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Espécies invasoras avançam na América Latina: lírio aquático sufoca 300 lagoas no México, sargaço invade Caribe, e ativistas no Chile denunciam toxinas, enquanto controle biológico tenta virar o jogo agora

Escrito por Carla Teles
Publicado em 01/02/2026 às 13:04
Atualizado em 01/02/2026 às 13:05
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Espécies invasoras se espalham pela América Latina: lírio aquático e sargaço pressionam comunidades enquanto controle biológico tenta conter os danos.
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Enquanto espécies invasoras se espalham pela América Latina, do lírio aquático nas lagoas ao sargaço nas praias, o controle biológico tenta limitar os danos ambientais sem destruir a biodiversidade.

Enquanto espécies invasoras se espalham por lagos, represas e praias da América Latina, comunidades ribeirinhas, cientistas e ativistas correm contra o tempo. Do lírio aquático que sufoca 300 lagoas no México ao sargaço que cobre praias paradisíacas do Caribe, passando por toxinas em um lago chileno famoso por turistas, a região virou um laboratório vivo de conflitos entre natureza, economia e clima.

Por trás de cada planta que parece inofensiva, há uma história complexa. Hipopótamos na Colômbia, cabras nas Galápagos, castores na Patagônia e lírios aquáticos em lagunas mexicanas são exemplos de como espécies exóticas se tornam espécies invasoras, apagando biodiversidade, alterando cadeias alimentares e gerando prejuízos econômicos pesados. Ao mesmo tempo, surgem respostas criativas: controle biológico com insetos, reaproveitamento de algas como biogás e construção, monitoramento comunitário e ativismo ambiental cada vez mais organizado.

O que são espécies invasoras e por que a América Latina virou alvo

Quando falamos em espécies invasoras, não estamos falando de qualquer planta ou animal de fora, mas de organismos que chegam a novos territórios, normalmente de forma acidental ou intencional, e passam a se espalhar de maneira agressiva.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, essas espécies já são a segunda principal causa de perda de biodiversidade no mundo, atrás apenas da destruição direta de habitats.

Na América Latina, a lista é longa. Hipopótamos na Colômbia, cabras erradicadas em Galápagos e castores na Patagônia mostram que o problema não é só ecológico. As espécies invasoras também causam prejuízos à pesca, à agricultura, ao turismo e à saúde.

Em muitos casos, governos e comunidades são obrigados a gastar tempo e dinheiro para tentar controlar pragas que começaram como “ornamentos”, experiências econômicas ou até caprichos de pessoas poderosas.

Dentro desse cenário, duas plantas ganharam destaque recente: o lírio aquático, que sufoca corpos de água no México e em outros países, e o sargaço, uma alga parda que invade praias do Caribe e da costa mexicana.

Ao mesmo tempo, no Chile, cientistas e ativistas monitoram toxinas geradas por floradas de cianobactérias em um lago turístico, tentando evitar um colapso silencioso na qualidade da água.

Lírio aquático: planta ornamental que virou espécie invasora agressiva

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O caso do lírio aquático mostra bem como espécies invasoras podem nascer de algo aparentemente inofensivo. Importado no fim do século XIX como planta ornamental, o lírio passou de enfeite de jardim e de canais a problema nacional no México.

Hoje, infesta cerca de 300 lagos e lagoas do país, formando tapetes verdes que impedem a navegação, bloqueiam o acesso a cultivos e sufocam a fauna aquática.

Na laguna de Tecocomulco, no centro do México, a situação ficou crítica. Uma “alfombra” flutuante de lírios impedia barcos, isolava lavouras e derrubava a pesca, principal sustento de cerca de 20 mil habitantes no entorno.

Agricultores como seu Pancho foram obrigados a abandonar plantações de milho, feijão e fava para se dedicar quase exclusivamente à extração manual da planta invasora.

Arrancar o lírio não é simples. A planta é composta em grande parte por água, o que multiplica seu peso e complica o arraste. Ainda assim, uma brigada de 16 ribeirinhos passou a fazer limpezas diárias, empurrando a infestação para trás.

O que antes era apenas um problema virou também parte da solução: o lírio retirado é levado para as parcelas de cultivo, estendido como se fosse adubo.

Esse uso agrícola trouxe uma vantagem inesperada. O lírio aquático, usado como cobertura e adubo, ajudou a reduzir o uso de fertilizantes químicos, que antes escorriam para a laguna, enriquecendo a água com nutrientes e alimentando a explosão da planta invasora.

Com o programa de restauração ecológica do governo de Hidalgo, coordenado por técnicas como Evelyn Terrazas, a comunidade conseguiu diminuir a “plaga” a cerca de um décimo da superfície de água.

Quando o controle biológico tenta virar o jogo contra o lírio aquático

O problema do lírio aquático não é exclusivo do México. A planta, que já tomou sistemas de água doce em cinco continentes, também invadiu represas no norte da África do Sul.

Lá, a represa de Hartbeespoort virou um exemplo extremo: uma massa verde onde deveria haver apenas água, bloqueando vias fluviais e causando impactos ecológicos e socioeconômicos.

Tentar controlar o lírio apenas com extração manual ou herbicidas químicos mostrou-se caro, lento e arriscado para o ambiente.

Foi nesse ponto que entrou em cena o controle biológico, uma das estratégias mais sofisticadas para lidar com espécies invasoras.

Pesquisadores sul-africanos passaram anos testando “inimigos naturais” do lírio aquático em ambientes totalmente controlados.

Buscaram um inseto capaz de atacar apenas a planta invasora, sem danificar espécies nativas ou cultivos. A aposta recaiu sobre um pequeno gafanhoto do jacinto de água, originário da América do Sul, descrito como minúsculo e voraz.

Em dez anos, foram criados 1 milhão de insetos em laboratório, sendo 300 mil liberados apenas no último ano.

Cada gafanhoto é contabilizado e testado exaustivamente para garantir que se alimenta principalmente do lírio. A lógica é simples: usar uma espécie que acompanha a mesma velocidade de reprodução da planta invasora e a corrói “por dentro”, folha por folha.

Nos pontos onde o controle biológico foi aplicado, os sinais são visíveis. As folhas do lírio apresentam furos e manchas marrons, enrolam-se e acabam se desintegrando lentamente no fundo.

Em cerca de dois anos, algumas represas tiveram a cobertura de plantas reduzida de 40% para 5%. Ainda assim, os especialistas admitem que o lírio nunca desaparecerá totalmente: com a velocidade de crescimento que tem, o objetivo é manter a espécie invasora sob controle, não eliminá-la por completo.

Sargaço: alga que afeta o Caribe e inspira soluções inesperadas

Espécies invasoras se espalham pela América Latina: lírio aquático e sargaço pressionam comunidades enquanto controle biológico tenta conter os danos.
(Thor Tryggvason/Unsplash)

Outra frente crítica de espécies invasoras na região vem do mar. O sargaço, uma alga parda que normalmente flutua em alto-mar, a mais de mil quilômetros da costa, começou a chegar em massa a praias do Caribe e do México.

O resultado é um cenário que contrasta com a imagem de “paraíso tropical”: faixas marrons cobrindo a costa, água turva, cheiro forte e milhões de toneladas de biomassa se acumulando ano após ano.

O sargaço cresce rápido, responde ao calor e à presença de nutrientes na água. Quando se acumula nas praias, começa a se decompor e libera ácido sulfídrico, o mesmo cheiro de ovo podre.

Isso afeta não apenas o ecossistema marinho e costeiro, mas também a economia: muitos países temem o impacto sobre o turismo, sua principal fonte de renda.

Para tentar conter o avanço da alga, hotéis e autoridades instalaram barreiras flutuantes “antisargaço” que deixam passar peixes e tartarugas, mas bloqueiam parte das massas de algas antes que cheguem às praias.

Em alto-mar, barcos especializados fazem recolha mecânica. Ainda assim, as barreiras e a coleta são soluções provisórias, que precisam ser repetidas ano após ano.

Ao mesmo tempo, o excesso de sargaço estimulou um lado criativo. Empresas e cientistas no México passaram a testar o uso da alga como matéria-prima para biogás e materiais de construção.

Em um laboratório perto de Mérida, Yucatán, pesquisadores usam fungos que degradam fibras e tornam o carbono mais acessível, acelerando a produção de biogás em cerca de 30%.

Em outro projeto, o sargaço foi transformado em blocos de construção, os chamados “saga blocks”, usados em uma casa piloto com cerca de 60% da estrutura feita de algas.

Transformar uma espécie invasora em recurso econômico não resolve a raiz do problema, mas pode aliviar parte do impacto e gerar empregos em comunidades vulneráveis, desde que haja regras claras para evitar novos danos ambientais.

Lago Villarrica: toxinas, turismo e ativismo ambiental no Chile

Espécies invasoras se espalham pela América Latina: lírio aquático e sargaço pressionam comunidades enquanto controle biológico tenta conter os danos.

No sul do Chile, o lago Villarrica, na região da Araucanía, mostra outro lado do desafio. Ali, o problema não é o lírio aquático nem o sargaço, mas florações intensas de algas e cianobactérias que podem produzir toxinas perigosas.

O lago recebe milhares de turistas todos os verões, mas, ao mesmo tempo, sofre com descargas de esgoto, resíduos de pisciculturas, lixo e pressão imobiliária.

A bióloga e ativista Loreto Lagos, fundadora da Fundación Raíces de Pucón, decidiu reagir. Sua organização monitora a biodiversidade, visita humedales, faz trampeamentos e observações noturnas para entender melhor quem vive nesses ambientes e como eles estão mudando.

O diagnóstico é claro: excesso de nutrientes na água, desequilíbrio na cadeia trófica e floradas algais intensas no verão, muitas delas produtoras de hepatotoxinas e neurotoxinas.

Em animais pequenos, já foram observadas mortes. Em humanos, os casos mais visíveis são irritações de pele e problemas gastrointestinais.

No entanto, Loreto alerta que, se nada mudar, o acúmulo de toxinas pode aumentar o risco de câncer de fígado e danos neurológicos nos próximos anos.

Apesar disso, as autoridades muitas vezes preferem minimizar o problema, com medo de afastar turistas. Um exemplo simbólico foi a realização de um Ironman com o lago verde, coberto por algas, o que ativistas consideraram uma falta de respeito com atletas e moradores.

A fundação pressiona por protocolos claros: medir toxinas com regularidade, informar a população e fechar praias quando os níveis estiverem perigosos.

Além do monitoramento, a equipe de Loreto produz guias de biodiversidade, folhetos informativos e realiza palestras em escolas. A aposta é simples: sem educação ambiental, a luta contra espécies invasoras, poluição e toxinas será sempre reativa e tardia.

Como a região pode recuperar o controle sobre as espécies invasoras

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Os casos do lírio aquático, do sargaço e das toxinas no lago Villarrica mostram que as espécies invasoras e os desequilíbrios ecológicos não são problemas isolados, mas sintomas de um modelo de uso da água e do território que estressa ecossistemas inteiros. Ao mesmo tempo, mostram caminhos possíveis.

No México, comunidades ribeirinhas transformaram uma planta invasora em adubo e alimento para carpas, reduziram insumos químicos e recuperaram pesca, aves e turismo em lagunas que pareciam perdidas.

Na África do Sul, o controle biológico com insetos específicos provou que é possível atacar uma espécie invasora sem recorrer apenas a venenos.

No Caribe, o sargaço virou combustível e bloco de construção, abrindo uma nova cadeia produtiva. No Chile, o ativismo de base pressiona por transparência, protocolos de segurança e respeito às pessoas que vivem e trabalham às margens do lago.

Espécies invasoras não vão desaparecer da noite para o dia, mas a forma como lidamos com elas pode acelerar a destruição ou abrir espaço para soluções mais inteligentes, que combinem ciência, participação social e economia local.

E você, acha que a América Latina deveria investir mais em controle biológico, em reaproveitamento econômico das espécies invasoras ou em regras mais duras para evitar que essas espécies cheguem e se espalhem?

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Carla Teles

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