Salários elevados, vagas abertas e dificuldade para renovar equipes revelam um desafio crescente nos canteiros de obras, onde construtoras procuram profissionais para funções essenciais enquanto trabalhadores experientes envelhecem e a entrada de jovens não acompanha o ritmo necessário para preencher os postos disponíveis.
A dificuldade para contratar profissionais operacionais ganhou espaço entre os desafios da construção civil, mesmo com a geração de empregos e a possibilidade de alcançar remunerações bem superiores aos salários iniciais em determinadas funções, principalmente após anos de experiência nos canteiros.
Em um edifício residencial de 16 andares, 20 postos permanecem disponíveis para pedreiros, ajudantes e encanadores, enquanto a empresa responsável enfrenta dificuldades para completar as equipes necessárias à execução dos serviços previstos durante as diferentes etapas da construção.
Segundo reportagem publicada pelo R7 em 8 de agosto de 2026, um servente começa recebendo R$ 2.300 nessa obra, enquanto um pedreiro em São Paulo pode alcançar até R$ 10 mil, dependendo da experiência acumulada e da evolução profissional.
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Serviço pesado dificulta renovação entre trabalhadores jovens
Para Raimundo Nonato, mestre de obras com quatro décadas de atuação, a mudança pode ser percebida diretamente na rotina dos canteiros, onde trabalhadores mais jovens aparecem com menor frequência entre os interessados pelas atividades que exigem esforço físico contínuo.
Ao avaliar esse cenário, Nonato relaciona parte da dificuldade às próprias características das funções operacionais, sobretudo no caso dos ajudantes, que começam executando tarefas consideradas mais pesadas enquanto desenvolvem experiência prática e acompanham profissionais mais antigos durante o trabalho.
Além dos ajudantes, a falta de candidatos alcança outras especialidades importantes para o andamento das construções, já que as vagas disponíveis no empreendimento também contemplam pedreiros e encanadores, profissionais empregados em fases distintas da execução de um prédio residencial.
Mesmo com as exigências físicas, a diferença entre a remuneração de entrada e os valores alcançados por trabalhadores experientes mostra a possibilidade de progressão dentro da atividade, embora os salários mais altos não tenham eliminado a dificuldade de atrair novos profissionais.
Construção civil supera 3 milhões de empregos formais
Em maio de 2026, dados divulgados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção mostraram que o setor ultrapassava 3 milhões de trabalhadores com vínculo formal, depois de registrar crescimento de quase 19% no saldo de empregos do primeiro trimestre em comparação com 2025.
No mesmo levantamento, a CBIC informou que a construção respondeu por um em cada cinco empregos formais criados no país entre janeiro e março, enquanto o salário médio de admissão atingiu R$ 2.551,69 em março e liderou os segmentos laborais naquele mês.
Apesar do avanço das contratações, a disponibilidade de trabalhadores continua aparecendo como obstáculo para as empresas, pois a própria entidade colocou a falta e o alto custo da mão de obra entre as principais preocupações relatadas pelos empresários do setor no primeiro trimestre.
Esse contraste ajuda a dimensionar o problema enfrentado nos canteiros: de um lado, o número de empregos formais cresce; de outro, determinadas funções permanecem difíceis de preencher, principalmente quando dependem de experiência prática e disponibilidade para atividades presenciais e fisicamente exigentes.
Envelhecimento dos profissionais pressiona os canteiros
Outro ponto levantado pelo setor envolve o envelhecimento da força de trabalho, já que a saída de profissionais mais antigos não tem sido compensada, na mesma velocidade, pela entrada de novos trabalhadores dispostos a construir carreira nas atividades operacionais.
“O perfil que nós verificamos hoje nas obras é um perfil mais envelhecido, porque nós percebemos que não conseguimos repor a mão de obra dos trabalhadores que se aposentam na mesma velocidade necessária para a conclusão dessas obras”, afirmou o presidente da CBIC.
Na prática, essa dificuldade de reposição amplia a distância entre as vagas oferecidas e o número de pessoas disponíveis para ocupá-las, especialmente em funções cujo aprendizado ocorre em grande parte durante a rotina diária e exige acompanhamento de trabalhadores mais experientes.
Enquanto as empresas precisam formar equipes para atender às demandas imediatas das obras, profissionais com muitos anos de carreira continuam concentrando conhecimentos adquiridos na prática, tornando a renovação dos quadros relevante para manter atividades que dependem diretamente desse tipo de experiência.
Salários maiores ainda não resolvem falta de profissionais
Os valores encontrados no edifício de 16 andares mostram de forma concreta essa diferença entre início de carreira e progressão profissional, pois o servente recebe R$ 2.300 inicialmente, enquanto um pedreiro experiente pode alcançar remuneração de até R$ 10 mil em São Paulo.
Ainda assim, o aumento das oportunidades e a possibilidade de salários mais elevados convivem com a dificuldade de contratação, cenário também observado nos indicadores da CBIC, que apontam crescimento do emprego formal ao mesmo tempo em que empresários relatam escassez de profissionais.
Mais do que simplesmente abrir novas posições, portanto, as construtoras enfrentam o desafio de encontrar trabalhadores disponíveis para funções essenciais ao andamento dos empreendimentos, principalmente aquelas executadas diretamente nos canteiros e que exigem aprendizado prático, presença diária e esforço físico.
Com 20 vagas ainda abertas em uma única construção, salários que podem alcançar R$ 10 mil e relatos de uma força de trabalho cada vez mais envelhecida, permanece a questão: remunerações maiores serão suficientes para levar uma nova geração aos canteiros de obras?

