Parceria entre a americana Crusoe e a paraguaia Araico prevê a instalação de um centro de processamento de dados abastecido pela hidrelétrica binacional. Especialistas alertam para a possível redução do excedente paraguaio, mas não apontam risco imediato de desabastecimento no Brasil.
O Brasil poderá receber menos energia da Usina Hidrelétrica de Itaipu nos próximos anos com a instalação de um grande centro de inteligência artificial no Paraguai. O empreendimento utilizará eletricidade produzida pela hidrelétrica binacional e poderá reduzir a parcela que o país vizinho atualmente não consome e disponibiliza ao mercado brasileiro. A iniciativa envolve a empresa americana Crusoe, especializada em infraestrutura para inteligência artificial, e a paraguaia Araico, que atua no desenvolvimento de projetos de energia e infraestrutura. A primeira fase do empreendimento tem previsão de entrar em operação em meados de 2027, mas a quantidade de eletricidade necessária para abastecer a instalação ainda não foi divulgada.
O alerta sobre os possíveis efeitos para o Brasil foi apresentado por especialistas ouvidos pelo g1 em outubro de 2026, após o anúncio da parceria em 21 de outubro. O projeto integra iniciativas de aproximação econômica entre os governos de Donald Trump e Santiago Peña. O principal ponto de atenção está no crescimento do consumo de energia dentro do Paraguai. Pelo Tratado de Itaipu, Brasil e Paraguai possuem direito a metade da eletricidade gerada pela usina, mas historicamente os paraguaios utilizaram apenas parte de sua cota, disponibilizando o restante para compra pelo Brasil.
Esse excedente vem diminuindo à medida que o Paraguai atrai novos consumidores industriais. A chegada de instalações de processamento de dados poderá acelerar a tendência, embora ainda não seja possível calcular o impacto específico do projeto.
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Paraguai já consome 74% de sua metade da energia de Itaipu

A divisão da eletricidade produzida pela hidrelétrica segue uma regra estabelecida no Tratado de Itaipu: cada país tem direito a 50% da geração.
Isso não significa, porém, que os dois lados utilizem exatamente a mesma quantidade.
O Paraguai tradicionalmente apresenta consumo inferior ao brasileiro e disponibiliza parte da eletricidade a que tem direito para ser adquirida pelo Brasil.
Atualmente, o país utiliza aproximadamente 74% de sua própria metade da geração, enquanto os 26% restantes são destinados ao mercado brasileiro.
Destinação da cota paraguaia de Itaipu:
Consumo do Paraguai 74%. Excedente destinado ao Brasil 26%
Percentuais relativos exclusivamente à metade paraguaia, não à geração total da usina.
Na prática, considerando esses percentuais, a parcela excedente equivale a aproximadamente 13% da geração total da usina. Esse percentual é uma referência proporcional, não uma medição da energia que o novo centro de inteligência artificial consumirá.
Quanto mais eletricidade o Paraguai utilizar internamente, menor tende a ser a quantidade excedente disponível para compra pelo Brasil.
O processo já vinha ocorrendo antes do anúncio do novo empreendimento. O professor Victorio Oxilia, doutor em Energia e integrante da Faculdade Politécnica da Universidade Nacional de Assunção, identifica uma intensificação da demanda paraguaia a partir de 2021 e 2022, especialmente com a instalação de negócios de elevado consumo elétrico, como empresas de mineração de criptomoedas.
A entrada de novos centros de processamento de dados acrescenta outra atividade com demanda potencialmente elevada de eletricidade.
Centro de inteligência artificial terá primeira fase prevista para 2027

O empreendimento será desenvolvido pela Crusoe e pela Araico em território paraguaio, utilizando energia produzida por Itaipu para abastecer uma infraestrutura de processamento de dados.
A instalação deverá atender clientes dos Estados Unidos e da América Latina, conforme o anúncio do governo americano.
Centros desse tipo reúnem equipamentos de computação utilizados para executar aplicações de inteligência artificial, armazenar e processar grandes volumes de dados. A operação depende de fornecimento contínuo de eletricidade, tanto para alimentar os sistemas computacionais quanto para manter a infraestrutura de funcionamento.
A primeira fase está prevista para meados de 2027. Entretanto, ainda não foram anunciados a potência elétrica contratada, o consumo anual esperado ou a capacidade total de processamento do empreendimento.
Essas informações serão fundamentais para determinar a dimensão do impacto sobre o excedente energético paraguaio.
O Brasil não participou das negociações anunciadas pelos Estados Unidos. A Itaipu Binacional também informou que não esteve presente no encontro entre as autoridades.
A utilização da parcela de energia destinada a cada país é uma decisão nacional, dentro das regras estabelecidas pelo tratado que rege a hidrelétrica.
Portanto, o projeto não representa uma retirada da metade da energia que pertence ao Brasil. A possibilidade discutida é a redução do excedente paraguaio que atualmente pode ser adquirido pelo mercado brasileiro.
Especialistas preveem redução do excedente, mas não falta de energia no Brasil
O crescimento do consumo interno do Paraguai já vem alterando a quantidade de eletricidade disponível para comercialização com o Brasil.
Para Victorio Oxilia, a tendência é que a parcela excedente continue diminuindo conforme novos consumidores de grande porte iniciem suas atividades.
“É muito difícil que suma totalmente, mas vai diminuir bastante”, afirmou o pesquisador ao avaliar a quantidade de energia que poderá continuar disponível ao Brasil.
O professor Tomaz Espósito, da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), também considera que a chegada desses empreendimentos poderá reduzir a oferta ao mercado brasileiro, especialmente diante das negociações envolvendo as regras comerciais de Itaipu.
Apesar da possibilidade de diminuição do fornecimento, não há indicação de risco imediato de desabastecimento no Brasil.
Oxilia avalia que o sistema elétrico brasileiro possui diferentes fontes de geração e alternativas capazes de limitar os impactos da redução do excedente paraguaio.
O Brasil conta com uma matriz elétrica diversificada, o que permite compensar parte das mudanças na disponibilidade de energia de determinados empreendimentos.
Espósito ressalta, porém, que Itaipu continua sendo uma importante fonte de eletricidade para o Centro-Sul brasileiro. A diminuição gradual da energia adquirida do Paraguai poderá alterar a participação da hidrelétrica no abastecimento regional.
O tamanho desse efeito dependerá tanto do crescimento da demanda paraguaia quanto da capacidade de atendimento do sistema brasileiro.
Até o momento, não existe uma estimativa oficial de quanto o novo centro de inteligência artificial poderá reduzir a eletricidade destinada ao Brasil.
Também não há confirmação de impacto sobre as tarifas pagas pelos consumidores brasileiros. Qualquer previsão de aumento na conta de luz dependeria de informações sobre consumo, contratos e condições futuras do setor elétrico.
Acordo poderá tornar mais complexas as negociações de Itaipu
A expansão do consumo paraguaio ocorre em um momento relevante para as relações comerciais entre os dois países.
O Anexo C do Tratado de Itaipu estabelece as bases financeiras e comerciais da operação binacional, incluindo regras relacionadas aos custos da eletricidade e à compensação pela energia que um país não utiliza e disponibiliza ao outro.
Historicamente, a disponibilidade de excedentes paraguaios foi uma característica importante desse arranjo.
Com o surgimento de novos consumidores no Paraguai, parte da eletricidade que antes era destinada à compra pelo Brasil poderá encontrar utilização dentro do próprio território paraguaio.
Esse movimento altera as condições consideradas nas negociações entre os países.
A instalação de centros de dados acrescenta uma nova categoria de consumidor industrial, com demanda potencialmente elevada e associada à expansão internacional da inteligência artificial.
Para o Brasil, a principal questão será acompanhar quanto dessa demanda será efetivamente atendida pela parcela paraguaia da geração de Itaipu.
A eventual redução do excedente também precisará ser considerada no planejamento do setor elétrico brasileiro, especialmente diante da importância da hidrelétrica para o Centro-Sul.
Investimento faz parte da aproximação econômica entre Estados Unidos e Paraguai
A parceria entre Crusoe e Araico integra uma agenda mais ampla de investimentos americanos no Paraguai.
O governo dos Estados Unidos anunciou iniciativas envolvendo tecnologia, infraestrutura, minerais críticos e logística, além de projetos ligados à exploração de recursos naturais.
Entre os empreendimentos apresentados está um investimento de US$ 12 milhões da Uranium Energy Corp. para desenvolver uma de suas concessões de urânio no país sul-americano.
Os dois governos também iniciaram negociações sobre cooperação no uso pacífico da energia nuclear.
Caso seja formalizado, esse entendimento poderá estabelecer regras para a exportação de equipamentos e materiais nucleares americanos ao Paraguai, respeitando requisitos de segurança e não proliferação.
Essas iniciativas mostram que o centro de inteligência artificial faz parte de um movimento mais amplo de aproximação econômica entre os dois países.
No setor de energia, o interesse americano coincide com a disponibilidade de eletricidade de origem hidrelétrica no Paraguai e com a expansão da demanda por infraestrutura computacional.
O que pode mudar para o Brasil a partir de 2027?
A consequência mais provável, caso o consumo elétrico paraguaio continue crescendo, é uma redução gradual da energia excedente disponibilizada para compra pelo Brasil.
A dimensão dessa mudança ainda depende de dados que não foram anunciados, principalmente a potência contratada pelo empreendimento da Crusoe e da Araico.
A previsão de entrada em operação da primeira fase em meados de 2027 estabelece um marco para acompanhar o desenvolvimento do projeto.
A partir desse período, será possível avaliar como a nova estrutura contribui para o crescimento da demanda energética paraguaia e quanto da eletricidade de Itaipu continuará disponível para o mercado brasileiro.
O cenário não envolve a perda do direito brasileiro à metade da geração da hidrelétrica, nem indica uma interrupção imediata do abastecimento.
O que poderá mudar é a quantidade de energia que o Paraguai deixa de consumir e disponibiliza ao Brasil, uma parcela que já vem diminuindo com a expansão das atividades industriais no país vizinho.
Por enquanto, a redução adicional é uma possibilidade apontada por especialistas, não um volume confirmado. O próximo passo previsto é a entrada em operação da primeira fase do centro de inteligência artificial em 2027, quando a nova demanda começará a influenciar efetivamente o consumo elétrico associado ao empreendimento.
