Ampliação da mistura de etanol na gasolina exige avaliações técnicas, segurança regulatória e incentivos ao consumidor, segundo especialistas reunidos na Datagro.
O impacto de uma possível ampliação da mistura de etanol na gasolina sobre os motores dos veículos brasileiros foi um dos temas discutidos na 26ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol, realizada na terça-feira (27 de outubro), em São Paulo. Durante o encontro, representantes do governo, da pesquisa e do setor produtivo destacaram que o avanço do biocombustível exige avaliações técnicas, além de medidas regulatórias e econômicas capazes de estimular seu uso na transição energética.
Embora a indústria automotiva brasileira já disponha de tecnologias voltadas à redução das emissões, os participantes ressaltaram que a adoção dessas soluções também depende das condições oferecidas ao mercado. O desafio envolve tanto a segurança dos veículos que já circulam no país quanto a criação de incentivos para que o motorista considere alternativas de menor impacto ambiental.
Mudanças na mistura de etanol precisam considerar os motores em circulação
Antes de elevar a proporção de etanol adicionada à gasolina, é necessário compreender como essa alteração poderá afetar os automóveis em uso no Brasil. Esse foi um dos alertas apresentados por Renato Romio, gerente da Divisão de Motores e Veículos do Instituto Mauá de Tecnologia, durante as discussões sobre o futuro dos combustíveis renováveis.
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Segundo o pesquisador, três aspectos merecem atenção especial: o funcionamento mecânico dos motores, a quantidade de combustível consumida e os níveis de emissões. Essas avaliações fornecem informações importantes para orientar decisões regulatórias e verificar os efeitos de eventuais mudanças na composição da gasolina.
Romio também destacou o papel da pesquisa científica nesse processo. Para ele, a ampliação do uso do biocombustível precisa estar apoiada em conhecimento técnico, permitindo que os avanços ambientais sejam acompanhados por análises sobre o desempenho dos veículos.
Indústria brasileira domina tecnologias, mas híbridos a etanol ainda enfrentam desafios
Na avaliação de Renato Romio, a capacidade de desenvolver soluções automotivas eficientes já faz parte da realidade da indústria nacional. O obstáculo está em criar condições que favoreçam uma adoção mais ampla de veículos híbridos movidos a biocombustíveis.
O pesquisador considera que os avanços de engenharia, embora importantes, não são suficientes para garantir maior presença dessas tecnologias no mercado. A expansão também exige incentivos adequados, disponibilidade de soluções tecnológicas e informações que ajudem o consumidor a compreender os benefícios das alternativas de baixo carbono.

Nesse cenário, a regulamentação tem um papel que vai além de estabelecer exigências para o setor automotivo. Ela também pode contribuir para que as tecnologias desenvolvidas pela indústria encontrem condições favoráveis de utilização, aproximando a inovação das escolhas feitas pelos motoristas.
Governo destaca programas de inovação e defende estímulos ao uso do etanol
A necessidade de incentivar o consumidor também foi abordada por Marlon Arraes, diretor do Gabinete da Secretaria Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Durante o evento, ele avaliou que o Brasil já dispõe de instrumentos regulatórios importantes para apoiar a modernização da indústria automotiva.
Arraes mencionou o Mover, o Inovar-Auto e o Rota 2030 como exemplos de iniciativas relacionadas à inovação industrial e à eficiência energética dos motores. Apesar desses avanços, o representante do governo considera necessário fazer com que os benefícios das alternativas menos intensivas em carbono sejam percebidos de maneira mais clara pelo público.
A avaliação apresentada no painel é que o desenvolvimento tecnológico precisa caminhar junto com estímulos capazes de tornar o etanol uma opção mais interessante para quem utiliza veículos no dia a dia. Dessa forma, a escolha por combustíveis renováveis não ficaria restrita às possibilidades oferecidas pela engenharia.
Precificação das emissões pode valorizar vantagens ambientais do biocombustível
Outro tema levantado por Marlon Arraes foi a possibilidade de atribuir um preço às emissões associadas aos combustíveis fósseis. O mecanismo foi defendido como uma ferramenta econômica capaz de reconhecer as diferenças ambientais entre os derivados de petróleo e alternativas renováveis.
Na avaliação do representante do governo, a precificação pode contribuir para valorizar os benefícios do etanol produzido a partir da cana-de-açúcar. A proposta busca fazer com que os impactos das emissões também sejam considerados nas condições de mercado, fortalecendo a competitividade das opções de menor intensidade de carbono.
A discussão mostra que o avanço dos biocombustíveis não está relacionado apenas à capacidade de produção ou ao desenvolvimento dos motores. Os instrumentos econômicos também podem influenciar as condições necessárias para ampliar sua participação no setor de transportes.

Universidades, montadoras e órgãos reguladores precisam manter cooperação
O encontro, que contou com a mediação de Hugo Cagno, presidente da União Nacional da Bioenergia (UDOP), também destacou a importância da colaboração entre diferentes instituições para orientar os próximos passos do setor.
Os participantes defenderam uma atuação contínua entre universidades, fabricantes de veículos e autoridades responsáveis pela regulamentação. A integração permitiria reunir conhecimento científico, experiência industrial e instrumentos regulatórios para fundamentar decisões relacionadas aos combustíveis renováveis.
