Em entrevista ao O Globo, o ex-chefe do FMI Kenneth Rogoff alerta que a combinação de dívida dos EUA, juros altos e um eventual endurecimento de políticas sob Trump pode desencadear volatilidade mundial, afetar emergentes e pôr à prova bancos centrais
O ex-chefe do FMI Kenneth Rogoff, professor de Harvard, projeta uma crise fiscal nos Estados Unidos em quatro a cinco anos — um choque alimentado por endividamento elevado, taxas de juros mais altas e gastos crescentes. Em conversa com o O Globo, ele ressalta que o risco não é uma repetição de 2008, mas uma turbulência fiscal capaz de irradiar câmbio e juros mais voláteis para toda a economia mundial.
Segundo o O Globo, Rogoff detalha o cenário em seu livro Our dollar, your problem e afirma que mesmo com democratas o quadro não mudaria substancialmente, mas tarifas e um estilo mais imprevisível sob Trump poderiam agravar as pressões. “O problema virá; talvez em 2027 ou 2028”, resume.
Quem fala, o que disse e por que isso importa agora
Rogoff foi economista-chefe do FMI e é referência em ciclos de dívida soberana.
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Ao O Globo, ele enfatiza que a inquietação atual não é financeira clássica, e sim fiscal: déficits persistentes com juros de curto prazo mais altos que os de longo, dívida maior e apetite político por gasto.
“Nunca alertei dessa forma sobre o déficit fiscal”, afirma.
Para o leitor, o recado é direto: quando o país que emite a principal moeda de reserva do mundo flerta com dominância fiscal, os efeitos transbordam.
Mercados emergentes sentem primeiro via dólar forte/volátil, canais de comércio e aperto de financiamento — uma leitura que o O Globo destaca ao relacionar o alerta à realidade brasileira.
O gatilho da crise fiscal segundo o ex-chefe do FMI
Rogoff aponta uma tríade: dívida pública maior, juros estruturalmente mais altos e pressões de gasto (de defesa a agendas populistas).
Quando o serviço da dívida sobe, o orçamento perde espaço, e juros deixam de domar a inflação — a situação conhecida como dominância fiscal.
Ele também chama atenção para volatilidade crescente em câmbio, juros e crescimento, mesmo partindo de um momento aparentemente estável.
“Vejo um mundo com mais volatilidade”, disse ao O Globo, reforçando que oscilações podem ser o canal de contágio mais rápido.
Trump, tarifas e o risco de interferência no Fed
Na entrevista ao O Globo, Rogoff vê tarifas como um dos fatores de um quadro geopolítico instável, com potência para minar produtividade e o papel do dólar no longo prazo.
Mais sensível, porém, seria qualquer tentativa de captura do Federal Reserve para forçar juros baixos de olho no ciclo político.
Ele lembra propostas como a “One Big Beautiful Bill” e hipóteses de tributação de juros de estrangeiros — formas de calote parcial, na avaliação de Rogoff.
“Pergunte se Trump estaria disposto a isso? Claro que sim”, disse ao O Globo, sem poupar críticas: interferir no Fed pode dar crescimento no curto prazo, mas ancorar inflação depois.
Consequências para emergentes (e para o Brasil)
Rogoff reconhece, segundo o O Globo, que reservas internacionais maiores e mercados locais de dívida mais profundos tornaram países como o Brasil mais resilientes.
Ainda assim, uma crise fiscal nos EUA ou na Europa poderia machucar o crescimento e reprecificar risco em escala global.
Para o Brasil, pesam três canais:
(1) volatilidade do dólar, que encarece financiamento e aperta condições financeiras;
(2) comércio, já que tarifas e reconfigurações geopolíticas deslocam fluxos;
(3) portfólio, com fuga para qualidade pressionando ativos locais. “As reservas ajudam; imunidade, não há”, é a síntese implícita.
Linha do tempo provável — e o debate sobre juros
Rogoff disse ao O Globo que recessão imediata não é o cenário base; os grandes problemas tenderiam a aparecer em 2027–2028.
No pano de fundo, o debate sobre taxa real de juros de longo prazo divide economistas: alguns apostam de volta a zero; Rogoff — ao lado de Larry Summers — vê probabilidade maior de juros reais mais altos por mais tempo.
Para investidores e gestores públicos, a mensagem é de simetria de riscos: não dá para “precificar” o melhor dos mundos.
Políticas populistas funcionam por um tempo, adverte o ex-chefe do FMI; depois, a conta chega.
Crise cripto “clássica” à vista?
Além do fiscal, Rogoff prevê — como disse ao O Globo — uma crise bancária no mundo cripto, desta vez com efeito real maior que em 2022.
Integração mais profunda entre cripto e finanças tradicionais amplia canais de contágio, sobretudo se regulação for lenta. Para o leitor, isso significa mais uma frente de volatilidade a monitorar.
Um sistema financeiro mais multipolar
No livro citado pelo O Globo, Rogoff projeta um sistema internacional mais multipolar: o dólar seguiria dominante, mas com participação menor.
Euro e, eventualmente, yuan, ganhariam espaço; cripto avançaria na economia subterrânea. Trata-se de um ajuste lento, mas consistente com fragmentação geopolítica e tarifas.
O recado do ex-chefe do FMI é simples e incômodo: déficit alto, juros mais caros e política imprevisível podem reprecificar o mundo em quatro a cinco anos.
Para países e investidores, o plano A é disciplina fiscal e colchões de liquidez; o plano B é aceitar mais volatilidade — e preço de risco maior.
Na sua visão, qual variável pesa mais nessa conta: dívida dos EUA, o risco de interferência no Fed ou o retorno de tarifas generalizadas? Se você gere orçamento, investimentos ou comércio exterior, quais ajustes práticos faria já em 2025 para atravessar um cenário 2027–2028 mais turbulento? Compartilhe nos comentários sua estratégia — vamos aprender com casos reais.
