Modelagem com aprendizado de máquina e simulações climáticas reconstrói a distribuição de 65 espécies silvestres na Ásia Ocidental e indica que trigo, cevada e centeio estavam concentrados na costa mediterrânea do Levante há 12.000 anos, contrariando hipóteses tradicionais sobre a domesticação
Um estudo publicado na Open Quaternary mapeou onde trigo, cevada e centeio cresciam há 12.000 anos e indica que essas espécies eram menos disseminadas no Oriente Médio do que se acreditava, com concentração na costa mediterrânea do Levante.
Trigo, cevada e centeio eram menos disseminados há 12.000 anos
Pesquisadores da Universidade de Copenhague e da Universidade do País Basco reconstruíram as áreas prováveis de distribuição geográfica de 65 espécies de plantas silvestres associadas à agricultura primitiva na Ásia Ocidental.
Entre essas espécies estão os ancestrais silvestres do trigo, da cevada, do centeio, da lentilha e de outras culturas que deram início à revolução agrícola há mais de 10.000 anos.
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Utilizando aprendizado de máquina avançado e modelos climáticos, o estudo demonstrou que os ancestrais de culturas como trigo, cevada e centeio provavelmente eram muito menos disseminados no Oriente Médio há 12.000 anos do que se acreditava anteriormente.
Segundo os autores, os dados desafiam suposições tradicionais sobre a geografia da domesticação de plantas e da agricultura primitiva.
Reconstrução da vegetação natural no início do Neolítico
As primeiras sociedades agrícolas se estabeleceram no Oriente Médio há cerca de 12.000 anos, conforme evidências de artefatos, sementes e ossos de animais recuperados em escavações arqueológicas.
De acordo com o arqueólogo Joe Roe, da Universidade de Copenhague, sabe-se pouco sobre a vegetação natural dessas áreas, o que dificulta determinar onde os povos neolíticos encontraram as plantas que eventualmente domesticaram.
Com base nos novos dados, os ancestrais de plantas centrais para a agricultura moderna, como trigo, centeio e cevada, não cresciam onde se esperava e também eram muito menos disseminados do que se pensava.
Os pesquisadores afirmam que isso altera a compreensão sobre o contexto ecológico em que ocorreu a transição da coleta para a agricultura.
Concentração na costa mediterrânea do Levante
Roe e a arqueobotânica Amaia Arranz-Otaegui identificaram que muitos ancestrais das primeiras culturas agrícolas parecem ter se concentrado na costa mediterrânea do Levante.
O estudo sugere que essa região pode ter atuado como um refúgio durante o clima bastante extremo do final da Era do Gelo.
Segundo Arranz-Otaegui, muitas culturas silvestres estavam bem adaptadas a condições frias e secas e não necessariamente se expandiram com a chegada de um clima mais quente e úmido.
Essa constatação indica que trigo, cevada e centeio podem ter permanecido restritos a áreas específicas mesmo com mudanças climáticas significativas no período.
Inovação metodológica com aprendizado de máquina e modelos climáticos
O estudo combinou grandes conjuntos de dados abertos sobre a distribuição atual de espécies vegetais com simulações computacionais avançadas do clima global do passado.
Os pesquisadores utilizaram as mesmas simulações climáticas empregadas pelo IPCC para prever o clima futuro, mas de forma invertida, integrando-as a um modelo de aprendizado de máquina sobre os ambientes aos quais as plantas estão adaptadas.
Essa abordagem permitiu criar mapas detalhados que indicam onde as plantas antigas provavelmente cresciam.
Segundo os autores, a modelagem representa uma nova linha de evidências para compreender o contexto ecológico da agricultura primitiva.
Por não depender da preservação arqueológica, que pode ser afetada por soterramento, atividade humana e vieses de recuperação, a metodologia oferece uma visão independente dos ambientes vegetais antigos.
Novo retrato das primeiras paisagens agrícolas
Em conjunto, as descobertas fornecem o retrato mais claro até agora de onde as primeiras plantas agrícolas do mundo cresciam.
O estudo também detalha o tipo de paisagens em que as comunidades antigas viviam quando realizaram a transição da coleta para a agricultura.
Para os autores, a combinação de aprendizado de máquina e simulações climáticas amplia a compreensão sobre como trigo, cevada e centeio estavam distribuídos no final da Era do Gelo.
Os pesquisadores concluem que os resultados oferecem uma perspectiva totalmente nova sobre o contexto ecológico dos primeiros agricultores do mundo e sobre as paisagens que moldaram o surgimento da agricultura primitiva.

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