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Cientistas cogitaram detonar 213 bombas nucleares no Saara para criar um mar artificial do tamanho de El Salvador, cada explosão seria cem vezes mais poderosa que a bomba de Hiroshima e o objetivo era gerar mais energia que a maior hidrelétrica do Egito

Publicado em 28/05/2026 às 01:03
Atualizado em 28/05/2026 às 01:08
Assista o vídeoEngenheiro planejou detonar 213 bombas nucleares no Saara para criar mar artificial na Depressão de Qattara. Bassler propôs usina de 5.800 MW no deserto.
Engenheiro planejou detonar 213 bombas nucleares no Saara para criar mar artificial na Depressão de Qattara. Bassler propôs usina de 5.800 MW no deserto.
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Engenheiro alemão liderou entre 1964 e 1973 um plano para inundar a Depressão de Qattara, no Saara egípcio, com água do Mediterrâneo; cada uma das 213 explosões teria cem vezes a potência da bomba de Hiroshima, e a usina alcançaria pico de 5.800 megawatts.

No coração do Saara, o maior deserto quente do planeta, existe uma cratera natural tão profunda e tão próxima do mar que, por quase um século, engenheiros de vários países sonharam em enchê-la de água. A Depressão de Qattara, no noroeste do Egito, fica a 133 metros abaixo do nível do mar e a apenas 55 quilômetros da costa do Mediterrâneo, uma combinação geográfica que transformou esse trecho do Saara em alvo de um dos projetos de engenharia mais ousados e perturbadores do século XX.

O plano mais ambicioso saiu da prancheta do engenheiro hidráulico alemão Friedrich Bassler, que entre 1964 e 1973 propôs abrir um canal até o mar e, para acelerar a escavação, detonar 213 bombas nucleares no deserto, cada uma com potência equivalente a cem vezes a bomba lançada sobre Hiroshima. O objetivo final não era destruição, mas energia: uma usina que superaria a maior hidrelétrica egípcia. A ideia foi recusada pelo governo do Egito, mas, segundo registros reunidos pela Wikipedia, nunca foi totalmente abandonada.

A depressão no Saara que quase virou mar

imagem ilustrativa/explicativa
imagem ilustrativa/explicativa

A Depressão de Qattara é o segundo ponto mais profundo de toda a África. Com 133 metros abaixo do nível do mar, ela é mais funda que o ponto mais baixo da Europa e que a Laguna del Carbón, na Argentina, o lugar mais profundo das Américas. Em uma área de 19 mil quilômetros quadrados comparável a El Salvador inteiro, vivem apenas algumas centenas de pessoas, concentradas no oásis de Qara e em pequenos assentamentos isolados no meio do Saara.

É justamente a proximidade com o mar que torna a ideia tecnicamente possível. Um canal de 55 quilômetros de extensão seria suficiente para levar a água do Mediterrâneo até a depressão. Para efeito de comparação, o Canal de Suez tem 193 quilômetros. A grande vantagem do projeto de Qattara é que a água não precisaria ser bombeada: como a depressão está abaixo do nível do mar, o líquido escorreria sozinho, puxado pela gravidade, rumo ao interior do deserto.

Como o deserto se transformaria em usina

O lago artificial no Saara não seria um simples espelho d’água. Como a região é extremamente quente e seca, a água evaporaria sem parar, abrindo espaço para que mais água do mar entrasse continuamente pelo canal. Esse fluxo permanente é o segredo de todo o projeto: a água em movimento passaria por turbinas e geraria eletricidade de forma estável e ininterrupta.

O conceito ficou conhecido como “hidro-solar”, embora não envolvesse painéis solares no sentido moderno. O termo se refere ao aproveitamento do calor do sol do deserto, que provoca a evaporação e mantém o ciclo girando. De acordo com o estudo de viabilidade arquivado pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos, o plano combinava a entrada de água do mar com instalações de geração. A usina alcançaria uma capacidade de pico de cerca de 5.800 megawatts — boa parte dela vinda de um sistema reversível, número que superaria os 2.100 megawatts da Represa de Aswan, a maior do Egito.

O plano de 213 bombas nucleares no Saara

Bassler concluiu que escavar o canal com máquinas convencionais seria caro e demorado demais. Sua solução foi radical: usar 213 detonações nucleares de 1,5 megaton cada para abrir a passagem e remover milhões de toneladas de rocha em pouco tempo. Pode parecer loucura pelos padrões de hoje, mas, nos anos 1960, explosões nucleares para obras civis eram levadas a sério por norte-americanos e soviéticos.

Os Estados Unidos chegaram a realizar 27 testes no programa Plowshare, e os soviéticos executaram 239 detonações no mesmo conceito de “explosões nucleares pacíficas”, conforme documentação histórica reunida pela Wikipedia sobre o projeto. Em 1965, uma explosão soviética criou o Lago Chagan, no Cazaquistão, que permanece radioativo até hoje. Bassler estudou o teste americano Storax Sedan, de 1962, que abriu a maior cratera artificial dos Estados Unidos e concluiu que a técnica funcionaria no deserto egípcio, desde que cerca de 25 mil pessoas fossem retiradas da região.

A ideia que já tinha sido oferecida a um presidente americano

Bassler não inventou o conceito do nada. A vontade de inundar a Depressão de Qattara é bem mais antiga: o geógrafo alemão Albrecht Penck sugeriu algo parecido ainda em 1912, e o britânico John Ball detalhou a ideia em 1927. A proposta chegou inclusive à mesa da Casa Branca. Nos anos 1950, a CIA apresentou o plano ao presidente Dwight Eisenhower.

Segundo documentos citados pelo site Futility Closet, a agência descreveu o futuro lago como “espetacular e pacífico” e afirmou que ele “alteraria materialmente o clima das áreas vizinhas”. Eisenhower recusou. Décadas depois, foi a vez de Bassler retomar o sonho com ares de engenharia moderna , e esbarrar nos mesmos obstáculos que assombravam a ideia desde o começo.

Por que o Egito disse não

O governo egípcio rejeitou categoricamente a proposta nuclear. Detonar 213 bombas, cada uma cem vezes mais potente que a de Hiroshima, em um país que abriga milhões de pessoas no Vale do Nilo a poucas centenas de quilômetros, foi considerado um risco inaceitável, mesmo diante dos argumentos econômicos. A radioatividade era apenas o começo da lista de problemas.

Havia ainda um perigo geológico pouco lembrado: o Rifte do Mar Vermelho, uma zona tectonicamente instável, fica a cerca de 450 quilômetros do local das explosões, e as ondas de choque poderiam ter efeitos sísmicos imprevisíveis. Some-se a isso a quantidade de munições não detonadas da Segunda Guerra Mundial espalhadas pelo norte do Egito, que precisariam ser removidas antes de qualquer obra. A combinação de riscos radioativos, sísmicos e logísticos enterrou o plano nuclear no Saara mas não o desejo de transformar Qattara em mar.

O projeto que voltou à mesa no século 21

O interesse pela Depressão de Qattara nunca desapareceu de vez. Em abril de 2023, o Egito anunciou um novo contrato para estudar a viabilidade do projeto, desta vez sem qualquer menção a explosões nucleares. A região aparece em planos nacionais de energia limpa do país, e estudos acadêmicos recentes exploram caminhos modernos para a velha ideia.

As novas propostas trocam as bombas por escavação convencional e miram tecnologias atuais como energia solar fotovoltaica flutuante, energia eólica e dessalinização de água, conforme pesquisas publicadas em periódicos como o ScienceDirect. Há até quem sugira usar água doce do Nilo, em vez da água salgada do Mediterrâneo, para sustentar o futuro reservatório. O que antes dependia de um arsenal nuclear hoje é debatido como um possível polo de energia renovável no meio do Saara.

Um deserto que já foi verde

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A ideia de encher de água um pedaço do maior deserto quente do mundo soa menos absurda quando se lembra que o Saara nem sempre foi árido. Entre 14 mil e 5 mil anos atrás, a região era verdejante, com chuvas abundantes, rios e lagos. Fósseis encontrados no local revelam que ali viveram girafas, elefantes, hipopótamos e rinocerontes, prova de que o deserto sustentou ecossistemas complexos antes de secar.

Ciclos climáticos naturais indicam que o Saara voltará a ser verde daqui a alguns milhares de anos. O projeto de Qattara, no fundo, propunha apenas antecipar com engenharia aquilo que a natureza um dia faria sozinha. A diferença é que a pressa humana, naquele momento, vinha embalada por 213 bombas nucleares — uma solução que o tempo se encarregou de aposentar.

E você, o que acha dessa história? Um projeto desses deveria ser retomado com tecnologias modernas, ou é melhor deixar o deserto em paz? Conta pra gente nos comentários e marque aquele amigo que ama histórias improváveis de ciência e engenharia.

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Ricardo
Ricardo
28/05/2026 10:09

Deus faz tudo certo,o homem quando interven na natureza destroi,a interferencia humana pode ter consequencia no Planeta,ate na orbita quem sabe?

Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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