Pesquisadores brasileiros participam de uma expedição internacional que avança sobre uma das regiões mais profundas do Atlântico, usando tecnologia robótica para investigar uma estrutura geológica gigantesca e ambientes marinhos ainda pouco conhecidos pela ciência.
Uma equipe com participação brasileira está em alto-mar para investigar uma das regiões mais profundas e pouco conhecidas do Atlântico Equatorial. A expedição internacional The Gap explora a Zona de Fratura Romanche com apoio do robô submarino SuBastian, capaz de descer a 4.500 metros de profundidade e registrar imagens detalhadas do fundo oceânico.
A missão reúne cientistas de diferentes países e tem entre seus líderes o professor José Angel Alvarez Perez, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Santa Catarina, ao lado da pesquisadora Kerry Howell, do Plymouth Marine Laboratory, no Reino Unido. Também participam pela universidade brasileira os oceanógrafos Lucas Gavazzoni e Flávia Masumoto.
A expedição ocorre entre setembro e outubro de 2026 a bordo do R/V Falkor (too), navio científico operado pelo Schmidt Ocean Institute. Segundo a Univali, os pesquisadores brasileiros embarcaram em Fortaleza em 18 de setembro, com encerramento da viagem previsto para 29 de outubro, em Tema, Gana.
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O objetivo é avançar sobre uma lacuna que ainda persiste na ciência: entender melhor quais organismos vivem nessa região extrema do Atlântico e como as características geológicas e oceanográficas influenciam a distribuição da vida nas grandes profundidades.

Zona de Fratura Romanche atravessa o Atlântico Equatorial
Embora seja frequentemente descrita de maneira simplificada como uma grande “fenda” no fundo do oceano, a Zona de Fratura Romanche é uma estrutura geológica muito mais complexa.
Ela reúne vales profundos, escarpas, elevações submarinas e falhas associadas à Dorsal Mesoatlântica, a enorme cadeia montanhosa submersa que acompanha a separação das placas tectônicas entre as Américas e a África.
Dependendo do trecho e da definição considerada, a Romanche pode ser descrita com dimensões diferentes. Estudos científicos já analisaram percursos próximos de 2.000 quilômetros ao longo da zona, enquanto o Schmidt Ocean Institute aponta cerca de 950 quilômetros para o trecho associado à falha transformante ativa investigada na região.
Essa diferença ocorre porque a expressão Zona de Fratura Romanche abrange uma estrutura geológica mais extensa do que apenas a porção tectonicamente ativa.
A área também abriga o Vema Deep, uma das maiores profundidades associadas à Dorsal Mesoatlântica, chegando a aproximadamente 7.856 metros. O relevo acidentado e a enorme coluna de água tornam a exploração direta difícil e ajudam a explicar por que grandes trechos permanecem pouco estudados.
SuBastian chega a 4.500 metros no fundo do oceano
Para alcançar pontos onde mergulhadores humanos não poderiam operar, os pesquisadores utilizam o ROV SuBastian, veículo submarino controlado remotamente a partir do navio.
Desenvolvido para missões científicas em águas profundas, o equipamento consegue trabalhar a até 4.500 metros abaixo da superfície.
O robô tem câmeras de alta resolução, braços manipuladores, sonares e diferentes sensores. Durante os mergulhos, pode registrar o ambiente, medir características da água e recolher organismos, rochas, sedimentos e outras amostras para análise posterior.
As câmeras permitem que a equipe acompanhe praticamente em tempo real o que aparece diante do veículo.
Isso faz diferença em um ambiente onde cada mergulho pode revelar formações geológicas ou organismos que ainda não foram registrados naquela parte do Atlântico.
O SuBastian também pode transportar instrumentos científicos adicionais, de acordo com os objetivos de cada missão. Parte das operações realizadas pelo Schmidt Ocean Institute é transmitida ao vivo, aproximando o público do trabalho desenvolvido no fundo do mar.

Cientistas querem descobrir o que vive na região
Um dos principais objetivos da expedição The Gap é compreender como a biodiversidade está distribuída pela Zona de Fratura Romanche.
Registros científicos existentes ainda são limitados quando comparados à dimensão da região. Em alguns pontos, a quantidade reduzida de organismos documentados poderia sugerir baixa diversidade.
Os pesquisadores, no entanto, investigam se esse cenário não está relacionado principalmente à falta de amostragem.
Explorar milhares de metros abaixo da superfície exige navios especializados, equipamentos robóticos e operações de alto custo. Como consequência, existem áreas do fundo oceânico que receberam poucas visitas científicas.
Durante a missão, as câmeras do SuBastian permitem observar paredes rochosas, encostas, sedimentos e outras formações submarinas. Os cientistas procuram especialmente comunidades associadas ao fundo do mar, incluindo corais e esponjas de águas profundas.
As informações coletadas também poderão ajudar na identificação de possíveis Ecossistemas Marinhos Vulneráveis, ambientes que podem ser particularmente sensíveis a alterações provocadas por atividades humanas.
Relevo profundo também interfere nas correntes do Atlântico
A importância da Zona de Fratura Romanche vai além dos organismos encontrados no fundo do oceano.
A região ocupa uma posição estratégica na circulação das águas profundas do Atlântico.
A Dorsal Mesoatlântica funciona como uma enorme barreira submarina entre diferentes partes do oceano. As grandes fraturas que atravessam essa cadeia montanhosa criam passagens capazes de permitir o deslocamento de massas de água entre os lados oriental e ocidental.
A Romanche está entre essas passagens.
Estudos oceanográficos já apontaram sua influência na circulação de águas profundas, fenômeno que pode afetar temperatura, disponibilidade de nutrientes e outras condições importantes para os ecossistemas submarinos.
Por esse motivo, observar os organismos não basta. Os pesquisadores também precisam entender o ambiente físico em que essas espécies vivem.
Sensores instalados no SuBastian ajudam nesse trabalho ao registrar parâmetros da água enquanto o robô percorre diferentes profundidades e tipos de terreno.
Missão tenta preencher uma lacuna no conhecimento do oceano profundo
O nome The Gap, expressão em inglês que pode ser traduzida como “a lacuna”, está relacionado justamente à falta de informações científicas detalhadas sobre determinados ambientes da região.
A missão pretende produzir novos registros sobre organismos bentônicos, nome dado às espécies que vivem associadas ao fundo do oceano, além de reunir informações sobre as condições ambientais encontradas ao longo da Romanche.
A participação brasileira coloca pesquisadores da Univali diretamente em uma expedição internacional no Atlântico Equatorial.
Além de José Angel Alvarez Perez, Lucas Gavazzoni e Flávia Masumoto, a missão envolve especialistas de diferentes áreas e instituições. O projeto utiliza a infraestrutura do Schmidt Ocean Institute, responsável pelo navio Falkor (too) e pelo SuBastian.
A expedição também mantém atividades de divulgação científica. Em 1º de outubro de 2026, integrantes da equipe a bordo do navio participam de uma interação remota com estudantes durante uma atividade promovida pela Univali em Itajaí, Santa Catarina.
Até o encerramento da viagem, previsto para 29 de outubro, os pesquisadores devem continuar realizando mergulhos robóticos, registros em vídeo, mapeamentos e coleta de amostras.
O material obtido poderá ampliar o conhecimento sobre uma parte do Atlântico que permanece difícil de acessar, ajudando cientistas a entender melhor tanto a biodiversidade das grandes profundidades quanto a relação entre o relevo submarino, as correntes oceânicas e a distribuição das espécies.

