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A construção agrícola de 400 km² na Europa que surpreendeu uma americana: estufas de Almería produzem milhões de toneladas e abastecem mercados no frio

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Escrito por Fabio Lucas Carvalho Publicado em 02/07/2026 às 00:39 Atualizado em 02/07/2026 às 00:41
Descubra como Almería se tornou um polo de abastecimento de vegetais na Europa com suas estufas agrícolas impressionantes.
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No sul da Espanha, o “mar de plástico” de Almería reúne milhares de estufas em uma área de cerca de 400 km², transformando uma região seca em polo agrícola europeu e levantando comparações com o modelo de grandes monoculturas dos Estados Unidos

No sul da Espanha, a província de Almería chama atenção por uma paisagem incomum: milhares de estruturas brancas cobrem o solo e formam um enorme mosaico visto do alto. À primeira vista, parecem galpões ou telhados industriais. Mas, debaixo dessa cobertura, há plantações.

A região conhecida como “mar de plástico” de Almería reúne mais de 40 mil hectares de estufas agrícolas, segundo estimativas citadas pela NASA. O complexo ocupa praticamente todo o Campo de Dalías e se expandiu para áreas vizinhas, formando uma das maiores concentrações de agricultura protegida do mundo.

Segundo o canal Business Explains The World, essa concentração de estufas transformou uma área árida em um dos principais polos de abastecimento de vegetais da Europa, especialmente nos meses de outono e inverno, quando a produção local ganha ainda mais importância no mercado europeu.

O que existe debaixo das estufas brancas

Sob as coberturas plásticas, agricultores cultivam pimentões, tomates, pepinos, abobrinhas, frutas e outras hortaliças. O sistema permite proteger as plantas contra vento, calor excessivo e variações climáticas.

O plástico funciona como uma espécie de escudo. Ele ajuda a manter condições mais estáveis dentro das estufas e reduz parte dos riscos enfrentados por lavouras ao ar livre.

Essa proteção foi essencial para uma região que, historicamente, não era vista como grande área agrícola. Almería está em uma das zonas mais secas da Espanha, próxima ao Deserto de Tabernas, frequentemente citado como o único deserto verdadeiro da Europa.

europa
A província de Almería, no sudeste da Espanha, possui algumas das condições climáticas mais secas da Europa. No entanto, com acesso à água subterrânea e abundância de sol, tornou-se um importante polo de agricultura em estufas.

De área pobre a potência agrícola

Como mostrou o rtigo acadêmico da Cambridge University Press, durante muito tempo, Almería foi uma das províncias mais pobres da Espanha. O clima seco, os ventos fortes e o solo pouco favorável dificultavam o cultivo.

A mudança começou a partir da década de 1950, quando agricultores passaram a testar novas formas de preparar a terra. Eles adicionaram camadas de areia e matéria orgânica ao solo e passaram a usar coberturas plásticas para proteger as plantações.

Em 1963, experiências com plástico impulsionaram o avanço das estufas na região. Com o tempo, a irrigação, a engenharia agrícola e a entrada da Espanha na União Europeia ajudaram a consolidar o modelo.

O tamanho da produção

Hoje, Almería produz entre 2,5 milhões e 3,5 milhões de toneladas de frutas e hortaliças por ano. A produção abastece uma parte expressiva do mercado europeu, principalmente em períodos mais frios, quando outros países têm menor capacidade de cultivo.

O vídeo também destaca o caso dos pimentões. Enquanto os Estados Unidos produziram cerca de 1 bilhão de libras de pimentões em 2023, a produção de Almería foi apresentada como superior. Dados setoriais indicam que a safra local de pimentões em 2023/2024 passou de 900 milhões de quilos, o equivalente a cerca de 2 bilhões de libras.

Por que o clima ajuda

Um dos segredos de Almería é o sol. A região tem mais de 300 dias ensolarados por ano. Isso reduz a necessidade de aquecimento artificial nas estufas, ao contrário do que ocorre em regiões mais frias, como Holanda e Canadá.

No verão, quando o calor aumenta, agricultores costumam pintar ou clarear a parte externa das estufas com material branco, como cal, para refletir a luz solar.

Estudos já apontaram que essa cobertura clara aumentou a reflexão da radiação solar e provocou um efeito de resfriamento local, estimado em cerca de 0,3 °C por década entre 1983 e 2006.

Menos produtos químicos e mais controle biológico

Outro ponto importante é o manejo integrado de pragas. Muitos produtores passaram a reduzir o uso de pesticidas mais agressivos e adotaram insetos benéficos para combater pragas dentro das estufas.

Na prática, eles soltam organismos que atacam os insetos prejudiciais às plantações. Isso ajuda a manter o equilíbrio do cultivo e diminui a dependência de defensivos químicos.

O modelo combina tecnologia simples, controle ambiental, uso eficiente da água, proteção física das plantas e organização entre pequenos produtores.

Pequenas fazendas organizadas em cooperativas

Almería não é dominada apenas por grandes fazendas industriais. Grande parte da produção vem de propriedades familiares, muitas delas administradas por gerações.

Esses agricultores se organizam em cooperativas para vender melhor, negociar preços, reunir produção, manter fornecimento constante e ganhar força diante de compradores e distribuidores.

Esse sistema ajuda a explicar como uma área relativamente pequena consegue gerar uma produção tão alta e manter papel relevante no abastecimento europeu.

A comparação com os Estados Unidos

O vídeo usa Almería para comparar dois modelos agrícolas. Nos Estados Unidos, há uma quantidade imensa de terras cultiváveis, mas grande parte da área agrícola é ocupada por monoculturas, como milho, soja e trigo.

Essas culturas são commodities. Muitas não vão diretamente para a alimentação humana fresca. São usadas em ração animal, biocombustíveis e produtos industrializados.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos importam uma fatia crescente de frutas e vegetais. No caso dos vegetais frescos, dados do USDA indicam que a participação das importações subiu de 20% para 38% entre 2007 e 2021.

Como a política agrícola moldou esse cenário

A diferença entre os modelos tem origem histórica. Nos Estados Unidos, a crise dos anos 1930, a Grande Depressão e o Dust Bowl levaram o governo a apoiar fortemente grandes culturas agrícolas.

O Agricultural Adjustment Act, de 1933, e depois a Farm Bill, criaram mecanismos de apoio que beneficiaram especialmente commodities como milho, trigo, algodão, laticínios e suínos.

Com o tempo, grandes propriedades ganharam mais força, enquanto pequenos agricultores tiveram mais dificuldade para competir.

Na Espanha, o regime de Francisco Franco criou o Instituto Nacional de Colonização, com o objetivo de levar população e produção agrícola para áreas rurais. Em Almería, esse processo abriu espaço para novas técnicas de irrigação, preparo do solo e cultivo protegido.

Um modelo com vantagens, mas não perfeito

O caso de Almería não significa que o sistema seja livre de problemas. A agricultura intensiva em estufas também enfrenta críticas e desafios, como uso de plástico, pressão sobre recursos hídricos, descarte de resíduos e dependência de mão de obra.

Ainda assim, a região mostra como uma área seca conseguiu aumentar muito sua produção usando ambiente controlado, organização cooperativa e adaptação ao clima.

O debate sobre segurança alimentar

A reportagem do canal Business Explains The World defende que os Estados Unidos poderiam aprender com modelos como o de Almería, especialmente diante de desafios como escassez de água, perda de solo fértil, dependência de importações e mudanças climáticas.

Segundo a FAO, a produção global de alimentos teria de crescer cerca de 70% até 2050, em relação ao nível de 2005/2007, para acompanhar a demanda mundial.

Nesse cenário, as estufas de Almería viraram mais do que uma curiosidade vista do espaço. Elas representam uma resposta prática a um problema antigo: como produzir muito alimento em um lugar onde, por muito tempo, parecia impossível plantar em grande escala.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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