Banco Central Saudita encerrou participação no mBridge em maio de 2025, após concluir prova de conceito, enquanto projeto liderado pela China mantém expansão e já movimentou mais de US$ 55 bilhões em transações globais recentes
A Arábia Saudita encerrou sua participação no mBridge, plataforma de pagamentos digitais liderada pela China e desenvolvida para permitir transações diretas entre bancos centrais por meio de moedas digitais. A saída ocorreu em maio de 2025, após o Banco Central Saudita concluir uma prova de conceito, segundo informações fornecidas ao Financial Times.
O movimento chama atenção porque Riad havia entrado no projeto em meio aos esforços de Pequim para ampliar alternativas ao sistema financeiro internacional baseado no dólar.
A participação saudita também tinha um peso simbólico: o país está no centro do comércio mundial de petróleo e da estrutura que ajudou a consolidar o chamado petrodólar.
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O mBridge foi lançado em 2021. China, Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e o Banco de Compensações Internacionais, o BIS, estavam entre os participantes iniciais.
A proposta era permitir que bancos centrais utilizassem moedas digitais para fazer pagamentos diretamente utilizando tecnologia blockchain.
A Arábia Saudita entrou depois. Segundo o próprio banco central do reino, conhecido como SAMA, o país ingressou em 2023, ainda “sob o guarda-chuva do BIS”, na condição de membro observador. A participação fazia parte das pesquisas sauditas sobre moedas digitais emitidas por bancos centrais.
Em 2024, o SAMA trabalhou em uma prova de conceito. O teste seguiu até 13 de maio de 2025.
“Conforme planejado, o SAMA concluiu com sucesso sua prova de conceito do mBridge em 13 de maio de 2025. Após a conclusão da prova de conceito, o SAMA deixou de ser um membro participante do mBridge”, informou o banco central ao FT.
Saída ocorre depois do afastamento do BIS
O caso ganhou mais peso porque o BIS também havia deixado o mBridge meses antes, em outubro de 2024.
Houve relatos de que a instituição teria sofrido pressão dos Estados Unidos para abandonar o projeto. O BIS, porém, apresentou outra versão: afirmou que simplesmente havia “concluído sua participação” e negou que questões políticas tivessem determinado a decisão.
No caso saudita, uma fonte disse ao Financial Times que o banco central do país já não queria permanecer publicamente envolvido com o mBridge.
Outra fonte, questionada sobre uma possível pressão americana sobre Riad, respondeu que seria “impreciso tirar qualquer conclusão mais ampla”. Ou seja, o material disponível não confirma que Washington tenha provocado a saída saudita.

Petrodólar ajuda a explicar por que participação saudita chamava atenção
A entrada da Arábia Saudita no mBridge havia sido observada com atenção justamente por causa da relação histórica entre petróleo e dólar.
O chamado regime do petrodólar remonta a 1974, quando Riad concordou em precificar petróleo em dólares e aplicar seus excedentes em ativos americanos.
Com o tempo, o uso da moeda dos Estados Unidos avançou para outras áreas do comércio internacional.
Segundo os dados apresentados no material-base, o dólar é utilizado atualmente em cerca de 90% das transações globais.
Em nota publicada em março, o Deutsche Bank resumiu essa relação: “O mundo poupa em dólares, em grande parte, porque paga em dólares”.
Para os analistas do banco, a predominância da moeda americana no comércio internacional está fortemente ligada ao petróleo negociado e faturado em dólares.
A Arábia Saudita, ao mesmo tempo, já considerou precificar parte das vendas de petróleo destinadas à China em yuan. Rússia e Irã também utilizam a moeda chinesa em determinadas transações para contornar sanções americanas.
mBridge continua avançando e supera US$ 55 bilhões em transações
A saída saudita não encerrou o projeto.
O mBridge continuou operando mesmo depois da retirada da Arábia Saudita e do BIS e incorporou recentemente Macau como participante.
Um relatório do Atlantic Council publicado neste ano apontou que o volume de transações realizadas pela plataforma já havia ultrapassado US$ 55 bilhões.
Segundo o levantamento, isso representa crescimento de aproximadamente 2.500 vezes em relação a 2022.
Pequim também vem ampliando acordos de swap cambial com outros bancos centrais e incentivando pagamentos em yuan com parceiros comerciais.
Alisha Chhangani, do Atlantic Council, afirmou à Reuters em janeiro que o mBridge provavelmente não deverá substituir diretamente a predominância do dólar, mas poderá contribuir para uma erosão gradual desse domínio.
A saída saudita, portanto, reduz um participante de forte peso simbólico no projeto. Mas os números apresentados pelo Atlantic Council mostram que, apesar das baixas, a plataforma chinesa continua ampliando o volume de operações.
Fontes: InfoMoney com informações atribuídas ao Financial Times, Banco Central Saudita (SAMA), Banco de Compensações Internacionais (BIS), Deutsche Bank, Atlantic Council e Reuters.

