Um mapa cerebral inédito revela como milhares de neurônios de um camundongo se conectam enquanto processam imagens, em uma reconstrução que combina tecnologia, inteligência artificial e um volume raro de dados sobre o córtex visual.
Um fragmento do cérebro de um camundongo permitiu a cientistas produzir o que os pesquisadores descrevem como o maior mapa funcional de um cérebro animal feito até agora.
O trabalho reconstruiu, em três dimensões, parte da rede de comunicação entre cerca de 84 mil neurônios e aproximadamente 524 milhões de sinapses, as junções pelas quais as células nervosas transmitem sinais.
A pesquisa integra o projeto MICrONS, sigla em inglês para Machine Intelligence from Cortical Networks, e foi publicada na revista Nature em 9 de abril de 2025.
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A amostra analisada tinha cerca de um milímetro cúbico de tecido cerebral, volume frequentemente comparado pelos pesquisadores ao tamanho de uma pequena semente.
Mesmo restrito a uma fração do córtex visual do animal, o mapa revelou uma estrutura com ramificações densas, conexões sobrepostas e circuitos coloridos em diferentes camadas.
A visualização levou cientistas envolvidos no projeto a compararem o resultado a imagens de galáxias, pela quantidade de conexões reunidas em um espaço microscópico.
O objetivo do estudo não foi apenas reconstruir uma imagem detalhada do tecido cerebral.
A equipe buscou relacionar a estrutura física das conexões com a atividade dos neurônios durante o processamento de imagens.
Em outras palavras, os pesquisadores tentaram observar não só como as células estavam ligadas, mas também como respondiam a estímulos visuais.
Camundongo assistiu a vídeos durante experimento cerebral
Uma das etapas mais conhecidas do estudo envolveu um camundongo acordado diante de vídeos.
O animal assistiu a cenas curtas de filmes, esportes, animações e natureza, incluindo trechos de “The Matrix”, enquanto cientistas registravam a atividade de neurônios no córtex visual.
Para acompanhar essa resposta cerebral, os pesquisadores usaram um camundongo geneticamente modificado para que determinados neurônios brilhassem quando estivessem ativos.
Com auxílio de microscopia, a equipe observou quais células reagiam aos estímulos exibidos na tela e como diferentes grupos neuronais participavam do processamento das imagens.
Essa fase foi conduzida por cientistas do Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos.
Depois do registro da atividade cerebral, o tecido analisado foi encaminhado ao Allen Institute, em Seattle, onde passou por um processo de preparação para reconstrução microscópica.
O material foi cortado em dezenas de milhares de lâminas extremamente finas, cada uma com espessura muito menor que a de um fio de cabelo humano.
Essa etapa permitiu que os pesquisadores observassem, em sequência, as camadas do tecido cerebral e reconstruíssem o caminho das células e de suas conexões.
Mapa cerebral em 3D mostra conexões entre neurônios
Com microscópios eletrônicos, a equipe produziu imagens de alta resolução das lâminas.
O volume de dados gerado foi usado para identificar axônios, dendritos e sinapses, estruturas essenciais para a comunicação entre os neurônios.
Os axônios levam sinais para outras células, enquanto os dendritos recebem parte dessas informações.
As sinapses funcionam como pontos de contato entre neurônios, permitindo a passagem dos sinais por meio de processos químicos e elétricos.
A etapa seguinte contou com participação de cientistas da Universidade Princeton.
Eles usaram inteligência artificial e técnicas de aprendizado de máquina para seguir o trajeto das células através das camadas de imagem e reconstruir a rede em três dimensões.
Segundo Forrest Collman, pesquisador do Allen Institute e um dos líderes do projeto, o mapa pode causar a mesma sensação de observar imagens astronômicas.
“Isso definitivamente inspira uma sensação de admiração, assim como olhar para imagens de galáxias”, afirmou ele, ao comentar a complexidade encontrada em uma área tão pequena do cérebro.
A reconstrução reúne mais de 200 mil células, incluindo os neurônios mapeados, e cerca de meio bilhão de conexões sinápticas.
De acordo com os pesquisadores, se a fiação microscópica identificada fosse esticada em linha reta, ela alcançaria cerca de 5,4 quilômetros.

Conectômica ajuda a investigar circuitos do cérebro
O cérebro depende da troca constante de sinais entre células nervosas.
Esse processo está ligado a funções como enxergar, reconhecer movimentos, interpretar o ambiente e responder a estímulos externos.
No entanto, conhecer a existência dessas conexões não basta para entender como circuitos inteiros produzem comportamentos ou percepções.
Clay Reid, cientista do Allen Institute, afirmou que hipóteses sobre o funcionamento das células cerebrais dependem de uma informação básica: como elas estão conectadas.
Segundo ele, compreender essa fiação é uma condição importante para testar explicações sobre o papel de diferentes neurônios.
A área que estuda esse tipo de mapeamento é conhecida como conectômica.
Seu objetivo é descrever, com resolução crescente, como células do sistema nervoso se organizam em circuitos.
No caso do MICrONS, o diferencial foi unir a reconstrução anatômica à atividade funcional observada enquanto o animal via imagens.
Essa combinação permite que pesquisadores analisem relações entre a forma das conexões e a resposta dos neurônios.
Em vez de observar apenas a estrutura do tecido ou apenas a atividade das células, o estudo aproximou as duas informações no mesmo conjunto de dados.
Dados revelam padrões no córtex visual do camundongo
Entre os pontos destacados pela equipe está o comportamento de neurônios inibitórios, células responsáveis por reduzir a atividade de outras células.
Segundo os autores do estudo, esses neurônios não pareceram se conectar de maneira aleatória.
Os dados indicam padrões específicos de ligação com outros grupos celulares.
Esse tipo de observação pode ajudar a formular novas perguntas sobre a organização dos circuitos cerebrais.
Ainda assim, os pesquisadores não apresentam o mapa como uma explicação completa do funcionamento do cérebro.
O estudo se limita a uma área específica do córtex visual de um único camundongo.
A amostra, portanto, não representa o cérebro inteiro do animal nem permite conclusões diretas sobre funções como memória, emoção, consciência ou linguagem.
O resultado mostra, com alto nível de detalhe, uma parte da rede envolvida no processamento visual.
Outro aspecto relevante é que o conjunto de dados foi disponibilizado para a comunidade científica.
Com isso, outros grupos podem consultar a reconstrução, testar novas perguntas e desenvolver modelos digitais relacionados ao funcionamento do córtex visual.
Mapa pode apoiar estudos sobre doenças neurológicas
Os cientistas envolvidos no projeto tratam o mapa como uma base para estudos futuros, não como uma ferramenta imediata de diagnóstico ou tratamento.
A expectativa é que mapas desse tipo ajudem a comparar circuitos considerados saudáveis com alterações observadas em doenças neurológicas e transtornos do desenvolvimento.
O Allen Institute afirma que compreender regras de conectividade pode contribuir para investigações sobre condições como Alzheimer, autismo e dependência.
A relação entre essas doenças e padrões específicos de conexão cerebral, porém, ainda depende de novas pesquisas.
Sebastian Seung, neurocientista e cientista da computação em Princeton, disse que as tecnologias desenvolvidas pelo projeto podem dar aos cientistas novas formas de identificar padrões anormais de conectividade associados a distúrbios.
A afirmação se refere ao potencial da técnica, não a uma aplicação clínica já disponível.
A comparação com o Projeto Genoma Humano aparece em declarações de pesquisadores porque ambos os esforços buscam criar mapas de referência.
No caso do genoma, a leitura dos genes abriu caminho para novas linhas de pesquisa e terapias ao longo dos anos.
No cérebro, o desafio envolve estruturas tridimensionais, atividade celular e volumes de dados muito elevados.
Amostra do cérebro mostra limites e alcance da pesquisa
O estudo não mapeia todo o cérebro de um camundongo.
A pesquisa se concentra em uma região visual específica e em uma amostra limitada.
Essa delimitação é importante para evitar interpretações além do que os dados permitem afirmar.
Ainda assim, o projeto oferece uma forma de observar a relação entre atividade cerebral e estrutura física das conexões.
O camundongo viu imagens, os neurônios responderam, os pesquisadores registraram essa atividade e, depois, reconstruíram as ligações entre as células envolvidas nesse processo.
Mais de 150 cientistas participaram do consórcio MICrONS.
O projeto recebeu financiamento da BRAIN Initiative, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, e da IARPA, agência norte-americana dedicada a pesquisas avançadas de inteligência.
Para o público, a imagem do mapa cerebral chama atenção pela semelhança visual com estruturas astronômicas.
Para os pesquisadores, cada linha colorida representa uma conexão que pode ajudar a investigar como o cérebro transforma estímulos visuais em informação processada.


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