Harrison Okene trabalhava como cozinheiro no rebocador Jascon-4 quando a embarcação virou no litoral da Nigéria; preso em uma pequena área respirável no fundo do oceano, ele enfrentou frio, sede e escuridão até protagonizar um resgate registrado em vídeo
O que deveria ser mais uma madrugada de trabalho em um rebocador terminou com Harrison Okene preso dentro de uma embarcação afundada, a aproximadamente 30 metros de profundidade. Vestindo apenas roupa íntima, o cozinheiro encontrou uma bolsa de ar e permaneceu no escuro por quase 60 horas.
Durante todo esse período, as equipes de emergência acreditavam que ninguém havia sobrevivido ao naufrágio. Mergulhadores enviados para localizar os corpos entraram no casco virado e começaram a percorrer seus compartimentos. Então, uma mão que parecia pertencer a outra vítima se moveu e segurou um dos profissionais.
Cozinheiro estava acordado quando o Jascon-4 começou a afundar
Harrison trabalhava como cozinheiro no Jascon-4, um rebocador que auxiliava operações ligadas a uma plataforma petrolífera no Golfo da Guiné, a cerca de 30 quilômetros da costa da Nigéria.
-
Vocalista do Duran Duran participa de regata internacional, quilha de iate se rompe e Simon Le Bon fica preso com cinco tripulantes dentro do casco virado, respirando fumaça de diesel até mergulhador da Marinha resgatá-los
-
Um Ford Ka despencou do alto do Morro do Farol, em Torres, na noite de sábado (29), e o motorista de 25 anos foi resgatado entre as pedras da orla com dores e hematomas, horas depois de deixar sem autorização o hospital onde havia sido internado no Litoral Norte gaúcho
-
Mulher é atacada por mais de 300 picadas de abelhas, fica cercada por enxame, não consegue abrir portão e recorre à Siri para ligar ao 911 e pedir socorro
-
Diretor de escola salva 900 crianças de enchente mortal no Nepal após receber quatro alertas e mandar alunos para área elevada minutos antes de a água atingir a região
Na madrugada de 26 de maio de 2013, ondas fortes atingiram a embarcação durante uma operação de estabilização de um navio-tanque. Harrison já estava acordado e havia ido ao banheiro quando percebeu que algo estava errado.
O rebocador começou a inclinar rapidamente. Objetos foram lançados de um lado para outro, a iluminação desapareceu e a água invadiu os compartimentos. Em poucos instantes, o Jascon-4 virou completamente e começou a descer em direção ao fundo do oceano.
Harrison tentou sair do banheiro enquanto procurava uma rota entre corredores e portas. Sem enxergar quase nada, avançou pelo interior do navio usando as mãos para reconhecer paredes, equipamentos e passagens.
Rebocador parou de cabeça para baixo a 30 metros de profundidade
Depois de afundar, o Jascon-4 ficou apoiado de cabeça para baixo no leito marinho. A inversão do casco fez com que pequenas quantidades de ar permanecessem presas em alguns compartimentos.
Harrison passou por áreas parcialmente inundadas até alcançar um espaço onde ainda conseguia respirar. Segundo relatos posteriores, a bolsa de ar tinha aproximadamente 1,2 metro de altura e estava localizada numa área próxima ao escritório do engenheiro.
O cozinheiro improvisou uma plataforma com materiais e colchões que flutuavam ao seu redor. O objetivo era manter a maior parte possível do corpo fora da água e reduzir a perda de calor.
Mesmo assim, Harrison permaneceu parcialmente submerso, com pouca roupa e sem qualquer fonte de iluminação. Ao redor dele, havia apenas água escura, ruídos produzidos pelo casco e a incerteza sobre quanto tempo o ar continuaria respirável.

Frio, sede e gás carbônico ameaçavam sua sobrevivência
O frio não era o único perigo. Dentro de uma área fechada, o oxigênio disponível diminuía enquanto o gás carbônico expelido pela respiração se acumulava. Concentrações elevadas poderiam provocar confusão, perda de consciência e morte.
A pressão também representava um risco. Como a bolsa de ar estava a cerca de 30 metros de profundidade, Harrison respirava sob uma pressão muito superior à encontrada na superfície. Seu organismo passou a absorver uma quantidade maior de nitrogênio.
Ele não sabia disso naquele momento. Sua preocupação era continuar respirando e evitar permanecer completamente dentro da água. Sem comida, água potável ou roupas adequadas, Harrison enfrentou sede, fome e frio durante mais de dois dias.
O cozinheiro contou posteriormente que rezava enquanto esperava. Em alguns momentos, ouvia sons no interior do navio, mas não conseguia saber se eram produzidos pelos destroços, pela água ou por possíveis equipes de resgate.
Equipes procuravam vítimas, mas não esperavam encontrar sobreviventes
O Jascon-4 transportava 12 tripulantes, incluindo Harrison. As primeiras buscas realizadas na superfície não encontraram nenhum sobrevivente, e uma equipe especializada foi chamada para entrar no naufrágio.
Os mergulhadores sul-africanos chegaram preparados para uma operação de recuperação de corpos. O rebocador estava invertido, completamente escuro e cheio de obstáculos, tornando cada entrada no casco perigosa.
Com câmeras instaladas nos equipamentos, os profissionais avançaram pelos compartimentos inundados. As imagens eram transmitidas para a equipe que acompanhava a operação a partir do navio de apoio.
Após quase 60 horas preso, Harrison percebeu uma luz atravessando a água. Era um mergulhador que examinava o interior do Jascon-4 sem imaginar que encontraria alguém vivo.
Mergulhador segurou uma mão e percebeu que ela se movia
A gravação do resgate mostra o mergulhador aproximando-se do compartimento. Ao encontrar uma mão na água, ele acreditou inicialmente que estivesse diante de mais um corpo.
Quando o profissional segurou a mão, Harrison respondeu ao contato e se moveu. A reação provocou surpresa imediata na equipe, que anunciou pelo sistema de comunicação que havia encontrado um sobrevivente.
O momento tornou-se uma das imagens de resgate marítimo mais conhecidas do mundo. Depois de quase dois dias e meio cercado pela água, Harrison finalmente teve a confirmação de que seria retirado do navio.
Entretanto, levá-lo diretamente para a superfície poderia matá-lo. O longo período respirando ar comprimido a 30 metros havia colocado seu organismo numa condição semelhante à de um mergulhador submetido a uma exposição prolongada em profundidade.
Subida imediata poderia provocar uma descompressão fatal
Os mergulhadores colocaram em Harrison um equipamento de respiração e comunicação. Em seguida, conduziram o cozinheiro para fora do casco e até um sino de mergulho, mantendo a pressão controlada.
Caso fosse levado rapidamente para a superfície, o nitrogênio dissolvido em seus tecidos poderia formar bolhas no sangue. Essa condição, conhecida como doença descompressiva, pode provocar dores intensas, danos neurológicos, embolia e morte.
Por isso, Harrison precisou passar por um processo cuidadoso de descompressão. Ele foi transferido para uma câmara pressurizada e permaneceu sob acompanhamento por cerca de dois dias antes de retornar às condições normais da superfície.
Embora debilitado, com fome e apresentando alterações na pele provocadas pela longa exposição à água, o cozinheiro sobreviveu sem ferimentos incapacitantes. Dos 12 ocupantes do Jascon-4, Harrison foi o único encontrado com vida.
Sobrevivente enfrentou o medo e tornou-se mergulhador profissional
Depois do resgate, Harrison afirmou que não pretendia voltar ao oceano. A experiência deixou lembranças difíceis, pesadelos e medo da água. Durante algum tempo, a ideia de entrar novamente no mar parecia impossível.
A relação com a água, porém, começou a mudar. Em 2014, Harrison sobreviveu a outro acidente quando o carro em que estava caiu de uma ponte. Ele conseguiu sair do veículo e voltou para retirar o amigo que permanecia no banco do passageiro.
O episódio o levou a enfrentar o trauma. Harrison iniciou treinamento e, em 2015, conquistou uma certificação de mergulhador comercial, passando a trabalhar justamente numa profissão ligada ao ambiente que quase havia tirado sua vida.
Na cerimônia de conclusão, ele recebeu o diploma das mãos de um integrante da equipe envolvida em seu resgate. A trajetória transformou o cozinheiro que permaneceu quase 60 horas numa bolsa de ar em um profissional preparado para trabalhar nas profundezas do oceano.
Você conseguiria manter a esperança depois de quase 60 horas sozinho, no escuro e a 30 metros de profundidade?
