Pesquisa publicada em 2024 reavalia a teoria da fertilização por ferro no Oceano Antártico e analisa o impacto real do degelo no carbono atmosférico
O avanço das alterações climáticas acelera o degelo das geleiras da Antártida e, ao mesmo tempo, levanta hipóteses sobre possíveis efeitos indiretos no clima global. Durante anos, parte da comunidade científica sustentou que a libertação de ferro no Oceano Antártico poderia estimular algas microscópicas capazes de remover dióxido de carbono da atmosfera.
No entanto, um estudo científico publicado em 2024 revisou essa expectativa. À medida que as emissões de gases com efeito de estufa aquecem o planeta, os glaciares antárticos perdem massa em ritmo acelerado e, embora estejam isolados, influenciam diretamente a subida do nível do mar.
O Thwaites Glacier, conhecido como Doomsday Glacier, responde por cerca de 4% da elevação anual do nível médio do mar. Caso colapse totalmente, o nível pode subir aproximadamente 65 centímetros e, conforme estimativas científicas amplamente citadas, cada centímetro adicional expõe cerca de seis milhões de pessoas a inundações costeiras.
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Teoria da fertilização por ferro ganha atenção científica
Diante desse cenário, a comunidade científica passou a analisar a fertilização por ferro como possível mecanismo natural de compensação climática. Com o aumento das temperaturas, o ferro retido no gelo chega ao oceano e, assim, muitos pesquisadores acreditaram que esse ferro estimularia grandes proliferações de algas microscópicas.
Essas algas capturam carbono por meio da fotossíntese e, posteriormente, ao morrerem, afundam-se, o que pode aprisionar carbono no fundo do mar. Alguns investigadores defenderam a adição artificial de ferro como estratégia de geoengenharia, enquanto outros alertaram para o risco de formação de zonas mortas com baixos níveis de oxigénio.
No Mar Báltico, por exemplo, a poluição por nutrientes já provocou fenómenos semelhantes, o que reforça as preocupações ambientais relacionadas a intervenções desse tipo.
Investigação no mar de Amundsen traz novos dados
Em 2022, uma equipe da Rutgers University-New Brunswick, nos Estados Unidos, realizou medições na plataforma de gelo Dotson, localizada no Mar de Amundsen, na Antártida Ocidental. Essa região concentra grande parte da subida do nível do mar associada ao degelo antártico.
Rob Sherrell, professor do Departamento de Ciências Marinhas e Costeiras, liderou a investigação em colaboração com universidades dos Estados Unidos e do Reino Unido. Durante a expedição, a equipa recolheu amostras de água na entrada e na saída das cavidades sob a plataforma de gelo e, em seguida, Venkatesh Chinni analisou o teor de ferro dissolvido e particulado.
Resultados surpreendem sobre a origem do ferro
A análise mostrou que apenas cerca de 10% do ferro dissolvido presente no escoamento vinha diretamente da água de degelo. Em contrapartida, aproximadamente 62% provinha da água profunda que entra na cavidade sob o gelo, enquanto cerca de 28% tinha origem nos sedimentos da plataforma continental.
Segundo Chinni, cerca de 90% do ferro dissolvido que sai da cavidade não se origina diretamente na água de degelo. O estudo, publicado em 2024 na revista científica Communications Earth and Environment, reforça que o gelo responsável pela subida do nível do mar não constitui a principal fonte desse ferro.
Além disso, os investigadores identificaram uma camada líquida subglacial sem oxigénio dissolvido, que pode representar uma fonte de ferro mais relevante do que o degelo superficial.
Reavaliação científica e próximos passos
Sherrell explicou que a maior parte do ferro resulta da trituração e dissolução da rocha de base sob o gelo. Dessa forma, os dados indicam que o degelo, por si só, não atua como mecanismo relevante de captura de carbono.
Agora, os cientistas defendem novas investigações para compreender as fontes de ferro na Antártida em um mundo em aquecimento. Diante dessas evidências, a hipótese de um “lado positivo” climático associado ao degelo perde força técnica e amplia o debate sobre o real papel do degelo na mitigação das alterações climáticas.
Diante desse cenário científico cada vez mais detalhado, será que o degelo dos glaciares ainda pode ser visto como um aliado inesperado no combate às alterações climáticas, ou a ciência já aponta para uma realidade muito menos otimista?

This story is a bit outdated. Antarctica has added record gigatons of ice since the end of 2024