Relatório revela que 81% das reservas globais de petróleo estão em países sob influência dos EUA, ampliando riscos geopolíticos, instabilidade no mercado e pressões sobre a segurança energética mundial.
Um novo levantamento internacional reacende o debate sobre a centralidade do petróleo na geopolítica global. De acordo com uma análise divulgada pela organização ambiental 350.org em parceria com a Zero Carbon Analytics, 81% das reservas globais de petróleo estão localizadas em países inseridos na esfera de influência política, econômica ou militar dos Estados Unidos.
Além disso, esses mesmos países concentram cerca de 68% da produção mundial da commodity.
O estudo aponta que essa concentração amplia riscos sistêmicos para o mercado energético internacional, uma vez que decisões políticas, sanções e conflitos armados passam a ter impacto direto sobre o fornecimento e os preços do petróleo.
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90 bilhões de barris de petróleo, 1.669 trilhões de pés cúbicos de gás natural e 84% das reservas prováveis em áreas offshore estão sob o Ártico e o degelo que abre rotas marítimas e expõe esse tesouro energético está transformando o Polo Norte em uma disputa estratégica entre EUA, Rússia, China e Canadá por petróleo, gás, navegação e poder militar
Assim, a dependência de combustíveis fósseis permanece como um fator estrutural de instabilidade econômica e diplomática.
Produção global também segue a lógica dos blocos de poder
Além das reservas, o relatório destaca que 53% da produção mundial de gás natural e 52% das reservas comprovadas dessa fonte também estão em países alinhados aos interesses estratégicos dos Estados Unidos.
Nesse contexto, América do Norte, América Central e América do Sul são tratadas como parte direta da esfera de influência norte-americana, reforçando uma estratégia de controle regional sobre recursos energéticos.
Segundo a análise, essa configuração consolida um cenário no qual o acesso ao petróleo e ao gás passa a ser mediado por grandes blocos geopolíticos rivais. Atualmente, 79% da produção global de petróleo está concentrada em países sob influência direta dos Estados Unidos ou da Rússia, o que intensifica disputas e eleva o grau de incerteza no mercado internacional.
Venezuela volta ao centro do tabuleiro energético
A divulgação do relatório ocorre em um momento sensível da política internacional. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prepara-se para receber em Washington a líder da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel, María Corina Machado. A Venezuela detém cerca de 20% das reservas globais de petróleo bruto, sendo um dos países mais estratégicos do planeta nesse setor.
Após a invasão americana e a captura de Nicolás Maduro, o país voltou ao centro das atenções globais, diante de sinais de reconfiguração econômica e pressões geopolíticas relacionadas ao setor energético. Nesse cenário, o petróleo venezuelano surge novamente como peça-chave na tentativa de Washington de reafirmar sua influência no hemisfério.
Doutrina de segurança amplia alcance estratégico dos EUA
O relatório associa essa concentração de petróleo à mais recente Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump, descrita por analistas como uma releitura da Doutrina Monroe. Batizada por críticos de “Doutrina Donroe”, a política explicita a intenção de ampliar a influência política, econômica e militar dos Estados Unidos, sobretudo em regiões ricas em recursos naturais.
Dentro dessa lógica, o controle indireto sobre reservas e produção de petróleo passa a ser visto como um instrumento central de poder. Países produtores, mesmo sem sofrerem ameaças diretas, acabam integrados aos sistemas financeiro e militar norte-americanos, como ocorre com Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Escalada de tensões amplia volatilidade do petróleo
Para Andreas Sieber, chefe de Estratégia Política da 350.org, a atual dependência global do petróleo cria um ambiente permanente de risco. “Hoje, mais de dois terços do petróleo disponível no mercado global vêm de países onde o governo Trump projeta influência agressiva ou ameaça fazê-lo.
Cada escalada militar, sanção ou tensão geopolítica se traduz em volatilidade de preços, interrupções no fornecimento e choques econômicos que governos não conseguem controlar”, afirma.
O estudo relembra que, apenas no último ano, os Estados Unidos realizaram bombardeios ou intervenções militares na Venezuela, no Irã e no Iraque, além de emitir ameaças explícitas contra outros países e territórios estratégicos. Esse histórico reforça a percepção de que o petróleo segue diretamente vinculado à instabilidade internacional.
Dependência do petróleo expõe fragilidades econômicas
Na avaliação de Bridget Woodman, chefe de Política e Finanças da Zero Carbon Analytics, o cenário atual representa um alerta para governos que ainda priorizam combustíveis fósseis. “O controle dos combustíveis fósseis está se concentrando em blocos cada vez mais rivais, com impactos inevitáveis sobre a segurança global e os custos do fornecimento de energia”, destaca.
Segundo ela, a exposição a cadeias globais altamente politizadas torna países importadores mais vulneráveis a choques externos, inflação energética e crises de abastecimento. Assim, a centralidade do petróleo deixa de ser apenas uma questão econômica e passa a ser um fator direto de segurança nacional.
Transição energética ganha dimensão estratégica
Embora o relatório tenha como foco o petróleo, ele também aponta caminhos para reduzir a dependência desse modelo. Para os autores, a transição energética deve ser encarada não apenas como resposta à crise climática, mas como uma estratégia de segurança de longo prazo.
Fontes renováveis, como solar e eólica, além de sistemas de armazenamento em baterias e eletrificação, reduzem a exposição a conflitos geopolíticos e diminuem a dependência de rotas internacionais instáveis.
De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), a capacidade global de geração renovável deve crescer cerca de 4.600 gigawatts entre 2025 e 2030, o dobro do registrado nos cinco anos anteriores.
Energia local como resposta à instabilidade global
O relatório defende que sistemas energéticos locais, descentralizados e geridos por comunidades oferecem maior previsibilidade econômica e segurança energética. Ao reduzir a centralidade do petróleo, esses modelos limitam o impacto de disputas internacionais sobre o custo e a disponibilidade de energia.
A análise foi elaborada com base em dados públicos do Statistical Review of World Energy 2025, do Energy Institute, e reforça que, enquanto o petróleo permanecer concentrado em poucos polos de poder, a instabilidade seguirá como elemento estrutural do sistema energético global.

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