Dados do IBGE mostram avanço do trabalho presencial desde 2022, enquanto home office perde espaço, empresas ampliam retorno aos escritórios e mudanças chegam ao mercado imobiliário.
O mercado de trabalho brasileiro voltou a mudar depois da expansão do home office provocada pela pandemia. Dados da PNAD Contínua – Características Adicionais do Mercado de Trabalho 2025, divulgados pelo IBGE em 23 de setembro de 2026, mostram que 7,9% dos trabalhadores exerciam suas atividades principalmente dentro de casa, abaixo dos 8,4% registrados em 2022.
O movimento contrário ocorreu nos estabelecimentos das empresas. A participação dos trabalhadores que exerciam suas atividades nesses locais passou de 57,9%, em 2022, para 60,2% em 2025. Apesar dessa recuperação do presencial, o trabalho dentro de casa continua acima do nível observado antes da pandemia, quando representava 5,8% em 2019.
Trabalho em casa recuou de 8,4% para 7,9%, enquanto presença nos estabelecimentos avançou para 60,2%
A distribuição dos locais de trabalho ajuda a dimensionar como os brasileiros passaram a exercer suas atividades depois da pandemia. Em 2025, 60,2% trabalhavam em estabelecimentos do próprio empreendimento, enquanto 13,8% atuavam em locais definidos pelo empregador ou cliente.
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Fazendas, sítios, granjas ou chácaras concentravam 8,4% dos trabalhadores. O trabalho dentro de casa aparecia logo depois, com 7,9%, seguido pelos veículos automotores, com 5%, e pelas vias ou áreas públicas, com 2,1%.
Os números, porém, exigem uma consideração importante. Segundo William Araujo Kratochwill, pesquisador do IBGE, a classificação leva em conta o local onde a pessoa exerce suas atividades com maior frequência. Um profissional que trabalha quatro dias em casa e um no escritório pode, portanto, aparecer entre aqueles que trabalham no próprio domicílio.
O mesmo critério funciona no sentido contrário. Quem adota o modelo híbrido, mas passa a maior parte da semana na empresa, pode ser classificado entre os trabalhadores de estabelecimentos físicos. Essa metodologia ajuda a explicar por que o trabalho dentro de casa permanece relativamente elevado, mesmo com o avanço da presença nos escritórios.
Trabalho dentro de casa já crescia antes da pandemia e passou de 3,6% em 2012 para 5,8% em 2019
A mudança na forma de trabalhar não começou com a Covid-19. Em 2012, apenas 3,6% dos trabalhadores exerciam suas atividades principalmente dentro de casa. Sete anos depois, em 2019, essa participação já havia alcançado 5,8%.
O avanço do setor de serviços, a digitalização da economia, o crescimento das plataformas digitais e do trabalho autônomo já reduziam a dependência de um único local fixo. A pandemia acelerou um processo que estava em andamento, levando empresas e trabalhadores a reorganizarem atividades que antes estavam concentradas nos escritórios.
Não é possível determinar com precisão até onde esse movimento chegou durante o período mais intenso das medidas de isolamento. O IBGE não realizou esse módulo da pesquisa em 2020 e 2021. O percentual de 8,4% observado em 2022, entretanto, mostra que trabalhar dentro de casa havia conquistado um espaço muito maior do que antes da crise sanitária.

Empresas ampliaram retorno aos escritórios enquanto vagas remotas perderam espaço no mercado de trabalho
A recuperação do trabalho presencial registrada pelo IBGE acompanha um movimento identificado por outros levantamentos. Pesquisa da Robert Half mostra que profissionais de construção civil e engenharia trabalham presencialmente, em média, 4,8 dias por semana. No setor de serviços, a média é de 3,3 dias.
Uma pesquisa da WeWork em parceria com a Offerwise também aponta nessa direção. O levantamento mostra que 63% dos trabalhadores atuam presencialmente e, entre eles, 79% afirmam que essa modalidade resulta de uma determinação da empresa, e não de uma escolha pessoal.
As oportunidades de emprego também passaram por uma reorganização. Segundo a Gupy, vagas totalmente remotas perderam espaço nos últimos anos, enquanto posições presenciais e híbridas avançaram e passaram a representar a maior parte das oportunidades disponíveis no mercado.
Cultura organizacional e comunicação estão entre os motivos apresentados pelas empresas para ampliar trabalho presencial
O movimento de volta aos escritórios está relacionado a diferentes argumentos apresentados pelas organizações. Levantamento da Robert Half mostra que 68% dos gestores citam o fortalecimento da cultura organizacional entre os principais motivos para ampliar a presença física dos funcionários.
A comunicação e a colaboração entre equipes aparecem para 63% dos gestores. Outros 59% mencionam maior integração e supervisão, enquanto 50% relacionam o trabalho presencial ao aumento da produtividade.
A mudança também trouxe novamente para a rotina problemas que haviam perdido importância durante a expansão do home office. Tempo de deslocamento, gastos com transporte e distância entre casa e trabalho voltaram ao centro das decisões profissionais.
Segundo a pesquisa da WeWork, 65% dos trabalhadores consideram o trajeto até o escritório a principal desvantagem do presencial. Mais da metade afirma que passou a gastar mais com transporte e deslocamento. A gerente de negócios da WeWork Brasil, Beatriz Kawakami, descreve esse impacto como um “custo silencioso”, porque ele consome dinheiro e reduz o tempo disponível para a vida pessoal.

Retorno aos escritórios voltou a colocar distância entre casa e trabalho nas decisões sobre moradia
A expansão do home office durante a pandemia modificou também a relação de muitas famílias com o lugar onde moravam. A possibilidade de trabalhar à distância levou parte delas a trocar apartamentos por casas maiores, buscar cidades mais tranquilas, reduzir custos ou morar perto de familiares e áreas verdes.
Essa escolha estava ligada à possibilidade de continuar trabalhando longe dos escritórios. Quando empresas passaram a exigir presença durante alguns dias da semana, a localização voltou a ganhar importância nas decisões de moradia, aproximando novamente trabalho e mercado imobiliário.
Um levantamento do Colégio Notarial do Brasil, seção São Paulo, mostrou que a capital paulista registrou 90.402 escrituras de compra e venda de imóveis em 2025, recorde histórico. O volume ficou 49,6% acima daquele registrado em 2020.
Municípios do interior que haviam se beneficiado da expansão do home office, por outro lado, passaram a apresentar desaceleração nas transações imobiliárias. Para o vice-presidente do CNB/SP, Andrey Guimarães Duarte, os números indicam uma nova etapa, e não simplesmente uma reprodução do cenário existente antes da pandemia.
Sudeste ainda lidera trabalho dentro de casa mesmo depois do avanço do presencial no Brasil
O crescimento da presença física nos estabelecimentos não eliminou o espaço conquistado pelo trabalho realizado dentro de casa. A região Sudeste continua liderando essa participação, com 8,2% dos trabalhadores atuando no próprio domicílio.
William Araujo Kratochwill relaciona esse resultado à concentração de empresas e atividades compatíveis com o trabalho remoto em estados como São Paulo e Rio de Janeiro. O grande volume de trabalhadores dessas empresas pode ampliar a influência da modalidade sobre os números regionais.
Os dados de 2025 mostram, portanto, um mercado diferente tanto daquele observado durante a expansão do home office quanto do cenário anterior à pandemia. O trabalho nos estabelecimentos avançou para 60,2%, enquanto a participação dentro de casa caiu para 7,9%, mas continua acima dos 5,8% registrados em 2019.
A era do home office, pelos números apresentados, não desapareceu. O que mudou foi seu peso dentro de um mercado que voltou a concentrar mais trabalhadores nos estabelecimentos físicos, sem apagar completamente as transformações iniciadas antes da pandemia e aceleradas pela Covid-19.
