Trajetória marcada por vulnerabilidade, assistência social e preparação gratuita mostra como o acesso a uma seleção pública abriu uma nova etapa profissional e pessoal para um participante atendido pela rede municipal, depois de anos enfrentando dificuldades e buscando condições para reorganizar a própria rotina.
Ranulfo Costa vivia em situação de rua em Taubaté, no interior de São Paulo, quando uma iniciativa ligada ao atendimento social do município abriu o caminho que acabaria levando sua trajetória da vulnerabilidade cotidiana para uma vaga efetiva no serviço público municipal.
Aos 60 anos, ele participou de aulas de reforço voltadas a um concurso da prefeitura, conseguiu isenção da taxa de inscrição, realizou a prova, alcançou a 10ª colocação e, posteriormente, assumiu o cargo de pintor para atuar em prédios públicos da cidade.
A preparação ocorreu por meio do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua, conhecido como Centro Pop, onde Ranulfo já era atendido e passou a integrar uma iniciativa direcionada a pessoas interessadas em disputar vagas oferecidas pela administração municipal.
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Segundo reportagem do UOL, o grupo reunia 35 pessoas em situação de rua, que receberam aulas de reforço depois que a abertura do concurso passou a ser divulgada entre os atendidos pelo serviço, criando uma ponte entre assistência social, preparação e oportunidade profissional.
Centro Pop ofereceu preparação para concurso em Taubaté
Em vez de apenas informar que havia vagas disponíveis, uma orientadora social incentivou os participantes a fazer a inscrição e organizou encontros com foco nas disciplinas exigidas pelo edital, ajustando o acompanhamento de acordo com as dificuldades apresentadas por cada candidato durante a preparação.
Durante os estudos, os conteúdos mais difíceis recebiam atenção específica, conforme relatado ao UOL por uma representante da área de proteção social do município, enquanto o grupo avançava na preparação para uma seleção que exigia conhecimento formal e organização para cumprir todas as etapas.
Além da necessidade de estudar, Ranulfo enfrentava uma barreira financeira para entrar efetivamente no processo seletivo, porque o pagamento da inscrição representava um custo relevante dentro de uma rotina marcada pela falta de moradia fixa e pela dependência da rede pública de atendimento.
Por isso, a isenção da taxa de inscrição teve papel decisivo em sua participação, permitindo que ele realizasse a prova sem o pagamento normalmente exigido dos concorrentes e transformasse a preparação recebida no Centro Pop em uma possibilidade concreta de disputar a vaga.

Ranulfo Costa ficou em 10º lugar no concurso público
Quando o resultado foi divulgado, Ranulfo apareceu entre os aprovados e terminou o concurso na 10ª colocação para o cargo de pintor, segundo o UOL, que reproduziu informações da Prefeitura de Taubaté sobre a classificação e o andamento da seleção municipal.
A posição conquistada não ficou restrita à lista de aprovados, porque a classificação posteriormente se transformou em convocação e trabalho efetivo para a administração municipal, colocando Ranulfo em uma rotina profissional estável depois de anos marcados por condições pessoais e sociais bastante diferentes.
Antes dessa mudança, sua trajetória havia passado por um período prolongado de instabilidade, já que Ranulfo estava em situação de rua desde 2017 e relatou que problemas relacionados ao alcoolismo e à depressão estiveram entre os fatores que contribuíram para aquela condição.
Ao longo do atendimento, ele recebeu tratamento, avançou no processo de reabilitação e começou a participar das atividades oferecidas pela rede social do município, até que a possibilidade de prestar concurso surgiu como uma alternativa concreta dentro desse acompanhamento contínuo.
Trabalho como pintor mudou a rotina em Taubaté
Depois da convocação, a rotina passou a incluir o trabalho como pintor em prédios públicos de Taubaté, e Ranulfo chegou a posar para fotografias ao lado das profissionais que acompanharam sua preparação, vinculadas ao Centro Pop e à Secretaria de Desenvolvimento e Inclusão Social.
O resultado também não ficou restrito a um único participante, porque, entre as 35 pessoas que receberam preparação, outros dois homens em situação de rua foram aprovados no mesmo concurso, um para o cargo de gari e outro para uma vaga de cuidador.
Na época em que a história de Ranulfo foi divulgada, esses dois candidatos ainda aguardavam convocação, enquanto ele já havia iniciado suas atividades e transformado uma oportunidade apresentada dentro do serviço de assistência em uma ocupação formal vinculada diretamente à prefeitura.
O contexto municipal ajuda a dimensionar a iniciativa, pois a reportagem do UOL registrou que Taubaté tinha aproximadamente 450 pessoas em situação de rua naquele período, número que tornava o atendimento especializado parte relevante da política local voltada a diferentes formas de vulnerabilidade social.
Apoio social aproximou candidatos das vagas públicas
Dentro desse cenário, a preparação para o concurso foi incorporada ao trabalho do Centro Pop, serviço frequentado por pessoas sem moradia fixa, e passou a funcionar como um caminho adicional para quem desejava disputar vagas públicas e reunir condições para reorganizar a própria vida.
A orientação social fez a ligação entre o edital e candidatos que poderiam não participar da seleção sem apoio para inscrição e preparação, enquanto Ranulfo aceitou a proposta, compareceu aos encontros, estudou as matérias exigidas e seguiu até a realização da prova.
Depois que a classificação foi confirmada, o resultado ganhou peso porque o candidato que vivia nas ruas não apenas participou do processo seletivo, mas alcançou pontuação suficiente para ocupar a 10ª posição e ser chamado posteriormente pela administração municipal para assumir a função.
Já no novo trabalho, Ranulfo passou a mencionar objetivos pessoais diretamente ligados à mudança de rotina, entre eles conseguir uma casa para deixar definitivamente a situação de rua, retomar a proximidade com os filhos adultos e ajudá-los dentro das possibilidades abertas pelo emprego.
Aprovação abriu espaço para novos planos pessoais
Ao recordar a convocação, ele contou ter recebido a notícia por intermédio de uma assistente social e descreveu aquele momento como uma grande alegria, enquanto a nova ocupação começava a ser associada também à possibilidade de recuperar moradia e reconstruir vínculos familiares.
Diferentemente da preparação oferecida por cursos tradicionais para concursos, as aulas frequentadas por Ranulfo aconteciam dentro de uma estrutura voltada à população em situação de rua e revisavam exatamente as matérias previstas no edital municipal, aproximando assistência social e qualificação para a seleção.
Esse formato permitiu que os participantes recebessem orientação específica, mantivessem uma rotina de estudos antes da prova e tivessem apoio para cumprir etapas práticas, enquanto, no caso de Ranulfo, a combinação entre preparação e isenção terminou em classificação suficiente para a convocação.
Ao assumir o cargo de pintor, a relação de Ranulfo com a cidade também mudou de forma concreta, porque, depois de anos recorrendo à rede pública de atendimento, ele passou a integrar o quadro responsável pela conservação de estruturas mantidas pela própria administração municipal.
De atendido pela rede pública a servidor municipal
O Centro Pop esteve presente em diferentes etapas dessa trajetória, desde a assistência recebida durante o período de vulnerabilidade até a preparação para o concurso e o acompanhamento posterior, quando profissionais envolvidos no processo permaneceram próximos durante o início da nova rotina profissional.
Embora a seleção tenha ocorrido em um momento específico, os elementos centrais da história permanecem ligados à sequência vivida por Ranulfo: informação sobre a vaga, apoio para estudar, isenção da inscrição, realização da prova, classificação entre os aprovados e convocação para o serviço público.
Quando começou a trabalhar como pintor da Prefeitura de Taubaté, Ranulfo tinha 60 anos e passou a incluir entre seus planos uma casa, a reaproximação com os filhos e uma rotina profissional estabelecida pelo cargo conquistado depois da preparação recebida no atendimento social.
Quantas pessoas em situação semelhante poderiam disputar uma oportunidade de emprego se também encontrassem acesso à informação, preparação adequada e condições concretas para participar de uma seleção pública capaz de abrir novas possibilidades profissionais e pessoais?
