Engenheiro alemão liderou entre 1964 e 1973 um plano para inundar a Depressão de Qattara, no Saara egípcio, com água do Mediterrâneo; cada uma das 213 explosões teria cem vezes a potência da bomba de Hiroshima, e a usina alcançaria pico de 5.800 megawatts.
No coração do Saara, o maior deserto quente do planeta, existe uma cratera natural tão profunda e tão próxima do mar que, por quase um século, engenheiros de vários países sonharam em enchê-la de água. A Depressão de Qattara, no noroeste do Egito, fica a 133 metros abaixo do nível do mar e a apenas 55 quilômetros da costa do Mediterrâneo, uma combinação geográfica que transformou esse trecho do Saara em alvo de um dos projetos de engenharia mais ousados e perturbadores do século XX.
O plano mais ambicioso saiu da prancheta do engenheiro hidráulico alemão Friedrich Bassler, que entre 1964 e 1973 propôs abrir um canal até o mar e, para acelerar a escavação, detonar 213 bombas nucleares no deserto, cada uma com potência equivalente a cem vezes a bomba lançada sobre Hiroshima. O objetivo final não era destruição, mas energia: uma usina que superaria a maior hidrelétrica egípcia. A ideia foi recusada pelo governo do Egito, mas, segundo registros reunidos pela Wikipedia, nunca foi totalmente abandonada.
A depressão no Saara que quase virou mar

A Depressão de Qattara é o segundo ponto mais profundo de toda a África. Com 133 metros abaixo do nível do mar, ela é mais funda que o ponto mais baixo da Europa e que a Laguna del Carbón, na Argentina, o lugar mais profundo das Américas. Em uma área de 19 mil quilômetros quadrados comparável a El Salvador inteiro, vivem apenas algumas centenas de pessoas, concentradas no oásis de Qara e em pequenos assentamentos isolados no meio do Saara.
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É justamente a proximidade com o mar que torna a ideia tecnicamente possível. Um canal de 55 quilômetros de extensão seria suficiente para levar a água do Mediterrâneo até a depressão. Para efeito de comparação, o Canal de Suez tem 193 quilômetros. A grande vantagem do projeto de Qattara é que a água não precisaria ser bombeada: como a depressão está abaixo do nível do mar, o líquido escorreria sozinho, puxado pela gravidade, rumo ao interior do deserto.
Como o deserto se transformaria em usina
O lago artificial no Saara não seria um simples espelho d’água. Como a região é extremamente quente e seca, a água evaporaria sem parar, abrindo espaço para que mais água do mar entrasse continuamente pelo canal. Esse fluxo permanente é o segredo de todo o projeto: a água em movimento passaria por turbinas e geraria eletricidade de forma estável e ininterrupta.
O conceito ficou conhecido como “hidro-solar”, embora não envolvesse painéis solares no sentido moderno. O termo se refere ao aproveitamento do calor do sol do deserto, que provoca a evaporação e mantém o ciclo girando. De acordo com o estudo de viabilidade arquivado pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos, o plano combinava a entrada de água do mar com instalações de geração. A usina alcançaria uma capacidade de pico de cerca de 5.800 megawatts — boa parte dela vinda de um sistema reversível, número que superaria os 2.100 megawatts da Represa de Aswan, a maior do Egito.
O plano de 213 bombas nucleares no Saara
Bassler concluiu que escavar o canal com máquinas convencionais seria caro e demorado demais. Sua solução foi radical: usar 213 detonações nucleares de 1,5 megaton cada para abrir a passagem e remover milhões de toneladas de rocha em pouco tempo. Pode parecer loucura pelos padrões de hoje, mas, nos anos 1960, explosões nucleares para obras civis eram levadas a sério por norte-americanos e soviéticos.
Os Estados Unidos chegaram a realizar 27 testes no programa Plowshare, e os soviéticos executaram 239 detonações no mesmo conceito de “explosões nucleares pacíficas”, conforme documentação histórica reunida pela Wikipedia sobre o projeto. Em 1965, uma explosão soviética criou o Lago Chagan, no Cazaquistão, que permanece radioativo até hoje. Bassler estudou o teste americano Storax Sedan, de 1962, que abriu a maior cratera artificial dos Estados Unidos e concluiu que a técnica funcionaria no deserto egípcio, desde que cerca de 25 mil pessoas fossem retiradas da região.
A ideia que já tinha sido oferecida a um presidente americano
Bassler não inventou o conceito do nada. A vontade de inundar a Depressão de Qattara é bem mais antiga: o geógrafo alemão Albrecht Penck sugeriu algo parecido ainda em 1912, e o britânico John Ball detalhou a ideia em 1927. A proposta chegou inclusive à mesa da Casa Branca. Nos anos 1950, a CIA apresentou o plano ao presidente Dwight Eisenhower.
Segundo documentos citados pelo site Futility Closet, a agência descreveu o futuro lago como “espetacular e pacífico” e afirmou que ele “alteraria materialmente o clima das áreas vizinhas”. Eisenhower recusou. Décadas depois, foi a vez de Bassler retomar o sonho com ares de engenharia moderna , e esbarrar nos mesmos obstáculos que assombravam a ideia desde o começo.
Por que o Egito disse não
O governo egípcio rejeitou categoricamente a proposta nuclear. Detonar 213 bombas, cada uma cem vezes mais potente que a de Hiroshima, em um país que abriga milhões de pessoas no Vale do Nilo a poucas centenas de quilômetros, foi considerado um risco inaceitável, mesmo diante dos argumentos econômicos. A radioatividade era apenas o começo da lista de problemas.
Havia ainda um perigo geológico pouco lembrado: o Rifte do Mar Vermelho, uma zona tectonicamente instável, fica a cerca de 450 quilômetros do local das explosões, e as ondas de choque poderiam ter efeitos sísmicos imprevisíveis. Some-se a isso a quantidade de munições não detonadas da Segunda Guerra Mundial espalhadas pelo norte do Egito, que precisariam ser removidas antes de qualquer obra. A combinação de riscos radioativos, sísmicos e logísticos enterrou o plano nuclear no Saara mas não o desejo de transformar Qattara em mar.
O projeto que voltou à mesa no século 21
O interesse pela Depressão de Qattara nunca desapareceu de vez. Em abril de 2023, o Egito anunciou um novo contrato para estudar a viabilidade do projeto, desta vez sem qualquer menção a explosões nucleares. A região aparece em planos nacionais de energia limpa do país, e estudos acadêmicos recentes exploram caminhos modernos para a velha ideia.
As novas propostas trocam as bombas por escavação convencional e miram tecnologias atuais como energia solar fotovoltaica flutuante, energia eólica e dessalinização de água, conforme pesquisas publicadas em periódicos como o ScienceDirect. Há até quem sugira usar água doce do Nilo, em vez da água salgada do Mediterrâneo, para sustentar o futuro reservatório. O que antes dependia de um arsenal nuclear hoje é debatido como um possível polo de energia renovável no meio do Saara.
Um deserto que já foi verde
A ideia de encher de água um pedaço do maior deserto quente do mundo soa menos absurda quando se lembra que o Saara nem sempre foi árido. Entre 14 mil e 5 mil anos atrás, a região era verdejante, com chuvas abundantes, rios e lagos. Fósseis encontrados no local revelam que ali viveram girafas, elefantes, hipopótamos e rinocerontes, prova de que o deserto sustentou ecossistemas complexos antes de secar.
Ciclos climáticos naturais indicam que o Saara voltará a ser verde daqui a alguns milhares de anos. O projeto de Qattara, no fundo, propunha apenas antecipar com engenharia aquilo que a natureza um dia faria sozinha. A diferença é que a pressa humana, naquele momento, vinha embalada por 213 bombas nucleares — uma solução que o tempo se encarregou de aposentar.
E você, o que acha dessa história? Um projeto desses deveria ser retomado com tecnologias modernas, ou é melhor deixar o deserto em paz? Conta pra gente nos comentários e marque aquele amigo que ama histórias improváveis de ciência e engenharia.


Deus faz tudo certo,o homem quando interven na natureza destroi,a interferencia humana pode ter consequencia no Planeta,ate na orbita quem sabe?