Jill Grandas, da Tennessee Donor Services, conseguiu em 11 de setembro de 2001, com o espaço aéreo fechado pela FAA, que um C-130 da Guarda Nacional levasse de Nashville a Houston o fígado que salvou Kareena, bebê de seis meses. Em 2026, 25 anos depois, as duas se conheceram pessoalmente.
Jill Grandas, da Tennessee Donor Services, recebeu em 11 de setembro de 2001 um telefonema da equipe da sala de cirurgia do Centro Médico da Universidade Vanderbilt, em Nashville: havia um doador com fígado compatível para Kareena, uma bebê de seis meses que morria de insuficiência hepática em Houston, e o órgão precisava viajar naquele mesmo dia. Com o espaço aéreo dos Estados Unidos fechado pela FAA por causa dos ataques terroristas, ela ligou para a torre de controle do aeroporto de Nashville e conseguiu que nove militares da Guarda Nacional do Tennessee decolassem num C-130 com uma única carga a bordo: o fígado.
A história foi contada com exclusividade pela revista PEOPLE em 5 de setembro de 2026, em reportagem de Nicholas Rice, por ocasião do primeiro encontro pessoal entre Grandas, hoje com 62 anos e CEO da Tennessee Donor Services, e Kareena, que tem 25 anos e cursa Direito.
FAA fechou o espaço aéreo e só voos militares, policiais, de bombeiros e médicos podiam decolar
Durante os ataques de 11 de setembro de 2001, a Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) fechou o espaço aéreo nacional. Nenhum voo civil ou comercial comum foi autorizado; apenas voos militares, policiais, de bombeiros e de transporte médico podiam subir, segundo a PEOPLE.
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Naquele dia, terroristas sequestraram quatro aviões comerciais e mataram quase 3.000 pessoas, no ataque terrorista mais mortal da história. Foi nesse cenário que um único voo com um fígado a bordo conseguiu autorização graças a Grandas.
Grandas soube do ataque pelo rádio, levando os filhos à escola

“Eu estava levando meus filhos para a escola quando ouvi no rádio que a primeira torre do World Trade Center havia sido atingida. Como o resto do mundo, fiquei devastada”, contou Grandas à PEOPLE. Quando chegou ao trabalho, a segunda torre já tinha sido atingida.
“Acreditava-se que outros aviões poderiam ser sequestrados e levados para Washington, D.C., e a FAA havia ordenado a suspensão imediata dos voos. Estávamos assustados, confusos e tomados pela dor“, relembra.
Doação de órgãos não podia parar: “uma pausa de poucos minutos pode significar uma vida não salva”
Grandas e os colegas queriam parar e absorver o que estava acontecendo, mas, pela natureza do trabalho, não podiam, segundo ela. “Mesmo uma pausa de poucos minutos na área da doação de órgãos pode significar que uma vida não será salva, porque os órgãos humanos são muito frágeis e aqueles que aguardam transplantes estão muito doentes”, disse.
Telefonema da Vanderbilt: bebê em Houston precisava de um fígado naquele dia
O chamado veio da equipe da sala de cirurgia da Vanderbilt, em Nashville, sobre Kareena, que “precisava desesperadamente de um fígado naquele dia para sobreviver”, nas palavras de Grandas. “Na Vanderbilt, havia um doador cujo fígado era compatível, e precisávamos enviar esse fígado imediatamente para Houston para salvar a vida do bebê.”
“Meu primeiro pensamento foi o de sempre: ‘Ok, vamos fazer isso acontecer'”, contou. “Mas, logo em seguida, a realidade me atingiu. Com todos os voos cancelados, transportar um fígado para Houston era impossível.“
“Se a FAA está proibindo os aviões de voar, a FAA pode me ajudar a colocar um no ar”
A saída, segundo Grandas, veio de um raciocínio simples: “Bem, se a FAA está proibindo os aviões de voar, a FAA pode me ajudar a colocar um no ar”. Ela trabalha na Tennessee Donor Services há 39 anos.
“Hoje, olhando para trás, 25 anos depois, percebo o quão fantasiosa era essa ideia, considerando o que estava acontecendo em Nova York, Washington D.C. e Pensilvânia”, disse à PEOPLE. “Mas estou muito feliz por não ter duvidado de mim mesma na época.“
Lista telefônica, páginas azuis e o número da torre de controle de Nashville
O primeiro obstáculo era prático: como falar com a FAA? “Peguei a lista telefônica, que naquela época ainda era a melhor fonte para encontrar alguém, e fui até as páginas azuis, que listavam os órgãos governamentais. Lá, em preto e branco, estava o número da Torre de Controle de Tráfego Aéreo do Aeroporto de Nashville”, contou Grandas.
“Disquei o número e alguém atendeu. Eu não conseguia acreditar”, disse. Ela foi transferida imediatamente para a supervisora da torre e explicou que trabalhava para a Tennessee Donor Services e que um bebê estava prestes a morrer em Houston se não recebesse um fígado naquele momento.
“Entendo sua emergência”: supervisora da torre tinha um parente na fila de transplante
“Jamais me esquecerei das palavras dela: ‘Entendo sua emergência'”, recorda Grandas. Só mais tarde ela descobriu por que a resposta foi tão rápida.
A supervisora, descrita por Grandas como “boa samaritana”, já tinha passado pela experiência de ter um ente querido na lista de espera para transplante, segundo a CEO.
Nove militares da Guarda Nacional voaram um C-130 com uma única carga: um fígado
Pouco depois, o órgão estava a caminho de um aeroporto em Nashville com nove membros da Guarda Nacional do Tennessee, que “voaram em um avião C-130 com apenas uma carga, um pequeno fígado de doador”, conforme Grandas.
“Foi minha única alegria em um dia que devastou o nosso mundo”, disse à PEOPLE. Ela credita o resultado às equipes da Vanderbilt e da Tennessee Donor Services, que não pararam de trabalhar, e à bravura dos militares, “que arriscaram suas vidas para sobrevoar a área”. A vida de Kareena foi salva naquele dia em Houston.
“Ninguém nunca me disse não”: hospital, FAA e Guarda Nacional acharam um jeito
“O mais surpreendente foi que, por mais que eu estivesse determinada a não aceitar um ‘não’ como resposta, ninguém nunca me disse ‘não'”, afirmou Grandas. “Nem a equipe do hospital, nem a FAA, nem a Guarda Nacional. Ninguém disse: ‘Isso é impossível’. Eles encontraram maneiras de tornar isso possível.”
Para ela, a lição de 25 anos depois é que “completos estranhos de diferentes setores do governo, das forças armadas e da medicina se uniram na hora mais sombria do nosso país para salvar a vida de uma criança”.
Doador e família são os verdadeiros heróis, diz Grandas
Grandas faz questão de deslocar o protagonismo. “Os verdadeiros heróis desta história são o doador de órgãos e sua família que, em seu momento mais sombrio de luto e perda, deram à pequena Kareena, então com seis meses de idade, o dom da vida”, disse.
Kareena também cita a família do doador entre os agradecimentos, ao lado da equipe médica do Texas Children’s Hospital, da Tennessee Donor Services, da Guarda Nacional Aérea e da própria família.
Encontro 25 anos depois: trânsito numa quinta-feira e obsessão por chá preto

imagem: Jon Shapley, da Tennessee Donor Services.
O primeiro encontro pessoal das duas aconteceu numa tarde de quinta-feira, em 2026. “Nos dias que antecederam o encontro, senti uma mistura intensa de expectativa, gratidão e emoção”, contou Grandas, para quem a história de Kareena “teve um peso singular, porque está ligada a um dia de perda nacional inimaginável”.

Kareena descreveu o momento como “incrivelmente emocionante”. “Nossa conexão veio da nossa empolgação em nos encontrarmos pessoalmente, da nossa gratidão mútua e, claro, do trânsito que enfrentamos”, brincou, acrescentando que as duas descobriram “uma obsessão bastante séria” por chá preto. Ela disse ainda que queria agradecer pessoalmente “por sua generosidade, sua dedicação e sua bondade”.
Kareena cursa Direito e quer atuar em políticas de saúde

imagem: Jon Shapley, da Tennessee Donor Services.
Kareena, hoje com 25 anos, cursa Direito e considera uma carreira na área de políticas de saúde. “Crescer com um fígado transplantado significou uma entrada precoce no mundo da saúde”, contou à PEOPLE: remédios todos os dias, exames a cada poucos meses e consulta anual para acompanhar o fígado.
Com o tempo, o interesse migrou da clínica para os determinantes sociais da saúde. “Para mim, foi muito mais convincente entender como o transporte, o ar limpo e o acesso a alimentos influenciam a saúde em larga escala”, disse. “Nos próximos anos, estou animada para aprender mais sobre como a lei pode ser usada para promover a equidade em saúde.”
Um doador pode salvar até oito vidas, lembra a CEO da Tennessee Donor Services
Grandas contou que conversou com Kareena sobre a saúde dela, “que é maravilhosa”, e sobre seus objetivos de vida. “Kareena faz parte da minha história do 11 de setembro”, disse. “Não tenho dúvidas de que ela fará a diferença na vida de muitas pessoas.”
Na data da reportagem, Grandas seguia à frente da Tennessee Donor Services e Kareena, na faculdade de Direito. A CEO aproveitou para lembrar que um doador de órgãos pode salvar até oito vidas e melhorar a vida de outras 75 por meio da doação de tecidos, e incentivou o cadastro como doador.
Para você, o que mais chama atenção nessa história: a ousadia de Jill Grandas ao ligar para a torre de controle, a decisão da Guarda Nacional de voar naquele dia ou o gesto da família do doador? Deixe sua opinião nos comentários.
