Descubra as sandálias de 2.400 anos encontradas em minas na Península Ibérica. Entenda como essa tecnologia de esparto sobreviveu até o domínio romano.
Arqueólogos descobriram, no sítio arqueológico Nuevo Filón Norte 1, na Península Ibérica, sandálias de fibra vegetal datadas de 2.400 anos, revelando como mineiros da Idade do Ferro adaptaram tecnologias locais de esparto para garantir segurança e aderência em ambientes de trabalho hostis, mantendo uma tradição produtiva que sobreviveu até mesmo à ocupação romana.
Uma linhagem histórica de mais de quatro séculos
A investigação, que contou com técnicas avançadas como a microtomografia computadorizada de raios-X e microscopia eletrônica de varredura, permitiu o mapeamento temporal dos achados.
Ao inspecionar os objetos sem causar danos, a equipe científica conseguiu concluir que a tecnologia sobreviveu por séculos, atravessando diferentes fases históricas:
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- Século 4 a.C. ao século 2 a.C.: Exemplares localizados nas camadas mais profundas das escavações.
- Virada do século 2 para o 1 a.C.: Período de transição evidenciado pelas peças encontradas.
- Ano 1 d.C.: Datação de pares que comprovam a continuidade do uso mesmo sob domínio romano.
Em um estudo recente publicado na revista Pyrenae, pesquisadores desvendaram detalhes preciosos sobre a rotina de trabalho na Península Ibérica.
O foco da análise recaiu sobre sandálias de grama esparto (Stipa tenacissima), encontradas no sítio arqueológico Nuevo Filón Norte 1.
A preservação desses itens orgânicos, algo considerado incomum na arqueologia, só foi possível porque as peças ficaram enterradas sob uma densa camada de cinzas descartadas de forjas antigas.
Esse “acidente” histórico permitiu que especialistas compreendessem melhor a vida dos trabalhadores em um dos centros mineradores mais significativos da antiguidade.

Por que a tecnologia das sandálias era tão eficiente?
Diferente da estrutura dos calçados introduzidos pelos romanos, a tecnologia baseada no esparto provou ser extremamente funcional para o ambiente hostil das minas.
A confecção, feita através de um processo semelhante ao de treliça, priorizava a praticidade e o baixo custo.
Segundo os arqueólogos, a sobreposição das fibras garantia aos trabalhadores uma aderência superior ao caminhar sobre terrenos rochosos e instáveis.
Portanto, esses itens, que possivelmente são os mesmos citados em documentos latinos como solea spartae, não eram meros acessórios, mas equipamentos essenciais de segurança e desempenho para a extração mineral.
A economia por trás do uso das sandálias
O aspecto utilitário dessas sandálias fica claro ao observar os sinais de desgaste extremo e constantes remendos.
Os arqueólogos apontam que, devido à natureza simplória dos materiais, o descarte do calçado só ocorria quando o conserto se tornava impossível.
Isso indica uma dinâmica de trabalho focada na eficiência: os mineiros utilizavam itens duráveis o suficiente para o esforço diário, mas descartáveis o bastante para serem substituídos sem grandes custos.
Essa realidade revela que o cotidiano nas minas era regido por uma lógica de produção em massa, onde o calçado era uma ferramenta de trabalho, e não um item de prestígio pessoal.
Além do calçado: O impacto ambiental na cultura ibérica
A descoberta das sandálias vai além do simples item de vestuário e ilustra a profunda integração entre o homem e a natureza na Península Ibérica.
O uso do esparto para criar cordados, cestos e calçados demonstra como as populações antigas transformavam recursos locais em soluções tecnológicas robustas.
Enquanto isso, o fato de tal tradição ter perdurado mesmo frente aos modelos de calçados trazidos pelo Império Romano atesta a alta qualidade do produto local.
Assim, as cinzas que na época eram apenas sujeira das forjas, hoje oferecem aos pesquisadores um panorama inestimável sobre a engenhosidade de um povo que, por séculos, moldou a economia mineradora europeia com simples fibras de grama.
Fonte: Aventuras na História
