Trajetória marcada por acolhimento institucional, estudo em espaços improvisados e acesso a um programa gratuito levou um homem de 40 anos a disputar novas oportunidades educacionais, alcançar posições de destaque em processos seletivos e transformar a rotina dentro de um abrigo em preparação constante para continuar os estudos.
Depois de enfrentar a situação de rua e passar por unidades de acolhimento em Salvador, Tiago Juvenal dos Santos, de 40 anos, transformou o convite para participar de um pré-vestibular gratuito em duas oportunidades concretas de formação dentro da rede pública de ensino.
No abrigo Adra II, localizado no bairro do Barbalho, ele foi o único morador que demonstrou interesse pela preparação oferecida pelo programa Universidade para Todos e, após manter uma rotina de estudos também fora das aulas, conquistou resultados em duas seleções educacionais.
A principal aprovação veio no curso de Teatro da Universidade do Estado da Bahia, onde Tiago alcançou a segunda colocação, enquanto outra oportunidade surgiu no curso técnico de Práticas Jurídicas oferecido pela rede estadual de ensino da Bahia.
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Registrada pela Secretaria da Educação do Estado da Bahia, a trajetória começou ainda durante o período de acolhimento e avançou por uma rotina que combinava aulas, materiais do programa, apoio de profissionais e estudos realizados nos espaços disponíveis dentro da unidade.
Convite recebido no abrigo levou Tiago ao pré-vestibular
Foi por intermédio de Daciane Andrade, coordenadora da unidade de acolhimento Adra II, que Tiago conheceu a possibilidade de frequentar um pré-vestibular no Centro Estadual de Educação Profissional em Gestão Severino Vieira, destinado a candidatos interessados em ingressar na universidade.
Apresentada dentro do próprio abrigo, a oportunidade despertou imediatamente o interesse do então acolhido, que decidiu participar da preparação e passou a integrar uma iniciativa criada para aproximar pessoas em situação de rua das condições necessárias para disputar vagas no ensino superior.
Segundo o relato de Tiago registrado pela Secretaria da Educação, ele foi o único morador do albergue que demonstrou interesse pela proposta naquele momento, circunstância que o colocou entre os integrantes da primeira turma formada pelo chamado UPT Pop Rua.
Voltada especificamente para esse público, a ação integra o programa Universidade para Todos e busca oferecer preparação acadêmica a pessoas que, por causa das condições de moradia e vulnerabilidade, normalmente encontram dificuldades adicionais para manter uma rotina regular de estudos.
Lavanderia, refeitório e cama entraram na rotina de estudos
Embora as aulas garantissem uma preparação organizada, Tiago decidiu ampliar o tempo dedicado aos conteúdos e continuava revisando o material depois de retornar ao abrigo, utilizando os recursos distribuídos pelo programa sempre que encontrava um espaço disponível para estudar.

Sem contar com uma mesa particular ou um ambiente convencional reservado à preparação acadêmica, ele passou a estudar perto da lavanderia, no refeitório e até sobre a própria cama, adaptando a rotina às condições existentes na unidade de acolhimento.
Em algumas ocasiões, o período de leitura avançava até o cansaço interromper os estudos, e Tiago relatou ter adormecido enquanto revisava o conteúdo, acordando sobre os livros que utilizava para acompanhar as disciplinas trabalhadas durante as aulas do pré-vestibular.
Mais do que repetir exercícios em sala, essa dinâmica permitia que o estudante retomasse conteúdos ao longo da semana, aproveitando momentos fora do curso para manter contato frequente com as matérias exigidas nos processos seletivos que pretendia disputar.
Apoio de profissionais ajudou a manter a preparação
Ao longo desse percurso, o suporte oferecido a Tiago não ficou restrito às aulas do pré-vestibular, pois profissionais da unidade de acolhimento também participaram da rotina, ajudando na realização de pesquisas pela internet e no acesso a recursos complementares de estudo.
No primeiro dia de atividades, a assistente social Amanda Alves Rocha acompanhou o estudante até o local das aulas, enquanto a equipe do abrigo continuou auxiliando em tarefas que permitiam aprofundar assuntos trabalhados pelos monitores durante os encontros presenciais.
Organizada em três dias da semana, a rotina do UPT Pop Rua incluía, além da preparação acadêmica, material didático, fardamento e refeições para os participantes, reunindo recursos considerados importantes para a permanência dos estudantes durante o período de preparação.
Segundo informações divulgadas pelo Governo da Bahia, a primeira turma foi formada por 20 pessoas em situação de rua em Salvador, a partir de uma demanda apresentada pelo Movimento População de Rua e pela Defensoria Pública do Estado.
Resultado colocou Tiago em segundo lugar na UNEB
À medida que as aulas avançavam, Tiago passou a combinar o conteúdo apresentado pelos monitores com as horas adicionais de estudo realizadas no abrigo, mantendo a preparação mesmo quando o espaço disponível era o refeitório, a lavanderia ou a própria cama.
Essa rotina acompanhou o estudante até o processo seletivo da Universidade do Estado da Bahia e terminou com a segunda colocação entre os aprovados para o curso de Teatro da UNEB, resultado alcançado aos 40 anos.
A vaga representou o ingresso em uma universidade pública depois de um período marcado pela situação de rua, pelo acolhimento institucional e por uma preparação acadêmica realizada em condições muito diferentes das encontradas em ambientes tradicionais de estudo.
Além da aprovação no ensino superior, Tiago também foi contemplado com uma vaga no Curso Técnico Subsequente ao Ensino Médio de Práticas Jurídicas, conhecido como Prosub e oferecido pela própria rede estadual de ensino da Bahia.
Duas oportunidades surgiram no mesmo período
Em vez de resultar em apenas uma possibilidade de formação, o período de preparação abriu dois caminhos educacionais distintos para Tiago, que passou a reunir uma vaga universitária e outra oportunidade em um curso técnico depois de enfrentar condições severas de vulnerabilidade.
De um lado, a segunda colocação em Teatro na Universidade do Estado da Bahia permitiu o acesso ao ensino superior público; de outro, a vaga em Práticas Jurídicas acrescentou uma alternativa de formação profissional dentro da estrutura estadual.
O caminho até essas aprovações começou com uma conversa simples dentro do Adra II, quando Daciane apresentou ao morador a possibilidade de participar do Universidade para Todos e perguntou se ele tinha interesse em se preparar para disputar uma vaga acadêmica.
Depois da resposta positiva, a rotina passou a envolver deslocamentos para as aulas, uso frequente dos materiais distribuídos pelo programa e estudo complementar dentro do próprio abrigo, onde profissionais também facilitavam o acesso a pesquisas e outros conteúdos disponíveis pela internet.
Programa aproximou população em situação de rua da universidade
A experiência de Tiago passou a integrar os resultados divulgados pela Secretaria da Educação sobre o UPT Pop Rua, iniciativa estruturada para aproximar pessoas em situação de rua de uma preparação que exige frequência, acesso a materiais e acompanhamento regular.
Coordenadora do programa Universidade para Todos, Patrícia Machado relacionou a aprovação à ampliação das políticas de acesso ao ensino superior, enquanto Daciane Andrade destacou a satisfação da equipe que acompanhou o estudante durante sua passagem pelo serviço de acolhimento.
Ao receber as aprovações, Tiago também passou a projetar os próximos passos da formação e manifestou o objetivo de usar a própria experiência como referência para outras pessoas em situação de rua que desejem retomar os estudos e buscar oportunidades educacionais.
Antes que os resultados fossem conhecidos, porém, essa trajetória havia sido construída sobretudo pela utilização dos recursos disponíveis, já que lavanderia, refeitório e cama acabaram incorporados à preparação quando não havia um espaço particular destinado às horas adicionais de estudo.
Entre o convite recebido no abrigo e a divulgação das aprovações, o percurso reuniu aulas regulares, acompanhamento profissional, materiais fornecidos pelo programa e uma rotina individual mantida em diferentes espaços da unidade onde Tiago estava acolhido.
Para um homem que havia enfrentado a situação de rua, aquela oportunidade apresentada ainda no abrigo terminou em duas vagas educacionais e uma nova possibilidade de continuidade dos estudos, depois de uma preparação construída entre aulas formais e espaços improvisados.
Se uma oportunidade apresentada dentro de um abrigo conseguiu abrir dois caminhos de formação, quantas outras trajetórias poderiam ser transformadas quando o acesso ao estudo alcança pessoas que permanecem fora dos espaços tradicionais de ensino?
