Usando apenas retalhos de pano, Alexandre Orion removeu seletivamente a camada preta acumulada no Túnel Max Feffer, revelou crânios nas paredes e criou “Ossário”, intervenção que levou a Prefeitura de São Paulo a lavar primeiro os desenhos e depois todo o túnel.
As paredes do túnel estavam tomadas por uma espessa camada preta. Durante anos, a fumaça liberada pelos escapamentos havia depositado fuligem sobre a superfície originalmente amarela, formando um registro visível da poluição produzida diariamente pelos veículos de São Paulo.
Foi nesse material, geralmente tratado apenas como sujeira, que o artista Alexandre Orion encontrou a matéria-prima para uma de suas intervenções mais conhecidas.
Em 2006, Orion entrou no Túnel Max Feffer, sob a Avenida Cidade Jardim, na capital paulista, e começou a limpar partes específicas das paredes. Com retalhos de pano, retirava a fuligem em movimentos calculados até revelar o desenho de uma caveira.
-
Em 2008, artista francês fotografou mulheres do Morro da Providência e transformou olhos e rostos das próprias moradoras em imagens gigantes espalhadas por cerca de 40 casas, muros e escadarias da favela mais antiga do Rio
-
Criança de 2 anos foge dos pais enquanto eles faziam compras, entra sozinha em ônibus parado para o motorista comprar pão e só é descoberta após começar a chorar durante o trajeto na Turquia
-
Artista começou pintando carroças de catadores pelas ruas de São Paulo, reuniu voluntários, criou movimento nacional, lançou tecnologia para conectar trabalhadores à reciclagem e transformou cinzas de incêndios em mural de 1.000 m²
-
Ao perceber que o filho de 2 anos havia parado de respirar dentro do carro, pai corre até uma base da SP-300 com o menino desacordado nos braços e câmeras registram policiais reanimando a criança enquanto ele se ajoelha
A repetição transformou o túnel em uma espécie de catacumba urbana. O trabalho recebeu o nome de Ossário e usou a própria poluição gerada pelos carros para colocar os motoristas diante daquilo que respiravam todos os dias.
A obra surgiu da sujeira acumulada no Túnel Max Feffer
O Túnel Max Feffer fica em uma área de tráfego intenso da zona oeste paulistana. Conforme os carros atravessavam a passagem, partículas liberadas pela queima de combustível se acumulavam nas paredes.
A superfície amarela tornou-se cinza e, depois, praticamente negra. Segundo relato de Orion publicado pela Folha de S.Paulo, aquela camada espessa chamou sua atenção porque materializava uma poluição que normalmente permanece invisível.
Em vez de aplicar tinta, spray ou qualquer outro pigmento, o artista decidiu retirar a sujeira. Cada imagem surgia pelo contraste entre a parte limpa e a fuligem que permanecia ao redor.
O procedimento ficou conhecido como “grafite reverso”, embora Orion trate o projeto como uma intervenção urbana diretamente vinculada ao espaço, ao trânsito e à poluição.
O desenho não foi simplesmente colocado sobre o túnel. Ele nasceu das condições daquele lugar e só poderia existir porque as paredes estavam cobertas pelos resíduos liberados pelos veículos.
Retalhos de pano fizeram milhares de caveiras aparecerem
Durante 17 madrugadas, Orion trabalhou nas laterais do túnel, enfrentando o ruído constante dos veículos e o ar carregado de poluentes. A intervenção avançou por centenas de metros e resultou em mais de 3.500 crânios desenhados à mão, conforme o registro do projeto.
O artista não acrescentava nenhuma substância à parede. Pressionava e movimentava os retalhos sobre a camada escura, removendo a fuligem somente onde desejava criar olhos, dentes e contornos.
De longe, as formas claras se repetiam como uma multidão de esqueletos. Para quem atravessava o túnel de carro, a sequência produzia a impressão de entrar em uma escavação arqueológica ou em uma enorme catacumba.
A escolha das caveiras não era apenas estética. Elas aproximavam visualmente a poluição da ideia de morte e transformavam os resíduos acumulados nas paredes em um alerta sobre os efeitos do modelo de mobilidade baseado no uso intenso de automóveis.
O resultado confrontava os motoristas com um resíduo produzido pelos próprios veículos. A sujeira retirada para formar os crânios era a mesma que permanecia suspensa no ar e poderia chegar aos pulmões de quem circulava pela cidade.

A polícia abordava o artista, mas limpar não era crime
A presença de uma pessoa trabalhando de madrugada dentro do túnel chamou a atenção dos agentes públicos. Orion foi abordado diversas vezes por policiais e equipes ligadas ao trânsito enquanto realizava a intervenção.
O problema para as autoridades era que ele não estava pintando, quebrando ou acrescentando qualquer material ao patrimônio público. Estava apenas retirando sujeira com pedaços de pano.
Essa característica criou uma situação incomum. Impedir o artista de continuar significaria, na prática, proibi-lo de limpar uma parede pública tomada pela poluição.
A obra ocupava justamente essa brecha. Sua força não estava somente nas caveiras, mas também na dificuldade de enquadrar como vandalismo uma ação que consistia em remover resíduos.
Por isso, a resposta definitiva não poderia ser simplesmente apagar os desenhos com tinta. Para eliminar as caveiras, seria necessário limpar a superfície ao redor delas.
Prefeitura lavou os desenhos e Orion continuou o trabalho
Quando a intervenção ganhou grandes proporções, equipes municipais foram enviadas ao túnel. Em um primeiro momento, a limpeza ficou concentrada na parte ocupada pelas caveiras, enquanto outros trechos continuaram cobertos de fuligem.
A lavagem eliminou os desenhos, mas também tornou mais evidente a contradição apresentada pelo projeto: a sujeira havia permanecido no local por anos e só começou a ser retirada depois que foi convertida em arte.
Orion então passou a trabalhar em outra área ainda escura. Como continuava apenas limpando seletivamente as paredes, novos crânios voltaram a aparecer.
A Prefeitura retornou e, dessa vez, realizou uma lavagem mais ampla no túnel. De acordo com o registro do artista, outros túneis da cidade também foram limpos após a repercussão da intervenção.
O desaparecimento das caveiras não encerrou Ossário. Ao contrário, a limpeza tornou-se parte da própria narrativa da obra. A reação do poder público mostrou que o artista havia conseguido transformar uma camada ignorada de poluição em algo impossível de não perceber.
Fuligem recolhida virou pigmento para novas obras
Os panos utilizados por Orion ficavam carregados com o material retirado das paredes. Em vez de descartá-los, ele passou a levá-los para casa e deixá-los mergulhados em recipientes com água.
Com o repouso, a fuligem se separava do tecido e se acumulava no fundo. Depois da evaporação da água, restava um pó escuro produzido pelos escapamentos dos veículos.
O resíduo foi transformado em pigmento e deu origem a outros trabalhos do artista. Assim, a poluição deixou de ser apenas o cenário de Ossário e passou a integrar fisicamente novas pinturas.
Essa pesquisa foi desenvolvida em trabalhos ligados ao projeto Espólio, no qual Orion utiliza resíduos da queima de combustíveis para discutir a relação entre cidade, consumo, trânsito e degradação ambiental.
A experiência também saiu do túnel e chegou a espaços expositivos. Em 2010, o Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, recebeu uma exposição de Ossário com fotografias e placas preparadas para reproduzir o efeito da intervenção, segundo a Veja São Paulo.
Alexandre Orion transformou São Paulo em ateliê e matéria-prima
Nascido na capital paulista, Alexandre Orion desenvolveu uma trajetória ligada à arte urbana, à fotografia e às relações entre imagens e espaços públicos.
Antes de Ossário, ele já havia criado intervenções que dialogavam com a circulação de pessoas e com a arquitetura da cidade. Em vez de tratar São Paulo apenas como cenário, passou a utilizá-la como ateliê, galeria e fonte de materiais.
No caso do túnel, tudo estava conectado: a fuligem determinava a técnica, os carros produziam a matéria-prima, as caveiras comunicavam o alerta e os próprios motoristas formavam o público.
Não seria possível transportar integralmente a obra para outro lugar sem alterar seu significado. O impacto estava justamente em encontrar os crânios no mesmo espaço em que a poluição era continuamente produzida.
A intervenção permaneceu fisicamente no túnel por pouco tempo. Ainda assim, fotografias, vídeos, exposições e desdobramentos com pigmentos preservaram seu registro e ampliaram seu alcance.
Mais do que ornamentar uma parede, Ossário tornou visível uma consequência da vida urbana que havia se acumulado diante de todos. Ao limpar seletivamente a sujeira, Alexandre Orion mostrou que aquilo que cobria o túnel também fazia parte do ar respirado pela população.
Você acredita que uma obra feita sem tinta, apenas retirando a poluição acumulada, pode provocar uma discussão ambiental mais forte do que uma campanha tradicional?

