo da trajetória, pais, irmãos e amigos participaram de uma rede de apoio que ofereceu incentivo, compartilhou materiais e ajudou Samuel a manter os estudos quando o orçamento não permitia pagar recursos individuais.
Filho de trabalhadores rurais e integrante de uma família com dez irmãos, ele se tornou o primeiro do núcleo familiar a conquistar uma vaga em uma universidade pública, depois de entrar no ensino superior por bolsa integral.
A aprovação reuniu duas etapas distintas da mesma disputa: primeiro, alcançar a pontuação necessária em um curso de alta concorrência; depois, encontrar condições financeiras para permanecer longe de casa durante uma graduação integral.
Para Samuel, a jornada profissional que tornou possível comprar equipamentos, pagar deslocamentos e sustentar a preparação precisaria ser interrompida justamente quando o resultado esperado finalmente apareceu.
Quantos estudantes conseguem superar provas, concorrência e jornadas exaustivas, mas ainda enfrentam uma segunda seleção silenciosa, definida não pela nota obtida no vestibular, e sim pelo dinheiro necessário para permanecer na universidade?

