Criado por JR no Morro da Providência, o projeto Women Are Heroes utilizou retratos monumentais de mulheres da comunidade para cobrir fachadas, telhados e escadarias, converteu a arquitetura da favela em espaço expositivo e levou aquelas histórias a outros pontos do Rio e ao circuito artístico internacional.
Olhos gigantes surgem entre tijolos aparentes, janelas, caixas-d’água e telhados. Em uma escadaria, o rosto de uma mulher parece acompanhar quem sobe o morro. Vistas de longe, as casas deixam de formar apenas uma paisagem urbana e passam a compor um enorme retrato coletivo.
A intervenção foi realizada em 2008 no Morro da Providência, na região central do Rio de Janeiro, pelo fotógrafo e artista francês conhecido como JR. Batizado de Women Are Heroes, o trabalho colocou mulheres da comunidade no centro de uma instalação artística de grandes proporções.
Em vez de retirar aquelas imagens da favela e apresentá-las inicialmente dentro de uma galeria, JR colou ampliações dos olhos e rostos das próprias moradoras sobre casas, muros, telhados e escadarias. Segundo registros do projeto, as fotografias ocuparam aproximadamente 40 construções da comunidade.
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Mulheres da comunidade passaram a ocupar a paisagem do morro
O projeto começou com encontros e sessões fotográficas realizadas com mulheres ligadas ao Morro da Providência. Algumas apareceram sorrindo. Outras encararam a câmera em silêncio, permitindo que as marcas da idade, do trabalho e das experiências pessoais permanecessem visíveis.
Os retratos foram produzidos com uma lente de 28 milímetros, recurso que aproximava a câmera do rosto das participantes. Depois, as fotografias foram ampliadas em preto e branco e divididas em grandes folhas de papel.
A montagem precisou se adaptar ao formato de cada construção. Uma janela poderia interromper um rosto, uma escada se transformar em parte de uma imagem e vários telhados formar, juntos, um único olhar.
Dessa maneira, a favela não apareceu apenas como cenário da intervenção. Sua arquitetura passou a determinar o tamanho, o recorte e a posição de cada fotografia.

Benedita transformou uma história de perda em pedido por paz e justiça
Entre as participantes estava Benedita Florêncio Monteiro, então com 68 anos. Nascida em Fortaleza, ela contou que chegou ao Morro da Providência antes dos 20 anos, casou-se, teve cinco filhos e ficou viúva aos 35.
Sua história também estava diretamente relacionada a um episódio que havia marcado a comunidade poucas semanas antes da chegada de JR. O neto de Benedita estava entre três jovens entregues por militares a criminosos de uma favela rival e posteriormente assassinados.
Ao relatar o caso para o projeto, Benedita falou sobre a perda do neto, que tinha 24 anos e estudava, e transformou sua participação em um pedido público por paz e justiça. Seu rosto ampliado foi instalado na comunidade e tornou-se uma das imagens mais reconhecidas da intervenção.
O trabalho, portanto, não se limitou à aparência das participantes. Cada fotografia estava ligada a uma trajetória real, ainda que quem observasse a instalação de longe nem sempre conhecesse imediatamente a história existente por trás daquele olhar.
Cerca de 40 casas viraram suporte para fotografias monumentais
Os retratos foram aplicados em aproximadamente 40 casas e edifícios, criando uma instalação que podia ser observada de diferentes pontos da região central do Rio. A técnica utilizada era relativamente simples: fotografias impressas em papel, cola e trabalho manual.
O impacto surgiu da escala e da maneira como as imagens foram distribuídas. Olhos ocuparam fachadas inteiras. Rostos acompanharam a inclinação das escadarias. Partes de uma mesma fotografia atravessaram diferentes superfícies.
O projeto também alterou temporariamente a forma como o Morro da Providência aparecia nos meios de comunicação. Em agosto de 2008, conforme descreve o site oficial de JR, a comunidade ganhou visibilidade por causa da exposição artística, e não apenas por notícias relacionadas à violência.
Ao apresentar mulheres como figuras monumentais, a intervenção inverteu outra lógica recorrente: as moradoras deixaram de ser personagens anônimas observadas de fora e passaram a encarar a cidade em proporções gigantescas.
Retratos saíram do morro e ocuparam os Arcos da Lapa
A etapa realizada na Providência fazia parte de um projeto mais amplo, desenvolvido por JR em diferentes países. Women Are Heroes buscava destacar a dignidade e o papel social de mulheres atingidas por guerras, crimes, violência e desigualdade.
Em 2009, o artista retornou ao Rio e levou os retratos das moradoras para outros espaços da cidade. Uma imagem com 17 metros de altura e 150 metros de extensão foi instalada nos Arcos da Lapa, um dos monumentos mais conhecidos da capital fluminense.
No mesmo período, a Casa França-Brasil recebeu vídeos relacionados ao trabalho e contou com a presença de famílias da Providência na abertura da exposição, conforme registra a página oficial da mostra.
Assim, os rostos que inicialmente cobriram casas e escadarias da favela passaram a ocupar também monumentos históricos e instituições culturais do Rio.
Encontro com fotógrafo da Providência deixou um espaço permanente
A passagem de JR pelo morro também resultou em uma colaboração com Maurício Hora, fotógrafo, morador e pesquisador da história da Providência.
Em 2009, os dois criaram a Casa Amarela, espaço cultural instalado no alto da comunidade. O local passou a receber atividades de arte, fotografia, teatro, capoeira, dança, idiomas e outras ações destinadas principalmente aos moradores.
De acordo com o registro da Casa Amarela, o centro cultural nasceu após a realização de Women Are Heroes e permaneceu como uma consequência concreta daquele encontro artístico.
A instalação original era temporária. Expostas à chuva, ao sol e ao vento, as fotografias de papel se desgastaram. Entretanto, as imagens continuaram circulando em exposições, livros, vídeos e registros fotográficos.
O projeto transformou a arquitetura do Morro da Providência em uma galeria a céu aberto, mas sua principal mudança esteve no ponto de vista: em vez de olhar para a favela apenas de fora, a cidade passou a ser observada pelos olhos ampliados das mulheres que viviam nela.
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