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Desde criança, catava papel e latinhas pelas manhãs em Porto Alegre, estudava à tarde e morava em casa de chão batido com telhado que voava com o vento; aos 10 ganhou um livro, frequentou bibliotecas públicas, pagou o próprio cursinho e conquistou uma vaga em Letras na UFRGS

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Escrito por Alisson Ficher Publicado em 11/08/2026 às 22:23
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Trabalho precoce, dificuldades financeiras, bibliotecas públicas e contato constante com a literatura marcaram uma trajetória atravessada por interrupções escolares e emprego. Anos depois, o retorno à sala de aula e a preparação custeada com o próprio salário abriram caminho para uma vaga em universidade federal.

Carlos César Alves Correa passou parte da infância recolhendo papel e latinhas pelas ruas de Porto Alegre para ajudar a família, ao mesmo tempo em que tentava preservar uma rotina de estudos em meio às dificuldades financeiras enfrentadas dentro de casa.

Entre uma responsabilidade e outra, as manhãs eram ocupadas pela coleta de materiais, enquanto as tardes permaneciam reservadas para a escola, numa rotina que terminava em uma pequena residência de chão batido e paredes de madeira onde vivia com familiares.

Anos depois, o contato frequente com livros, as visitas a bibliotecas públicas e um curso preparatório pago com o próprio salário levariam Carlos a conquistar uma vaga no curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a UFRGS.

Infância entre a coleta de materiais e a escola

De acordo com a trajetória registrada pela Veja, Carlos realizava a coleta acompanhado de outras sete crianças da família e cresceu sob os cuidados da mãe e da avó, em uma realidade marcada pela necessidade constante de contribuir para a sobrevivência doméstica.

Dentro da residência simples onde viviam, a precariedade também aparecia na própria estrutura do imóvel, já que, segundo o relato publicado, períodos de vento forte chegavam a desprender o telhado, enquanto uma égua mantida no pátio puxava a carroça usada na coleta.

Mesmo participando da busca por papel e latinhas nas ruas, Carlos continuava frequentando a escola, organizando o dia de forma que o trabalho ocupasse principalmente as manhãs e as aulas permanecessem concentradas durante o período da tarde.

Além do dinheiro obtido com os materiais recolhidos, a família recebia doações de alimentos de pessoas encontradas durante as jornadas pelas ruas, num ambiente em que nenhum parente próximo havia concluído sequer o ensino fundamental, conforme Carlos contou à reportagem.

Livro recebido aos 10 anos mudou sua relação com a leitura

Carlos César Alves Correa transformou trabalho precoce, livros e bibliotecas públicas em caminho até conquistar uma vaga em Letras na UFRGS.
Carlos César Alves Correa transformou trabalho precoce, livros e bibliotecas públicas em caminho até conquistar uma vaga em Letras na UFRGS.

Quando tinha 10 anos, um episódio aparentemente simples acrescentou uma nova dimensão àquela rotina: Carlos recebeu um livro cuja história apresentava um personagem interessado em estudar, embora também estivesse cercado por limitações financeiras semelhantes às enfrentadas por ele naquele período.

A identificação com aquela narrativa despertou o desejo de se tornar professor e fortaleceu uma relação com a leitura que continuaria nos anos seguintes, mesmo sem condições financeiras para comprar regularmente todas as obras pelas quais começava a demonstrar interesse.

Diante dessa limitação, Carlos encontrou nos espaços públicos uma alternativa para continuar lendo e passou a frequentar bibliotecas de Porto Alegre, enquanto os sebos da cidade também entravam em seu percurso como lugares onde podia observar e procurar diferentes obras.

Sem possuir uma coleção particular de livros, ele manteve o contato com a literatura por meio desses ambientes acessíveis, fazendo da leitura uma presença recorrente em uma formação construída paralelamente ao trabalho, à escola e às dificuldades enfrentadas pela família.

Retorno aos estudos depois de abandonar a escola

Apesar dessa aproximação crescente com os livros, a continuidade da educação formal sofreu uma interrupção quando Carlos deixou a escola para procurar um emprego capaz de contribuir de maneira mais direta e regular com as despesas existentes dentro de casa.

Naquele período, os problemas financeiros alcançavam necessidades básicas da família, incluindo dificuldades relacionadas ao pagamento do aluguel e interrupções no fornecimento de água e energia, circunstâncias que tornavam o trabalho uma prioridade imediata diante da possibilidade de continuar estudando.

A mudança começou depois que Carlos conseguiu uma fonte de renda própria e decidiu retomar a formação que havia deixado para trás, reorganizando sua rotina para que o emprego não representasse mais o encerramento definitivo do percurso educacional.

A volta à sala de aula trouxe consigo um objetivo mais amplo: buscar uma vaga no ensino superior, etapa que exigiria não apenas concluir a formação interrompida, mas também encontrar uma maneira de se preparar especificamente para disputar um vestibular.

Cursinho pago com o próprio salário e aprovação na UFRGS

Foi com o dinheiro recebido pelo próprio trabalho que Carlos pagou um curso preparatório para o vestibular, incorporando os estudos à rotina profissional até chegar ao processo seletivo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, uma das principais instituições públicas do estado.

A preparação terminou com a aprovação no curso de Letras da UFRGS, onde Carlos ingressou pelo sistema de cotas, atendendo, segundo a Veja, aos critérios relacionados a raça, renda familiar e formação escolar anterior realizada na rede pública.

A vaga universitária transformou em rotina acadêmica um percurso que havia começado entre a coleta de papel e latinhas, atravessado uma interrupção escolar e ganhado novo impulso quando o trabalho passou a financiar a preparação necessária para disputar o vestibular.

Mesmo depois de entrar na universidade, a necessidade de manter uma atividade profissional continuou fazendo parte de sua vida, o que exigiu novamente a conciliação entre horários de trabalho, deslocamentos e as aulas previstas ao longo do curso de graduação.

Trabalho e faculdade passaram a dividir a mesma rotina

Quando sua história foi registrada pela Veja, Carlos trabalhava em uma empresa de call center, atividade cuja flexibilidade de horários permitia compatibilizar o emprego com as disciplinas oferecidas pela universidade durante diferentes períodos do dia.

Naquele momento, ele já cursava o quarto semestre de Letras e administrava simultaneamente as exigências profissionais e acadêmicas, mantendo dentro da universidade uma relação com a literatura que havia começado muitos anos antes fora de qualquer ambiente universitário.

Entre os autores de sua preferência estava Machado de Assis, enquanto nomes como Mário Quintana e Cecília Meireles também apareciam entre seus interesses, ampliando dentro da graduação um repertório literário construído inicialmente por meio de livros encontrados em espaços públicos.

A escolha pelo curso de Letras mantinha ligação direta com um objetivo surgido ainda na infância, depois daquele primeiro livro recebido aos 10 anos, quando Carlos passou a considerar a possibilidade de trabalhar profissionalmente como professor no futuro.

Projeto profissional manteve os livros no centro da trajetória

O plano profissional era atuar em escolas públicas e estimular entre crianças o interesse pela literatura, aproximando sua futura atividade como professor da experiência pessoal que havia transformado a leitura em um elemento permanente dentro de sua própria formação.

Essa relação entre livros e educação também ultrapassava as disciplinas universitárias, porque Carlos participava de projetos da Rede Marista em Porto Alegre e compartilhava sua trajetória com jovens inseridos em contextos de vulnerabilidade social semelhantes aos encontrados durante sua infância.

Entre as iniciativas das quais participava estava a Rede do Livro, projeto direcionado ao incentivo à circulação e à doação de obras, conectando sua experiência pessoal como leitor a atividades destinadas a ampliar o acesso de outras pessoas à literatura.

Assim, o livro recebido ainda aos 10 anos passou a ocupar outro lugar dentro da trajetória, deixando de representar apenas uma lembrança da infância para também se relacionar com ações de incentivo à leitura desenvolvidas durante sua passagem pela universidade.

Da carroça às salas de aula de uma universidade federal

Ao longo desse percurso, diferentes etapas permaneceram conectadas: o trabalho ainda na infância, a escola frequentada paralelamente à coleta, a descoberta dos livros, as bibliotecas públicas, a interrupção dos estudos, o emprego, o retorno às aulas e a preparação para o vestibular.

Quando finalmente passou a frequentar as salas de aula da UFRGS, Carlos carregava uma formação construída longe das condições normalmente associadas à preparação universitária, já que parte importante de suas leituras havia ocorrido em bibliotecas e outros espaços disponíveis ao público.

O dinheiro utilizado posteriormente no curso preparatório, por sua vez, veio do salário conquistado após sua entrada no mercado de trabalho, permitindo que uma atividade inicialmente necessária para ajudar financeiramente a família também passasse a financiar o retorno ao projeto educacional.

A casa de chão batido, a carroça utilizada na coleta e as manhãs dedicadas aos materiais recolhidos pelas ruas passaram a integrar a mesma trajetória que, anos mais tarde, levaria Carlos às aulas de literatura dentro de uma universidade federal.

No centro desse percurso permaneceu o hábito iniciado a partir de um livro recebido na infância e preservado por meio das bibliotecas públicas, espaços aos quais ele recorria quando comprar as obras que desejava ler ainda estava fora de suas possibilidades financeiras.

Quantas outras trajetórias semelhantes podem estar começando em diferentes cidades brasileiras quando uma criança encontra acesso a um livro, uma biblioteca pública ou outro espaço de leitura capaz de permanecer disponível mesmo diante de condições financeiras profundamente limitadas?

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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