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Moradores das 8 maiores cidades goianas do Entorno do DF, que somam 1,2 milhão de pessoas, emplacaram só 57 carros elétricos e híbridos em quase 5 anos, e Goiás investiga registro falso em Brasília para fugir do IPVA

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Escrito por Douglas Avila Publicado em 26/10/2026 às 12:40
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Basta atravessar a divisa do Distrito Federal para os carros elétricos quase sumirem das estatísticas. As oito maiores cidades goianas do Entorno somam 1,2 milhão de moradores e só 57 eletrificados emplacados desde 2022, enquanto Goiás investiga quem registra o carro em Brasília para não pagar IPVA.

O contraste aparece num levantamento do site AutoPapo, publicado em 24 de outubro. O portal cruzou os emplacamentos da ABVE, a associação do veículo elétrico, com a população estimada pelo IBGE.

A janela vai de janeiro de 2022 a setembro de 2026. Entram na conta os carros 100% elétricos e os híbridos, que o mercado chama de eletrificados, nas cidades dos dois lados da divisa.

Do lado de Brasília, a maior frota eletrificada do país.

Brasília é a cidade brasileira com mais carros elétricos e híbridos por habitante. No Distrito Federal, o índice chega a 2.539 eletrificados para cada 100 mil moradores, segundo o levantamento.

Do outro lado da divisa, o retrato muda de década. As oito maiores cidades goianas do Entorno, de Águas Lindas de Goiás a Formosa, ficam abaixo de 5 eletrificados por 100 mil habitantes.

Na comparação direta, a diferença passa de 500 vezes. E isso entre cidades onde boa parte dos moradores atravessa a divisa todos os dias para trabalhar, estudar ou fazer compras no DF.

A gente olhou o número duas vezes, porque ele parece erro de digitação.

Vista aérea da BR-070 em Brasília, rodovia que liga o Distrito Federal a cidades goianas do Entorno como Águas Lindas de Goiás
BR-070 no Distrito Federal, uma das ligações com o Entorno goiano. Foto: DNIT/Divulgação

Em Santo Antônio do Descoberto, nenhum carro elétrico.

Alguns números chamam atenção até para quem conhece a região. Santo Antônio do Descoberto, com 76 mil moradores, não emplacou nenhum eletrificado em quase cinco anos, segundo o cruzamento.

Cidade Ocidental, com 104 mil habitantes, emplacou um. Somadas, as oito cidades goianas do Entorno chegam a 57 carros elétricos e híbridos no período inteiro analisado pelo AutoPapo.

Para ter uma ideia da escala, é um número que caberia com folga no estacionamento de um supermercado. E estamos falando de uma região onde vivem 1,2 milhão de pessoas.

A renda explica uma parte, mas não a diferença toda.

A renda mais baixa do Entorno pesa na conta. Carro elétrico ainda é caro no Brasil, e o próprio levantamento reconhece que a renda explica uma parte da diferença entre os dois lados.

O levantamento, porém, testou essa explicação com um grupo de controle. A ideia foi comparar o Entorno com cidades parecidas, do mesmo estado e com as mesmas regras de IPVA, mas longe da divisa.

O grupo escolhido foi a Grande Goiânia. Aparecida de Goiânia, Senador Canedo e Trindade também são cidades-dormitório e seguem a mesma lei tributária de Goiás. A diferença é que não encostam no DF.

Na Grande Goiânia, o índice é quase cem vezes maior.

Aparecida de Goiânia tem 291 eletrificados por 100 mil habitantes. Senador Canedo chega a 344, e Trindade, a 250. São cidades de perfil parecido, mas com dezenas de vezes mais carros elétricos.

Somadas, as cidades goianas com mais de 50 mil habitantes fora do Entorno, sem contar a capital, chegam a 425 por 100 mil. É quase cem vezes o índice dos vizinhos de Brasília.

Entre os municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, números tão baixos só aparecem no interior da Amazônia. O AutoPapo cita Parintins (AM), onde só se chega de barco ou de avião.

No DF, elétrico e híbrido não pagam IPVA.

A pista para entender o vazio está no imposto. Uma lei distrital de 2019 zera o IPVA de carros elétricos e híbridos no Distrito Federal, num benefício que vale até o fim de 2027.

Segundo o AutoPapo, o DF é a única unidade da federação que isenta todos esses modelos, sem limite de valor. Goiás não tem isenção para eles, e o dono paga o imposto cheio.

Em outras palavras, um eletrificado de mesmo preço custa bem mais por ano para quem o registra em Goiás. É uma diferença que pesa todo ano, enquanto o carro estiver em nome do dono.

Fila de carros elétricos Renault Twizy estacionados em Brasília, cidade com mais eletrificados por habitante do país
Carros elétricos Renault Twizy em Brasília, em 2019. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Goiás já foi atrás de quem registra o carro fora.

A suspeita não é nova para o Fisco goiano. Em agosto de 2024, a Secretaria da Economia de Goiás e a Polícia Civil deflagraram a Operação Quíron, segundo o levantamento do AutoPapo.

O alvo eram donos que moram em Goiás, mas registravam os carros em outro lugar. Para isso, usavam endereços falsos, de parentes ou inexatos, de acordo com as informações divulgadas pela polícia.

Na primeira fase, eram cerca de 500 proprietários, e 99% dos casos estavam ligados ao Distrito Federal. Em abril de 2025, o estado já tinha recuperado mais de R$ 3 milhões em impostos.

O prejuízo estimado chegou a R$ 10 milhões.

Em setembro do ano passado, eram cerca de 700 donos notificados e um prejuízo estimado em R$ 10 milhões para os cofres de Goiás, ainda segundo os dados reunidos pelo AutoPapo.

Uma nova fase foi anunciada em outubro de 2025. Ela mirou 172 carros comprados fora de Goiás, a maioria no Distrito Federal, de donos que moram no estado vizinho.

As autoridades não divulgaram em quais cidades moram os investigados. Por isso, não dá para afirmar quantos dos casos estão justamente no Entorno, onde os números de emplacamento são tão baixos.

Quem é pego paga o IPVA, multa de 100% e ICMS.

A conta para quem cai na fiscalização é alta. Além do IPVA devido a Goiás, o dono paga multa de 100% e a diferença de ICMS entre os estados na compra do carro.

O proprietário ainda pode responder por crime contra a ordem tributária, com pena de até dois anos de detenção. O registro com endereço falso deixa de ser economia e vira processo.

Se você mora em Goiás e pensa em registrar um carro em outro lugar para fugir do imposto, vale saber que Goiás já notificou centenas de donos exatamente por isso.

A isenção do DF pode virar permanente.

Enquanto isso, o benefício segue valendo em Brasília. Um projeto na Câmara Legislativa do DF quer estender a isenção até 2030, segundo o AutoPapo, mantendo a vantagem por mais três anos.

O ex-deputado distrital Rodrigo Delmasso (Republicanos), autor de uma das propostas que deram origem à lei, foi além. Em entrevista ao PlatôBR, ele defendeu retirar o prazo de vez.

“Uma coisa que eu defendo é retirar esse prazo. É deixar para sempre”, disse Delmasso ao portal, que lembrou que a isenção pode vencer em dezembro de 2027 se nada mudar.

O debate sobre IPVA de elétrico corre em outros estados.

A discussão não é só do DF. Outros governos também avaliam zerar ou reduzir o imposto, como mostramos quando um governo estadual passou a estudar IPVA zero para carros elétricos.

Enquanto as regras forem diferentes de um lado e de outro da divisa, a tentação de registrar o carro no endereço mais barato continua. E o Fisco goiano já mostrou que está olhando para isso.

Conta pra gente nos comentários: na sua opinião, Goiás deveria criar uma isenção para carros elétricos ou o DF deveria acabar com a que já existe?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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