Com drones de três modelos, Betour levou turistas a terraços como Porta do Céu e Mirante Rocinha, vendendo vídeos de 30 a 40 segundos por R$ 150 a R$ 200 e puxando até 40% mais receita, no Rio, do fim de 2025 ao início de 2026 com filas de espera.
O que começou como uma vontade antiga de trabalhar com drones virou um motor real de demanda turística dentro da Rocinha, no Rio de Janeiro: Carlos Alberto Soares da Silva, 37 anos, o Betour, passou a registrar turistas em lajes com vídeos panorâmicos que viralizaram e mudaram o ritmo do próprio negócio.
De acordo com a revista globo, entre o fim de 2025 e o início de 2026, o salto de até 40% no faturamento veio junto com um novo tipo de “agenda lotada”: filas de espera que chegam a duas horas, visitantes de várias nacionalidades, gente pagando até R$ 200 pelo registro e um formato de vídeo tão copiável que passou a ser imitado fora do Brasil.
Da porta do hotel ao terraço: quem é o Betour e por que a Rocinha entrou nessa rota

A história não nasce no viral, e sim no trabalho diário. Carlos Alberto começou no turismo em 25 de setembro de 2011, quando atuava como motorista de agência.
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Depois veio a oportunidade de trabalhar por conta própria, oferecendo passeios na porta de hotéis, construindo clientela no “corpo a corpo” e entendendo como o tempo do turista é valioso quando cada parada compete com outra.
Anos depois, a virada para o audiovisual encontrou um cenário perfeito: a Rocinha já era um território conhecido por mirantes, circulação intensa e curiosidade turística, mas faltava um gatilho de escala.
Quando os drones entraram na rotina, a laje deixou de ser apenas ponto de vista e virou palco, com o turista no centro da cena e a comunidade como paisagem viva, registrada de um jeito que a câmera do celular nem sempre consegue reproduzir.
O formato que “puxa para trás” e vira febre: como um vídeo simples muda a fila
O modelo que explodiu de engajamento não foi apresentado como “estratégia” desde o início. Ele surgiu em 2023, numa situação prática, durante um passeio com duas fotógrafas de Recife, na laje Porta do Céu. A orientação era direta: abrir uma porta, entrar, e o drone recuar enquanto enquadra a chegada.
Esse movimento criou uma narrativa em segundos começo, passagem e revelação do cenário e isso ajudou a explicar por que tanta gente quer repetir.
A estética também se apoia no espaço. Há lajes em que cadeiras são posicionadas perto da borda, e o vídeo valoriza o contraste entre o primeiro plano (o turista) e o plano aberto (a cidade e a comunidade ao redor).
O resultado é um registro curto, de 30 a 40 segundos, mas com “cara” de experiência completa. E experiência, quando vira referência social, vira fila: duas horas de espera por um vídeo de menos de um minuto não é apenas sobre imagem, é sobre status, memória e vontade de participar de algo que “todo mundo está fazendo”.
Equipamentos, custos e bastidores: o que sustenta a operação de drones na prática
Para manter a qualidade e a constância, Betour investiu pesado em tecnologia. O acervo da agência inclui três drones DJI Avata 2, DJI Air 3S e DJI Mavic 4 Pro além de câmeras fotográficas e uma Insta360. No preço praticado no Brasil, ele descreve que o investimento passa de R$ 100 mil, e isso ajuda a entender por que manutenção, reposição e cuidado operacional entram no cálculo do serviço.
O preço cobrado hoje pela captação do vídeo na laje está fixado em R$ 150 por pessoa, e há casos em que visitantes chegam a pagar até R$ 200 pelo registro.
Esse valor não é “limpo” para quem opera: existe comissionamento do dono da laje (um exemplo citado é algo como 10%), taxa de aplicativo e outras divisões internas.
Na conta do próprio guia, sobram em torno de 50% a 60% depois das parcelas, o que revela um ponto central do modelo: não é só “voar o drone”, é sustentar uma cadeia de trabalho e plataforma.
A engrenagem por trás do viral: equipe, aplicativo e padronização do fluxo
Viralização costuma parecer espontânea, mas aqui existe organização. O aumento de 30% a 40% na receita exigiu divisão de tarefas: enquanto Betour opera os drones, guia grupos e edita os vídeos, a esposa assume faturamento e atendimento; o irmão também integra a equipe.
No total, há cinco pessoas fixas e apoio de freelancers um desenho de operação pensado para não travar quando a procura dispara.
Outro eixo é o aplicativo Na Favela Turismo, que padroniza a operação local. A plataforma exige cadastro dos guias e monitora quantidade de turistas, horários e rotas.
Além do controle, aparece um componente de formação: houve melhoria do sistema, resgate de pessoas desempregadas para atuar como monitores, cursos de guia e de idiomas financiados.
O próprio Betour, esse pacote de organização ajudou a “hypada” e o boom: quando o fluxo é monitorado e a experiência fica previsível, mais gente se sente confortável em entrar na rota.
Do engajamento ao mundo real: seguidores, sazonalidade menor e o desafio do tempo do turista
O perfil da Betour chegou a 188 mil seguidores, e a estratégia de crescimento também mostra pragmatismo: tráfego pago só até 6 mil, depois foco na edição e no formato que performa.
A partir daí, o conteúdo atravessou fronteiras, com clientes relatando imitações do modelo em outros lugares um sinal de que o “viral” aqui não é só audiência, é replicação do roteiro de imagem.
O impacto aparece no calendário. Meses tradicionalmente mais fracos, como março, passaram a registrar volume semelhante ao de janeiro e fevereiro, reduzindo a sazonalidade típica do turismo.
Só que o aumento de demanda cobra um preço operacional: o guia relata rotinas que começam cedo (como sair de casa às 3h30), atendimentos em pontos diferentes no mesmo dia (Cristo Redentor e Rocinha) e variações de grupo que podem ir de 10 a 50 pessoas.
Nesse cenário, a transparência vira ferramenta: se a fila na Porta do Céu bate duas horas, o cronograma do visitante pode desandar, e alinhar expectativa evita frustração.
Quando a cidade “contrata” o viral: Carnaval 2026 e a credibilidade do material de drones
A qualidade do trabalho com drones abriu portas além do passeio. Durante o Carnaval 2026, Betour foi contratado para a cobertura oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro e relata que a maior parte das imagens de drone publicadas em canais como Instagram e TikTok da prefeitura vinha dele.
Esse tipo de contratação muda o status do serviço, porque conecta o conteúdo a uma demanda institucional, com necessidade de entrega, padrão e volume.
Ao mesmo tempo, a operação continua ancorada no território: a laje Porta do Céu, principal ponto de gravação, pertence à família de Betour e é administrada por uma prima após o falecimento de um tio no ano anterior.
Além dela, entram outros terraços usados no circuito, como Portal Jonas Brasil, Vista Show e Bela Vista.
O conjunto forma um pequeno ecossistema: espaço, guia, plataforma, equipe, turista e os drones costuram tudo com um produto final que cabe em poucos segundos, mas carrega a sensação de “eu estive aqui”.
O que vem em 2026: expansão, projeto em sigilo e a ideia de formar novos pilotos
Para 2026, Betour fala em aumentar o quadro de funcionários fixos e manter um novo projeto em sigilo para a Rocinha.
Paralelo a isso, aparece um papel de referência dentro da comunidade: ele atua como mentor informal e demonstra intenção de expandir ensino, puxando jovens para entenderem a profissão ligada aos drones.
Esse ponto fecha um ciclo interessante: o viral começa como vídeo, vira fila, vira renda, vira equipe, vira método e pode virar formação.
Quando uma tendência deixa de ser só “moda” e passa a gerar caminho profissional, ela muda a conversa sobre o que é turismo local: não apenas consumo de paisagem, mas produção de trabalho, técnica e oportunidade.
A história dos drones nas lajes da Rocinha mostra como um formato curto pode reorganizar um negócio inteiro: aumenta faturamento, muda perfil de público, cria espera, exige sistema e coloca o território no radar de um jeito que mistura curiosidade, logística e imagem.
No fim, o drone é só a ferramenta; o que sustenta é a experiência bem operada e repetível.
Se você fosse turista, encararia duas horas de fila por um vídeo de 30 a 40 segundos para levar “a cena perfeita” pra casa?
E, olhando para o lado de quem mora e trabalha ali, o que você acha mais justo: limitar a demanda para reduzir impacto ou aproveitar o boom para abrir mais vagas e formar gente nova na profissão dos drones?

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