Material produzido a partir de celulose combina retenção de poluentes com nutrientes que favorecem a atividade de microrganismos. Os resultados são laboratoriais, e a aplicação em derramamentos reais ainda depende de testes fora de condições controladas.
Pesquisadores desenvolveram um aerogel capaz de capturar petróleo e oferecer suporte para bactérias que degradam os poluentes retidos. Segundo o comunicado da Universidade Ben-Gurion do Negev, responsável pelo trabalho, o material reteve aproximadamente 100 vezes sua própria massa em petróleo, combustíveis e outros hidrocarbonetos durante experimentos de laboratório.
Reportagem da JNS publicada em 30 de setembro de 2026 apresenta um resultado específico: nas melhores condições de preparação descritas para o teste com petróleo bruto, cada grama do aerogel enriquecido reteve cerca de 78 gramas de óleo, aproximadamente 80 vezes sua massa. Esse também é o valor destacado no resumo científico. O comunicado da universidade não explica diretamente a diferença entre essa medição e a referência de 100 vezes.
A contribuição do estudo vai além da quantidade capturada. O sistema procura enfrentar também o que acontece depois da retirada do petróleo da água: em vez de apenas concentrar a contaminação em um material que precisará ser descartado, oferece condições para sua decomposição biológica.
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Estrutura porosa retém petróleo e dificulta a entrada de água

O aerogel é um sólido muito leve, formado por uma estrutura microscópica com grande quantidade de espaços vazios. Essa organização cria uma ampla superfície interna onde outras substâncias podem ficar retidas.
Nesse projeto, a matéria-prima é a celulose, componente estrutural das plantas. O processamento a transforma em um material poroso rico em carbono, que resiste a ser molhado pela água enquanto permite que o petróleo se espalhe por sua estrutura. Essa diferença é importante porque, em um derramamento, o material precisa capturar óleo mesmo estando cercado por um volume muito maior de água.
A retenção é descrita como adsorção, processo em que substâncias ficam aderidas às superfícies do material. Capturar o petróleo dessa maneira, porém, não equivale a degradá-lo: a etapa biológica depende da atuação dos microrganismos.
Nitrogênio e fósforo ajudam as bactérias a agir

As fibras usadas na produção recebem nitrogênio e fósforo, nutrientes que favorecem bactérias capazes de degradar hidrocarbonetos. O aerogel oferece uma superfície para esses microrganismos se fixarem, aproximando-os tanto do petróleo capturado quanto dos nutrientes necessários à sua atividade.
O trabalho foi desenvolvido no Laboratório de Biotecnologia Ambiental, com a equipe liderada pelo professor Ariel Kushmaro e o estudo conduzido pela pesquisadora Danit Lisa Karsagi Biron. A fabricação envolveu enriquecimento com nutrientes, liofilização (uma forma de secagem por congelamento) e pirólise, um tratamento térmico. A pesquisa foi publicada na revista Chemical Engineering Journal Advances.
Nos experimentos com água do mar artificial contaminada por petróleo e sem nutrientes adicionados à água, a versão enriquecida do aerogel favoreceu a degradação em comparação com o material sem suplementação. Os pesquisadores também observaram que concentrações maiores de nutrientes aumentaram a velocidade e a extensão da decomposição nas condições avaliadas.
Esse resultado distingue as duas funções da tecnologia: primeiro, reter o contaminante; depois, sustentar a atividade biológica sobre o que foi capturado. A capacidade de retenção não informa, sozinha, quanto tempo será necessário para degradar o petróleo.
O próprio aerogel também pode se degradar
Os pesquisadores apontam a possibilidade de o processo levar à biodegradação do material produzido a partir de celulose. Caso esse comportamento se confirme nas condições de aplicação, poderia diminuir a necessidade de recolher e descartar o aerogel contaminado após o tratamento. Essa redução do descarte é uma possibilidade, não uma dispensa de recolhimento já demonstrada para qualquer derramamento.
A questão importa porque remover óleo da água não encerra necessariamente o trabalho de limpeza. O petróleo recolhido por equipamentos mecânicos precisa ser armazenado, separado da água e encaminhado para reaproveitamento ou descarte. Materiais usados para capturá-lo também podem se transformar em resíduos contaminados.
Aplicação no mar ainda precisa ser testada
Os resultados não equivalem a uma tecnologia pronta para uso em grandes acidentes ambientais. Em entrevista à JNS, Kushmaro afirmou que o desenvolvimento prático ainda levaria anos e apontou como próxima etapa a avaliação do material em uma marina poluída.
Fora do laboratório, o aerogel enfrentará ondas, correntes, variações de temperatura e salinidade, diferentes misturas de petróleo e comunidades de microrganismos. São condições que os ensaios controlados com água do mar artificial não reproduzem integralmente.
Enquanto a aplicação em campo permanece por validar, a proteção por patente está sendo buscada por meio da BGN Technologies, empresa responsável pela comercialização de tecnologias da universidade.
Você acredita que um material como esse poderia ter ajudado no óleo que chegou às praias do Nordeste em 2019? Deixe sua opinião nos comentários.
