O endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,4% em março de 2026, o maior nível da série histórica da Peic iniciada em 2015, com o comprometimento da renda chegando a 29,3% — recorde desde 2011 — e até quem ganha acima de dez salários mínimos já sente o peso dos juros altos e da inflação
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgou em 7 de abril de 2026 os dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) referentes a março, e o resultado é um recorde que atinge praticamente todas as faixas de renda. Segundo o G1, 80,4% das famílias brasileiras declararam ter algum tipo de dívida — o maior índice desde o início da série histórica, em 2015.
Endividamento das famílias sobe mês a mês sem trégua
O índice de março representa uma alta de 0,2 ponto percentual em relação a fevereiro de 2026, quando o endividamento já estava em 80,2%. Em comparação com março de 2025, a diferença é ainda mais expressiva: 3,3 pontos percentuais acima dos 77,1% registrados um ano antes.
Dessa forma, a trajetória ascendente se mantém desde o início de 2025, impulsionada por juros elevados, inflação persistente e o aumento no custo de itens essenciais. Conforme apontou a Poder360, a alta dos preços do diesel e de combustíveis em geral agravou o cenário ao encarecer o transporte de mercadorias, pressionando os preços no supermercado e reduzindo o poder de compra.
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Cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado e prestações de carro e casa lideram as modalidades de dívida entre as famílias brasileiras, segundo a CNC.
Quem ganha mais de dez salários mínimos também deve

Um dado que chamou a atenção na pesquisa foi o avanço do endividamento entre famílias com renda superior a dez salários mínimos, que chegou a 69,9% em março. De acordo com o portal Bora Investir, da B3, o aumento nessa faixa foi o mais expressivo do mês.
Por outro lado, houve uma melhora pontual entre os mais vulneráveis. A inadimplência entre famílias com renda até três salários mínimos caiu de 38,9% em fevereiro para 38,2% em março. Além disso, dados da Serasa indicam que o número de inadimplentes de baixa renda (até dois salários mínimos) recuou de 25,2 milhões para 23,1 milhões. Ainda assim, o cenário geral permanece de pressão generalizada.
Renda comprometida bate recorde desde 2011
Além do endividamento em si, o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas atingiu 29,3% em março — o maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011. Portanto, quase um terço de tudo o que as famílias ganham já está destinado a pagar prestações, juros e parcelas.
A inadimplência, por sua vez, permaneceu estável em 29,6%, o mesmo patamar de fevereiro, mas 1,0 ponto percentual acima de março de 2025. Isso indica que, embora o número de endividados cresça, a proporção que atrasa pagamentos não disparou — ao menos por enquanto.

“Vemos uma nova rodada de reajuste das expectativas de inflação para os próximos meses, fenômeno que, se confirmado, pressionará desproporcionalmente o orçamento das famílias de renda mais baixa”, alertou Fabio Bentes, economista-chefe da CNC.
Governo reage e Selic começa a recuar
O presidente Lula reagiu ao recorde pedindo solução rápida ao ministro, conforme reportou o Correio Braziliense. O governo já havia lançado o programa Desenrola Brasil em 2023, encerrado em março de 2024, e agora estuda novas medidas de renegociação de dívidas. Propostas recentes incluem a liberação do FGTS para quitar dívidas, mas o impacto estrutural dessas iniciativas ainda é incerto.
No campo monetário, o Banco Central iniciou o corte da taxa Selic em março de 2026 após um longo ciclo de alta. Contudo, os efeitos da redução dos juros demoram meses para chegar ao consumidor final. Enquanto isso, a alta nos preços de combustíveis como o diesel — que nem sempre acompanha as quedas do petróleo — continua pressionando os custos logísticos e, por consequência, o preço dos produtos na prateleira.
Recorde não significa colapso, mas acende alerta para os próximos meses
Apesar do número recorde, há nuances no cenário. A inadimplência se manteve estável em 29,6%, o número de inadimplentes de baixa renda caiu segundo a Serasa, e o corte na Selic sinaliza uma inflexão na política monetária. Porém, a CNC alerta que os efeitos da flexibilização demoram e que o endividamento deve continuar avançando antes de recuar.
Com oito em cada dez famílias devendo e quase 30% da renda já comprometida, o recorde de março de 2026 é um alerta concreto: o crédito se tornou peça essencial do orçamento doméstico, e qualquer novo choque inflacionário ou fiscal pode transformar endividamento em inadimplência em larga escala.
