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Criada no Harlem, filha de um maquinista do metrô e de uma faxineira que esfregava chão para bancar seus estudos, ela criou uma sonda a laser e devolveu a visão a pessoas que estavam cegas havia mais de 30 anos

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 06/08/2026 às 19:06 Atualizado em 06/08/2026 às 19:11
A mãe esfregava chão para pagar seus estudos no Harlem. Ela virou médica, patenteou uma sonda a laser em 1988 e devolveu a visão a quem estava cego há 30 anos.
A mãe esfregava chão para pagar seus estudos no Harlem. Ela virou médica, patenteou uma sonda a laser em 1988 e devolveu a visão a quem estava cego há 30 anos.
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Patricia Era Bath nasceu em 1942 e concebeu o aparelho em 1981, quando a tecnologia disponível ainda não permitia executar a ideia. Levou quase cinco anos até concluir o desenvolvimento. A patente saiu em 17 de maio de 1988 e fez dela a primeira médica negra dos Estados Unidos a registrar uma invenção médica.

A frase é dela e não deixa margem para poesia. Ela dizia que a mãe esfregava chão para que ela pudesse ir para a faculdade de medicina. Foi assim que Patricia Era Bath bancou os estudos que a levaram do Harlem, em Nova York, à condição de inventora de um dos instrumentos mais usados em cirurgia de catarata no mundo, conforme registros do Instituto Smithsonian e da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos.

O aparelho se chama sonda Laserphaco. Ela recebeu a patente em 17 de maio de 1988, tornando-se a primeira médica negra dos Estados Unidos a obter registro de invenção médica. O dispositivo é apontado como capaz de devolver a visão a pessoas que estavam cegas havia mais de três décadas.

A casa em que ela cresceu

A mãe esfregava chão para pagar seus estudos no Harlem. Ela virou médica, patenteou uma sonda a laser em 1988 e devolveu a visão a quem estava cego há 30 anos.
A mãe esfregava chão para pagar seus estudos no Harlem. Ela virou médica, patenteou uma sonda a laser em 1988 e devolveu a visão a quem estava cego há 30 anos.

Patricia nasceu em 4 de novembro de 1942, no Harlem. O pai, Rupert Bath, era imigrante de Trinidad e foi o primeiro maquinista negro do sistema de metrô de Nova York.

Ele acumulava funções e histórias. Trabalhou também como marinheiro mercante, viajando pelo mundo, e escrevia coluna de jornal. Os relatos e as lembranças que trazia de outros países alimentaram na filha o gosto por viagem e por conhecer culturas diferentes. A mãe, Gladys Bath, descendia de africanos escravizados e de cherokees, e foi ela quem deu à filha o primeiro conjunto de química.

O que a mãe fez para pagar a conta

O detalhe que dá título a esta matéria vem de uma declaração direta dela. Gladys era dona de casa e passou a trabalhar como doméstica depois que os filhos entraram na segunda etapa do ensino fundamental.

O objetivo era um só: garantir a melhor educação possível para Patricia e para o irmão mais velho, que cursou engenharia. Nas palavras da própria médica, a mãe esfregava chão para que ela pudesse ir para a faculdade de medicina. É a explicação mais concreta possível de como uma família de renda modesta no Harlem custeou uma formação em medicina nos anos 1960.

A equação que ela derivou aos 16 anos

A mãe esfregava chão para pagar seus estudos no Harlem. Ela virou médica, patenteou uma sonda a laser em 1988 e devolveu a visão a quem estava cego há 30 anos.
A mãe esfregava chão para pagar seus estudos no Harlem. Ela virou médica, patenteou uma sonda a laser em 1988 e devolveu a visão a quem estava cego há 30 anos.

O talento apareceu cedo e foi reconhecido antes da universidade. Ela editava o jornal de ciências da Charles Evans Hughes High School e acumulava prêmios em concursos científicos.

Em 1959, aos 16 anos, foi selecionada para um programa de verão da Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos, na Universidade Yeshiva. Foi ali que ela derivou uma equação matemática para prever o crescimento de células cancerígenas, trabalho que chamou atenção dos pesquisadores que a orientavam. A vocação para medicina, segundo ela, nasceu ainda na infância, ao ouvir sobre o trabalho do médico Albert Schweitzer com pacientes de hanseníase no Congo.

A formação e uma correção importante

Ela cursou graduação no Hunter College e obteve o diploma de medicina pela Universidade Howard, em Washington, em 1968. O internato foi feito no Harlem Hospital, entre 1968 e 1969.

Aqui vale corrigir uma confusão frequente. Ela cumpriu uma bolsa de pesquisa em oftalmologia na Universidade Columbia entre 1969 e 1970, mas a residência propriamente dita foi feita na Universidade de Nova York, entre 1970 e 1973, onde se tornou a primeira afro-americana a concluir residência em oftalmologia. As duas instituições aparecem trocadas em parte das publicações sobre a trajetória dela.

O que ela descobriu atendendo no Harlem

Durante o período de formação, ela notou uma diferença que os números confirmavam. Comparando os pacientes atendidos no hospital do Harlem com os da clínica oftalmológica de Columbia, percebeu incidência muito maior de cegueira entre pacientes negros.

Ela foi uma das primeiras a documentar que pacientes negros apresentavam o dobro da taxa de glaucoma. A conclusão dela foi de que a alta prevalência de cegueira nessa população decorria de falta de acesso a atendimento oftalmológico, e não de predisposição biológica isolada. Em 1976, propôs em artigo a criação de uma disciplina chamada oftalmologia comunitária, combinando saúde pública, medicina comunitária e programas clínicos para testar visão e rastrear doenças oculares em comunidades historicamente desassistidas. No mesmo ano, cofundou o Instituto Americano para a Prevenção da Cegueira, sob o princípio de que enxergar é um direito humano básico.

As barreiras que a empurraram para a Europa

A mãe esfregava chão para pagar seus estudos no Harlem. Ela virou médica, patenteou uma sonda a laser em 1988 e devolveu a visão a quem estava cego há 30 anos.
A mãe esfregava chão para pagar seus estudos no Harlem. Ela virou médica, patenteou uma sonda a laser em 1988 e devolveu a visão a quem estava cego há 30 anos.

A carreira acadêmica dela é uma sequência de primeiras vezes. Foi a primeira cirurgiã afro-americana do centro médico da Universidade da Califórnia em Los Angeles e, em 1975, a primeira mulher no corpo docente do Jules Stein Eye Institute. Em 1983, tornou-se a primeira mulher do país a chefiar um programa de residência em oftalmologia.

O ambiente, porém, não acompanhou os títulos. Ela relatou ter enfrentado sexismo e racismo durante o período nas duas instituições em que atuava. Diante disso, levou a própria pesquisa para fora do país, onde encontrou acolhida técnica no Centro Médico a Laser de Berlim, então Alemanha Ocidental, no Instituto Oftalmológico Rothschild, em Paris, e no Instituto de Tecnologia de Loughborough, na Inglaterra.

Como funciona a sonda

A ideia surgiu em 1981, inspirada em avanços que ela observava na cirurgia cardiovascular. O problema era que a tecnologia disponível na época ainda não permitia executar o conceito.

O aparelho consiste em uma fibra ótica de laser cercada por tubos de irrigação e de aspiração, e pode ser inserido por uma incisão de cerca de um milímetro no olho. O laser desintegra a catarata, o material é irrigado e depois sugado, e a lente artificial pode ser implantada em seguida. O procedimento substitui o método mecânico anterior, que era mais agressivo e menos preciso. Ela levou quase cinco anos até concluir o desenvolvimento, em 1986, e publicou o primeiro artigo sobre o dispositivo em 1987.

O que devolveu a visão depois de 30 anos

A mãe esfregava chão para pagar seus estudos no Harlem. Ela virou médica, patenteou uma sonda a laser em 1988 e devolveu a visão a quem estava cego há 30 anos.
A mãe esfregava chão para pagar seus estudos no Harlem. Ela virou médica, patenteou uma sonda a laser em 1988 e devolveu a visão a quem estava cego há 30 anos.

Este é o ponto em que as fontes divergem e vale registrar. A Biography e o material do Instituto Americano de Mulheres na Ciência atribuem à sonda Laserphaco a recuperação da visão de pessoas cegas havia mais de 30 anos.

Já a American Chemical Society atribui esses casos a outro trabalho dela, com o dispositivo de ceratoprótese, usado em substituição de córnea. As duas linhas de pesquisa correram em paralelo na carreira dela, e ela concluiu, em 1974, uma bolsa em cirurgia de córnea e ceratoprótese.

O que ficou

Ela recebeu uma segunda patente em dezembro de 1998 e acumulou registros também no Japão, no Canadá e em países europeus. O número total de patentes americanas aparece como quatro em uma publicação e cinco em outra.

Aposentou-se do centro médico da universidade californiana em 1993 e morreu em 30 de maio de 2019, aos 76 anos, em São Francisco. Em 2022, tornou-se uma das primeiras mulheres negras admitidas no Hall da Fama Nacional dos Inventores dos Estados Unidos. O dispositivo criado por ela passou a ser usado no exterior a partir de 2000.

E você, conhece alguém que precisou operar catarata? Conta aqui nos comentários como foi o procedimento e se a pessoa recuperou a visão, e diga também qual história de superação envolvendo estudo mais te marcou.

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