Novas imagens de satélite estão redesenhando a história de um dos fenômenos mais famosos do Turcomenistão, enquanto medições recentes mostram mudanças na intensidade do fogo, nas emissões de metano e na exploração de gás ao redor da Cratera de Darvaza, no deserto de Karakum.
No deserto de Karakum, no Turcomenistão, a Cratera de Darvaza continua em combustão, mas uma pesquisa publicada em 2026 alterou a cronologia mais conhecida do local ao indicar que o fogo visível começou entre o fim de 1987 e o início de 1988.
Conhecida como “Porta do Inferno”, a formação tem aproximadamente 60 a 70 metros de diâmetro e ganhou projeção internacional pelas chamas alimentadas por gás natural, embora ainda exista incerteza científica sobre o momento exato em que a própria cratera se formou.
Satélites mudam a cronologia da Porta do Inferno
A partir da análise de imagens históricas do programa Landsat, o estudo publicado na Geophysical Research Letters concluiu que a combustão começou entre o fim de 1987 e o início de 1988, enquanto versões difundidas durante décadas associavam o incêndio diretamente ao ano de 1971.
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Como os registros históricos disponíveis não permitem estabelecer com segurança se a cratera surgiu em 1963 ou em 1971, a narrativa de um acidente seguido imediatamente pela ignição do gás não pode ser tratada como uma cronologia comprovada.
Além de rever a data atribuída ao início do incêndio, a pesquisa mostrou que o fenômeno permanece relevante para além do aspecto visual, pois satélites hiperespectrais detectaram 44 plumas distintas de metano entre 2020 e 2025, durante o período analisado.
Somadas as estimativas produzidas nesses cinco anos, os pesquisadores calcularam aproximadamente 71 mil toneladas de metano liberadas pela área, resultado que ajuda a explicar por que a redução das chamas não significa necessariamente o fim das emissões associadas à estrutura subterrânea.
Extração de gás acompanha redução das chamas em Darvaza
Enquanto a pesquisa revisava a história do incêndio, o governo do Turcomenistão informou, em junho de 2025, que especialistas do Instituto de Pesquisa de Gás Natural executavam um programa no campo de Chaljulba para ampliar a retirada de gás em poços próximos.
Segundo a agência estatal turcomena, poços anteriormente desativados voltaram a operar e novas perfurações foram abertas nas proximidades, numa estratégia destinada a elevar a produção e, ao mesmo tempo, reduzir a quantidade de combustível que continua alimentando a combustão em Darvaza.
Desde dezembro de 2024, dois desses poços estavam em funcionamento, enquanto uma nova perfuração com elevado fluxo de gás foi concluída em fevereiro de 2025, período em que o governo também afirmava que a taxa mensal de extração havia aumentado várias vezes na região.
Em outra indicação da mudança, a mesma fonte informou que o brilho da cratera, visível a muitos quilômetros em 2013, passou a ser percebido principalmente nas proximidades, além de apontar redução superior a três vezes na intensidade da queima.
Esse movimento ajuda a explicar por que a aparência de Darvaza mudou sem que a cratera possa ser comparada a uma fogueira convencional, já que o fator decisivo é a disponibilidade de gás que migra pelas formações subterrâneas até alcançar os pontos de combustão.
Mesmo com a diminuição do fogo visível, o comportamento do metano continua sendo acompanhado porque parte do combustível pode escapar sem ser consumida pelas chamas, o que torna a intensidade luminosa apenas um dos indicadores do fenômeno.
Menos fogo não significa ausência de metano
Nesse contexto, os dados de satélite mostram que plumas de metano continuaram sendo detectadas entre 2020 e 2025, justamente durante a fase em que a atividade térmica começou a diminuir, sinal de que menos fogo não equivale necessariamente à ausência de emissões.
Ao combinar imagens históricas e medições de gases, o trabalho científico diferencia dois aspectos que não devem ser confundidos: o tamanho aparente do incêndio e a quantidade de metano liberada pela área, já que ambos podem seguir trajetórias distintas.
Por outro lado, a versão divulgada pelo governo turcomeno ainda atribui a formação da cratera a um acidente durante a perfuração de um poço de reconhecimento e afirma que o gás foi incendiado para evitar intoxicação, sem resolver a divergência cronológica apontada pelos satélites.
O estudo de 2026 mudou esse quadro ao permitir que a cronologia fosse testada com evidências observáveis, substituindo uma data repetida durante décadas por uma janela temporal sustentada por imagens espaciais e mantendo explícita a incerteza sobre a formação do buraco.
Ao mesmo tempo, os dados oficiais sobre os novos poços indicam que a redução das chamas acompanha medidas destinadas a retirar mais gás da região antes que ele chegue à cratera, diminuindo o combustível disponível para sustentar a combustão no interior de Darvaza.
Com menos intensidade de fogo e uma história de origem mais complexa do que a versão popular de 1971, a cratera permanece acesa enquanto o monitoramento orbital acompanha as emissões e a exploração de gás nos arredores continua avançando.
Se o fogo seguir diminuindo e os satélites continuarem registrando as emissões de metano, por quanto tempo a “Porta do Inferno” ainda conservará a aparência que a transformou em um dos fenômenos mais conhecidos e fotografados do deserto de Karakum?

