Ligação fixa entre Espanha e Marrocos é considerada tecnicamente viável por empresa alemã e pode reduzir drasticamente o tempo de viagem entre os continentes, transformando rotas de passageiros e cargas
A ideia de ligar fisicamente a Europa à África por meio de um túnel submarino sob o Estreito de Gibraltar voltou ao centro do debate internacional após a confirmação de que o projeto é tecnicamente viável, mesmo diante de desafios considerados extremos por décadas. Avaliada em cerca de R$ 53,3 bilhões, a obra prevê um túnel de aproximadamente 38 quilômetros, conectando o sul da Espanha ao norte do Marrocos e criando uma nova rota estratégica entre dois continentes historicamente separados por mar.
A informação foi divulgada por jornais britânicos como Express e The Sun, com base em um estudo técnico elaborado pela empresa alemã Herrenknecht, referência mundial em perfuração de grandes túneis. O parecer foi encomendado pela Sociedade Espanhola de Estudos para a Comunicação Fixa através do Estreito de Gibraltar, entidade responsável por analisar a viabilidade de uma ligação permanente entre os dois países.
Embora a proposta exista há mais de quatro décadas, o novo relatório representa um avanço relevante ao afirmar que, com a tecnologia atualmente disponível, o túnel pode sair do campo das ideias e avançar para fases mais concretas de planejamento e execução.
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Um traçado estratégico que pode encurtar distâncias entre continentes

O traçado proposto liga Punta Paloma, no sul da região espanhola de Cádiz, a Malabata, nas proximidades de Tânger, no norte do Marrocos. Essa conexão permitiria uma integração inédita entre as redes ferroviárias europeia e africana, com impacto direto sobre o transporte de passageiros e mercadorias.
Atualmente, uma viagem entre Madri e Casablanca leva cerca de 12 horas, considerando o deslocamento por estrada e a travessia de balsa. Com a implantação do túnel e o uso de trens de alta capacidade, esse tempo poderia cair para aproximadamente cinco horas e meia, uma redução considerada drástica por especialistas em logística e mobilidade internacional.
Além disso, a expectativa é que mais de 12 milhões de passageiros por ano utilizem a ligação, número que tende a crescer com a consolidação do transporte ferroviário como alternativa mais rápida, previsível e sustentável. Paralelamente, o transporte de cargas também seria beneficiado, com redução de custos logísticos e maior fluidez no comércio entre Europa e África.
Não por acaso, o projeto se inspira em megaconexões já consolidadas, como o Eurotúnel, que liga a Inglaterra à França, e a ligação fixa entre Dinamarca e Suécia, exemplos de como grandes obras de engenharia podem redefinir rotas econômicas e padrões de deslocamento.
Desafios extremos sob o Estreito de Gibraltar
Apesar do otimismo trazido pelo novo parecer técnico, o túnel sob o Estreito de Gibraltar enfrenta obstáculos significativamente mais complexos do que outras obras similares. A região atinge profundidades de até 300 metros, cerca de quatro vezes mais do que o Canal da Mancha, onde está instalado o Eurotúnel.
Além da profundidade, o estreito apresenta fortes correntes marítimas, ventos intensos e uma característica geológica considerada crítica: a presença de placas tectônicas ativas, com registros frequentes de pequenos tremores. Esses fatores sempre foram apontados como os principais entraves técnicos desde que Espanha e Marrocos criaram, em 1979, uma comissão binacional para estudar a travessia fixa.
Segundo a Herrenknecht, no entanto, esses desafios não inviabilizam a obra. O estudo indica que, com soluções de engenharia adequadas, monitoramento geológico constante e equipamentos de perfuração de última geração, o túnel pode ser construído com níveis aceitáveis de segurança e estabilidade.
Essa conclusão marca uma mudança importante no tom das discussões, que por décadas giraram em torno da impossibilidade técnica do projeto, especialmente devido às condições naturais do estreito.
Próximos passos e impacto geopolítico da conexão
Com o novo parecer em mãos, o governo espanhol passou a avaliar os próximos passos do projeto. De acordo com informações divulgadas pela imprensa britânica, um plano preliminar de engenharia pode ser submetido à aprovação oficial já no próximo ano, reacendendo a possibilidade de que a ligação física entre Europa e África avance para a fase de execução.
Caso o túnel saia do papel, o impacto vai além da mobilidade. Especialistas apontam que a obra pode reconfigurar fluxos comerciais, fortalecer a integração econômica entre os dois continentes e ampliar a relevância estratégica do eixo Espanha–Marrocos no comércio internacional.
Além disso, a conexão ferroviária tende a reduzir a dependência de balsas e rotas marítimas congestionadas, oferecendo maior previsibilidade logística e estimulando investimentos em infraestrutura, turismo e cadeias produtivas transcontinentais.
Assim, um projeto discutido há mais de 40 anos volta a ganhar fôlego, agora sustentado por avaliações técnicas que indicam que a travessia sob o Estreito de Gibraltar não é apenas um sonho de engenharia, mas uma possibilidade concreta dentro dos limites da tecnologia atual.
Fonte: O Globo


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