Uma das maiores captadoras de leite do país avalia investir cerca de US$ 10 milhões em sua primeira operação produtiva fora do Brasil, instalando no Paraguai uma unidade para fracionar e embalar leite em pó sob o regime de maquila, enquanto impostos menores, energia barata e condições industriais mais competitivas transformam o país vizinho em alternativa para abastecer o próprio consumidor brasileiro.
A Jussara nasceu em 1954, construiu sua história dentro do Brasil e hoje processa aproximadamente 1,2 milhão de litros de leite por dia, distribuindo seus produtos por mais de 700 municípios. Em 2025, captou 368 milhões de litros de 1.467 produtores entre as empresas participantes do ranking nacional. Agora, depois de sete décadas crescendo em território brasileiro, a companhia estuda realizar sua primeira operação produtiva internacional.
O destino escolhido para a análise não é Europa, Estados Unidos ou algum grande mercado consumidor. É o Paraguai, país vizinho que vem construindo uma estratégia agressiva para atrair empresas brasileiras com carga tributária reduzida, energia abundante e barata, disponibilidade de trabalhadores e um ambiente que a própria Jussara descreveu como competitivo e juridicamente seguro.
Produzir fora para vender tudo dentro do Brasil

O projeto prevê investimento inicial próximo de US$ 10 milhões em uma unidade de fracionamento e envasamento de leite em pó. A cidade ainda não foi definida, a fábrica não está em construção e não existe capacidade produtiva anunciada, mas um ponto já foi divulgado com clareza: 100% da produção prevista terá o Brasil como destino.
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Isso significa que uma companhia brasileira poderá utilizar infraestrutura, trabalhadores, energia e benefícios fiscais paraguaios para acondicionar um produto que depois cruzará novamente a fronteira e será vendido ao consumidor brasileiro. Não se trata, ao menos pelas informações disponíveis, de uma fábrica completa que transforma leite cru em pó, mas de uma unidade destinada principalmente ao fracionamento e à embalagem do produto.
É justamente nesse ponto que a história deixa de ser apenas uma notícia empresarial. Se uma companhia com mais de sete décadas de operação no país considera economicamente interessante atravessar a fronteira para realizar parte de seu processo produtivo e depois trazer tudo de volta, existe uma pergunta que Brasília deveria levar a sério: o que o Brasil está oferecendo para que sua própria indústria prefira produzir aqui?
No Paraguai, a conta começa em 1%
O regime de maquila paraguaio estabelece um Tributo Único de Maquila de 1%, calculado sobre o valor agregado realizado no país ou sobre o valor da fatura de exportação, aplicando-se o montante que resultar maior. O modelo também permite condições fiscais e aduaneiras específicas para matérias-primas, insumos, máquinas e outros bens utilizados no processo produtivo.
E as empresas brasileiras já compreenderam a vantagem. No primeiro semestre de 2026, as exportações paraguaias realizadas pelo sistema de maquila chegaram a US$ 717 milhões, crescimento de 25% em um ano. O Brasil sozinho absorveu 62% desses produtos, enquanto o regime já estava associado a mais de 36 mil empregos no Paraguai.
O contraste é difícil de ignorar. Enquanto o Paraguai cria empregos e recebe investimentos ao oferecer condições mais agressivas para a indústria, empresas brasileiras estudam utilizar exatamente essa estrutura para continuar atendendo ao mercado que deixaram do outro lado da fronteira.
Leite paraguaio já avança rapidamente sobre o mercado brasileiro

Paraguai produz aproximadamente 900 milhões de litros de leite por ano, e o setor estima movimentar cerca de US$ 600 milhões anualmente. O leite em pó já responde por aproximadamente metade dos lácteos paraguaios de maior valor agregado exportados, enquanto o Brasil absorve perto de 90% dos embarques lácteos daquele país.
As vendas também estão acelerando. Exportações paraguaias de leite em pó para o Brasil chegaram a US$ 21,9 milhões, com crescimento interanual de 150,9% no período analisado em 2026. Jussara, portanto, não está olhando para um mercado experimental, mas para uma cadeia que já descobriu no consumidor brasileiro seu principal destino.
Ao mesmo tempo, somente em julho o Brasil importou aproximadamente 230 milhões de litros em equivalente-leite, segundo os dados reunidos no levantamento, alta de 33,9% frente a julho de 2025. O produto estrangeiro continua chegando com forte competitividade enquanto produtores brasileiros questionam margens cada vez mais apertadas.
O governo combate dumping, mas suspende a própria defesa
O cenário fica ainda mais desconfortável quando se observa o que aconteceu com Argentina e Uruguai. Em junho, o Brasil decidiu aplicar direitos antidumping sobre leite em pó desses dois países depois de investigar os preços praticados, mas o governo suspendeu imediatamente os efeitos da medida enquanto analisa possíveis impactos sobre preços, inflação e abastecimento.
Paraguai não está incluído nesse antidumping e seria errado afirmar que Jussara escolheu o país para escapar das tarifas. A própria investigação apresentada deixa claro que não há declaração da companhia relacionando o projeto à medida brasileira. Mas o contraste competitivo existe e não pode ser apagado: enquanto Brasília ainda discute como proteger a produção nacional, uma empresa brasileira avalia se tornar mais competitiva justamente produzindo parte de sua cadeia fora do país.
Quando uma empresa de 72 anos começa a olhar para fora
Existe ainda um componente financeiro. O faturamento da Jussara recuou aproximadamente 7% em 2025, de cerca de R$ 1,4 bilhão para R$ 1,3 bilhão, enquanto o lucro líquido caiu de R$ 35,8 milhões para R$ 20,9 milhões, redução de 41,6%. Isso não prova que o projeto paraguaio seja consequência desses resultados, mas torna a busca por custos menores ainda mais relevante.
Talvez seja exatamente esse o ponto que deveria incomodar mais. O problema não é uma empresa buscar eficiência, pagar menos impostos ou aproveitar energia mais barata. Empresas existem para competir e sobreviver. O problema aparece quando uma companhia brasileira conclui que pode ser mais competitiva saindo parcialmente do Brasil para continuar vendendo ao próprio Brasil.
Se Paraguai oferece imposto de 1%, energia barata, incentivos e segurança jurídica suficientes para convencer uma empresa brasileira de 72 anos a atravessar a fronteira, talvez a pergunta não seja por que ela está indo.
Talvez seja por que ficar está ficando tão difícil.
