Uma tradicional indústria de laticínios do Rio Grande do Sul interrompeu a produção, colocou trabalhadores em férias coletivas e tenta sobreviver a uma dívida superior a R$ 200 milhões justamente quando o governo federal mantém suspensas tarifas contra leite em pó da Argentina e do Uruguai, apesar de a própria Camex ter reconhecido oficialmente a existência de dumping e dano à indústria brasileira.
Durante décadas, toneladas de leite entraram diariamente na fábrica da Cooperativa Piá, em Nova Petrópolis, na Serra Gaúcha. A estrutura foi preparada para processar até 1 milhão de litros por dia, enquanto a empresa chegou a captar aproximadamente 600 mil litros diariamente em seus melhores momentos. Em agosto de 2026, porém, o cenário é praticamente o inverso: máquinas paradas, funcionários em férias coletivas, produtos deixando de ser abastecidos aos clientes e nenhuma data definida para a retomada.
Seria confortável tratar tudo como mais uma empresa que administrou mal suas contas e acabou pagando pelo próprio erro. Parte da crise realmente nasceu dentro da cooperativa, que acumulou endividamento, perdeu produtores, enfrentou problemas de gestão e precisou vender ativos. Mas encerrar a discussão nesse ponto também seria conveniente demais para Brasília, especialmente quando o colapso acontece em um setor que há anos protesta contra a pressão exercida pelo leite estrangeiro sobre o mercado brasileiro.
O governo reconheceu o dumping, mas decidiu não cobrar a tarifa

Em junho de 2026, o Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior concluiu a investigação sobre importações de leite em pó da Argentina e do Uruguai. O resultado não foi uma simples reclamação de produtores brasileiros: o governo aplicou formalmente direitos antidumping definitivos, com validade prevista de até cinco anos e valores diferentes conforme cada exportador.
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O detalhe que torna o episódio especialmente incômodo veio logo depois. A mesma decisão que estabeleceu as tarifas determinou sua suspensão imediata por razões de interesse público, abrindo uma avaliação sobre os possíveis efeitos da cobrança. Em agosto, o próprio Ministério do Desenvolvimento continuava classificando a medida referente ao leite em pó argentino e uruguaio como suspensa.
Na prática, existe uma situação difícil de explicar ao produtor que vê sua margem desaparecer: o Estado brasileiro reconhece oficialmente uma prática de comércio desleal contra a indústria doméstica, calcula quanto deveria cobrar para neutralizá-la, publica a decisão no Diário Oficial e depois impede que a cobrança produza efeitos enquanto avalia outras consequências econômicas.
A preocupação com preços ganhou prioridade, e o campo questiona quem paga a conta
O governo sustenta que uma medida antidumping não pode ser analisada isoladamente e abriu procedimento para avaliar possíveis impactos sobre o interesse público. É uma preocupação legítima para qualquer administração que precise observar inflação, custos para consumidores e funcionamento da cadeia de alimentos. A decisão, portanto, não significa que Brasília tenha simplesmente decidido favorecer importadores estrangeiros.
Mas a CNA contestou justamente essa lógica. A entidade lamentou a suspensão e posteriormente apresentou estudo defendendo que o impacto inflacionário da aplicação das tarifas tenderia a ser extremamente limitado. Para a confederação, deixar a medida sem efeito prolonga uma situação de concorrência considerada desleal justamente depois de o dumping ter sido reconhecido pelo próprio governo.
É nesse contraste que a paralisação da fábrica gaúcha deixa de ser apenas uma notícia empresarial. Enquanto Brasília discute se proteger o leite nacional pode pressionar preços, uma indústria fundada em 1967 interrompe sua produção e coloca trabalhadores em férias coletivas. A cooperativa acumulava problemas muito antes da decisão federal, mas o ambiente encontrado durante sua tentativa de recuperação está longe de ser aquele que produtores e indústrias nacionais esperavam encontrar.
Dívida passou de R$ 200 milhões e a produção despencou
A Piá não chegou a essa situação em poucos meses. A crise explodiu em 2023 e a cooperativa passou por mudanças administrativas, venda de ativos, redução de custos e perda expressiva de fornecedores. O endividamento chegou a aproximadamente R$ 249 milhões naquele período, enquanto atualmente diferentes fontes colocam o passivo acima de R$ 200 milhões. Em março de 2026, os associados aprovaram a liquidação da cooperativa com continuidade das atividades.
Mais recentemente, surgiu um pré-acordo envolvendo a Tirol e a marca Piá. A expectativa era reconstruir volume e aproveitar novamente a enorme capacidade industrial instalada em Nova Petrópolis. O plano discutido previa elevar uma produção que havia caído para cerca de 10 mil litros diários a aproximadamente 100 mil litros por dia, mas a definição da operação não ocorreu no ritmo esperado e, em agosto, a cooperativa suspendeu temporariamente a fabricação.
Nem todo o problema nasceu em Brasília, mas Brasília também precisa responder
Culpar exclusivamente o governo Lula pelo colapso seria intelectualmente desonesto. Uma tarifa contra importações não apagaria uma dívida superior a R$ 200 milhões, não devolveria automaticamente produtores que deixaram de fornecer leite e não corrigiria decisões administrativas tomadas muito antes da atual paralisação. A própria trajetória recente da cooperativa mostra que a crise possui raízes internas profundas.
O problema é justamente o outro extremo: utilizar essas falhas como desculpa para fingir que as escolhas econômicas do governo são irrelevantes. Quando uma fábrica nacional já está fragilizada, produtores reclamam da concorrência externa e o próprio Estado reconhece dumping, a decisão de suspender a proteção deixa de ser detalhe burocrático e passa a ser uma escolha política e econômica que merece cobrança.
A imagem que fica em Nova Petrópolis é desconfortável. De um lado, existe uma fábrica capaz de processar centenas de milhares de litros, hoje sem produzir e com trabalhadores em férias coletivas. Do outro, existe um governo que já concluiu que houve dumping no leite importado, mas mantém suspenso o mecanismo criado para combater exatamente essa prática. A crise da cooperativa não começou em Brasília, mas cada máquina desligada torna mais difícil perguntar até quando proteger a produção brasileira continuará sendo tratado como um risco, enquanto vê-la desaparecer parece ser apenas mais um número na planilha.
