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Escondida na África do Sul, a maior cratera de impacto confirmada da Terra tem até 300 quilômetros e foi aberta por um asteroide de 20 quilômetros há 2 bilhões de anos

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 27/07/2026 às 16:57 Atualizado em 27/07/2026 às 17:05
A maior cratera de impacto da Terra fica na África do Sul, tem até 300 km e foi aberta por um asteroide de 20 km há 2 bilhões de anos.
A maior cratera de impacto da Terra fica na África do Sul, tem até 300 km e foi aberta por um asteroide de 20 km há 2 bilhões de anos.
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Não há buraco para ver. A erosão de dois bilhões de anos removeu tudo, e metade do que sobrou está enterrada sob sedimentos mais recentes. O que resta é um anel de serras concêntricas, rocha deformada e um núcleo de granito no meio da província de Free State.

A estrutura de impacto de Vredefort, na província de Free State, na África do Sul, é a maior cratera de impacto confirmada do planeta. Ela se formou há aproximadamente 2 bilhões de anos, quando um asteroide atingiu a região, e estimativas do diâmetro original variam de 170 a 300 quilômetros, conforme o método de cálculo usado, segundo o registro do geólogo Hobart M. King e dados compilados sobre a estrutura.

O tamanho do objeto que abriu a cratera foi revisto para cima em 2022. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Rochester e publicado no Journal of Geophysical Research concluiu que o impactador teria entre 20 e 25 quilômetros de diâmetro, bem mais do que a estimativa anterior de cerca de 15 quilômetros. Isso o torna significativamente maior do que o objeto que provocou a extinção dos dinossauros, no impacto de Chicxulub, no México.

Onde ela está e por que quase ninguém enxerga

A maior cratera de impacto da Terra fica na África do Sul, tem até 300 km e foi aberta por um asteroide de 20 km há 2 bilhões de anos.
A maior cratera de impacto da Terra fica na África do Sul, tem até 300 km e foi aberta por um asteroide de 20 km há 2 bilhões de anos.

Quem procura por um buraco na paisagem sul africana não vai encontrar nada. Dois bilhões de anos de intemperismo e erosão removeram a cratera e o material ejetado por ela.

O que sobrou está abaixo do que era o piso original. As evidências visíveis hoje incluem unidades de rocha deformadas que antes ficavam sob o assoalho da cratera, marcas microscópicas de impacto como estruturas minerais transformadas e os chamados cones de estilhaçamento, além de um domo de rocha soerguida que um dia formou o pico central da estrutura.

Existe ainda um agravante geográfico. Metade da estrutura está enterrada sob sedimentos depositados milhões de anos depois do impacto, rochas do chamado Supergrupo Karoo, que cobrem toda a porção sudeste e a escondem da superfície atual. Só a metade noroeste é observável.

Essa metade visível aparece com clareza em imagens de satélite. Ela forma um padrão semicircular de cristas concêntricas que também pode ser reconhecido em mapas topográficos. O rio Vaal atravessa a parte norte da estrutura, e em alguns trechos o curso dele desenha um arco no mapa, porque fica confinado a um vale entre as serras soerguidas.

O domo que é apenas o miolo da coisa

Muita gente confunde a parte com o todo, e é fácil entender por quê. O nome mais divulgado do lugar é Domo de Vredefort, que é apenas o centro da estrutura, não a estrutura inteira.

O domo tem cerca de 70 quilômetros de diâmetro. No meio dele há um núcleo de granito do embasamento, cercado por unidades de rocha inclinadas que mergulham para longe do granito em todas as direções, formando a estrutura em domo que dá nome à região.

A diferença de escala é enorme. Setenta quilômetros contra um diâmetro original que pode ter chegado a 300. O domo é o umbigo da maior cratera de impacto do planeta, não a cratera. Confundir os dois é a origem de boa parte da informação desencontrada que circula sobre o assunto.

Simples, complexa e o que muda entre elas

A maior cratera de impacto da Terra fica na África do Sul, tem até 300 km e foi aberta por um asteroide de 20 km há 2 bilhões de anos.
A maior cratera de impacto da Terra fica na África do Sul, tem até 300 km e foi aberta por um asteroide de 20 km há 2 bilhões de anos.

Crateras de impacto não são todas iguais, e a diferença explica a paisagem de Vredefort. As chamadas crateras simples são depressões em forma de tigela, formadas quando a força do impacto pulveriza a rocha alvo e a ejeta sobre o terreno ao redor.

As crateras complexas têm estruturas adicionais. Elas podem apresentar um domo central soerguido, um piso raso e plano coberto por material ejetado que voltou a cair, um anel concêntrico de cristas ao redor do soerguimento central e bordas em degraus.

Vredefort é do tipo complexo. O soerguimento central se forma no instante seguinte ao impacto, quando o material no fundo da cratera tenta voltar ao equilíbrio gravitacional e é empurrado para cima. A estrutura provavelmente teve todos aqueles elementos quando se formou, mas o tempo levou a maior parte embora. O que restou é o domo central e o anel de cristas ao redor dele, visíveis na rocha deformada que um dia esteve sob o piso da cratera.

A conta que foi refeita em 2022

Durante muito tempo, a explicação aceita era outra. Estimativas anteriores apontavam um objeto de aproximadamente 15 quilômetros de diâmetro viajando a 15 quilômetros por segundo, cenário que produziria uma cratera de cerca de 172 quilômetros.

O problema é que esse número ficou pequeno demais. Novas evidências geológicas e medições passaram a indicar que o diâmetro original da estrutura seria de 250 a 280 quilômetros no momento do impacto, bem acima do que aquele modelo explicava.

A equipe liderada por Natalie Allen, com participação de Miki Nakajima e colaboradores, rodou simulações para reconciliar as duas coisas. O resultado publicado em 2022 aponta duas combinações capazes de reproduzir a cratera maior: um impactador de 25 quilômetros de diâmetro a 15 quilômetros por segundo, ou um de 20 quilômetros a 25 quilômetros por segundo.

O trabalho não parou na aritmética. As mesmas configurações reproduzem características de metamorfismo de choque presentes na estrutura até hoje, como a distribuição de brechas, os cones de estilhaçamento e as feições de deformação planar em quartzo e zircão. É a combinação entre simulação e evidência mineral que sustenta o número novo.

Maior que o assassino dos dinossauros

A maior cratera de impacto da Terra fica na África do Sul, tem até 300 km e foi aberta por um asteroide de 20 km há 2 bilhões de anos.
A maior cratera de impacto da Terra fica na África do Sul, tem até 300 km e foi aberta por um asteroide de 20 km há 2 bilhões de anos.

A comparação inevitável é com Chicxulub, a cratera ligada à extinção em massa que eliminou os dinossauros não avianos há cerca de 66 milhões de anos.

O contraste é claro nos dois eixos. Vredefort é maior em diâmetro de cratera e foi aberta por um objeto maior. Também é vastamente mais antiga, com aproximadamente 2 bilhões de anos contra 66 milhões de Chicxulub.

Isso levanta a pergunta óbvia sobre consequências. O estudo de 2022 estimou os gases climaticamente relevantes liberados pelo impacto, incluindo dióxido de carbono, vapor d’água e compostos de enxofre. As nuvens de água e o enxofre teriam provocado forte resfriamento de curto prazo ao dispersar e absorver radiação solar, enquanto o dióxido de carbono causaria aquecimento de estufa no longo prazo.

A conta do carbono é a que dimensiona o evento. As estimativas para Vredefort apontam liberação de dióxido de carbono compatível, no limite inferior, com os cerca de 425 gigatoneladas atribuídas a Chicxulub, podendo chegar a valores bem superiores dependendo da porosidade da rocha, do ângulo do impacto e da espessura da camada de calcita atingida.

Os destroços que caíram a 2.500 quilômetros dali

Aqui está um dos detalhes mais interessantes e menos conhecidos da história, e ele envolve deriva continental.

Uma camada de material ejetado por aquele impacto foi encontrada na Carélia, região da Rússia. A partir da espessura dessa camada, o modelo de 2022 permite estimar a distância que separava os dois pontos na época do evento: algo entre 2.000 e 2.500 quilômetros.

Hoje a distância entre África do Sul e Carélia é muito maior, porque os continentes se moveram nesses 2 bilhões de anos. O material lançado pela maior cratera de impacto da Terra virou, por acaso, uma régua para medir onde ficavam os continentes naquele momento. É um uso do registro geológico que quase ninguém associa a cratera.

O que está escrito na rocha, camada por camada

O corte geológico da região conta a história em ordem cronológica. As rochas da Bacia de Witwatersrand, da Lava Ventersdorp, do Dolomito Ghaap e do Subgrupo Pretória foram depositadas originalmente em posição quase horizontal.

O impacto virou tudo. Essas camadas foram dobradas e deformadas pela energia liberada, e é justamente essa deformação que permite reconstruir a estrutura, mesmo sem o buraco original.

O que se pisa hoje é o resultado de erosão profunda. A superfície atual do terreno corresponde a um nível que estava bem abaixo do piso da cratera quando ela se formou. Sobre a metade sudeste, o Supergrupo Karoo se depositou depois do impacto e escondeu o restante.

Patrimônio mundial desde 2005

O reconhecimento internacional veio pelo valor científico, não pela paisagem. O Domo de Vredefort foi inscrito na lista de Patrimônio Mundial da Unesco em 2005, durante a 29ª sessão do comitê, sob critério de valor natural.

A área protegida abrange aproximadamente 30 mil hectares e inclui, além do núcleo do domo, sítios específicos ligados à evidência do impacto, como o plano de falha basal com estromatólitos, o sítio de brecha em tabuleiro e a pedreira de pseudotaquilito.

O objetivo declarado da proteção é criar condições legislativas, sociais e físicas que permitam conservar e administrar o local para fins de educação e estudo científico. Não se trata de um parque de contemplação, e sim de um laboratório a céu aberto.

O que sobra de um buraco de 300 quilômetros

Um asteroide de mais de 20 quilômetros, uma cratera que talvez tenha chegado a 300, dois bilhões de anos de erosão e um domo de 70 quilômetros que é tudo o que se enxerga. Vredefort é, ao mesmo tempo, a maior cratera de impacto confirmada da Terra e uma das mais difíceis de visualizar, porque o evento é grande demais para caber em um único olhar.

E você, o que acha dessa história? Saber que um objeto de 20 quilômetros já atingiu a Terra e que a cicatriz sumiu quase por completo muda a sua percepção sobre o risco de impacto? Faz sentido investir dinheiro público em programas de defesa planetária, ou é preocupação exagerada com algo raríssimo? E mais: você conhecia essa estrutura ou achava que a maior cratera da Terra fosse a do fim dos dinossauros? Comente sua opinião, principalmente se você é da área de geologia, mineração ou astronomia e lida com esse tipo de registro no dia a dia.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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