A startup afirma ter transformado mercúrio em ouro estável em setembro, mas não informou quanto metal produziu nem publicou dados que terceiros possam checar de forma independente
A Marathon Fusion, startup de fusão nuclear sediada em San Francisco, afirma ter transformado mercúrio em ouro estável em um experimento feito em setembro. A empresa anunciou isso no X, no dia 21 de outubro, em post oficial, e diz que a taxa ficou dez vezes acima do recorde que o CERN divulgou em 2025, em comunicado do ALICE. A notícia chegou ao Brasil pelo O Globo, no fim de semana.
Como o mercúrio vira ouro nesse experimento?
A reação descrita usa nêutrons de alta energia, gerados na fusão, para atingir átomos de mercúrio-198. O choque transforma o mercúrio em mercúrio-197, que é radioativo e decai até virar ouro-197, a única forma estável do metal. Segundo a análise da Yahoo Tech, a física do processo é conhecida. O que ainda não aparece é o resultado em números.
O que a empresa mostrou até agora?
Segundo a empresa, o experimento com mercúrio gerou espectros de raios gama, que ela diz indicar a formação do ouro. Não há quantidade de ouro, rendimento nem pureza divulgados. Também não há método de fusão publicado que outros grupos possam repetir, de acordo com a mesma análise. Sem esses dados, o resultado não pode ser checado de forma independente.
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Quanto ouro uma usina produziria?
Em 2025, a Marathon publicou um estudo com simulações, em preprint no arXiv. Segundo o The Hindu, a conta chega a cerca de duas toneladas de ouro por ano para uma usina de 1 gigawatt térmico, mas esse número é projeção. Ele depende de uma instalação de fusão em escala industrial e não é o que saiu do experimento de setembro.
Dez vezes o recorde do CERN é muito ou pouco?
Em maio de 2025, o CERN informou que colisões de núcleos de chumbo no LHC produziram cerca de 86 bilhões de núcleos de ouro entre 2015 e 2018. Em massa, isso dá 29 picogramas, ou 29 trilionésimos de grama. Os núcleos existiram por frações de segundo antes de se desfazerem.
A Marathon diz ter superado essa marca em dez vezes. A empresa não explicou se a comparação usa massa total, número de núcleos por segundo ou outra medida. Sem essa definição, o “dez vezes” compara grandezas que podem não ser as mesmas.
Quanto custaria produzir esse ouro?
A empresa não divulgou o custo nem estimativas que permitam comparar a transmutação com a extração em mina, segundo o O Globo. Para o ouro pesar no mercado, o processo teria de produzir quantidades relevantes a preço competitivo. Também seria preciso descartar os isótopos radioativos formados no processo, e o mercúrio de partida entraria na conta.
O post de 21 de outubro abre com o anúncio do ouro, antes de falar de reatores e de isótopos médicos. Vale ler o texto completo:
Por enquanto, o que existe é um anúncio com dados parciais de uma empresa que desenvolve fusão, não uma produção de ouro medida. Para virar notícia de mercado, falta o dado que a própria empresa ainda não mostrou: quanto ouro saiu do experimento, e com que custo.
