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A China decreta proibição total da pesca no rio Yangtzé por 10 anos, retira 111 mil barcos, realoca 231 mil pescadores e investe US$ 2,74 bilhões para reverter sete décadas de colapso da biodiversidade

Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 23/02/2026 às 09:32
Atualizado em 23/02/2026 às 09:34
Recuperação da biodiversidade no rio Yangtzé após proibição da pesca comercial por 10 anos.
Rio Yangtzé apresenta sinais de recuperação após proibição total da pesca iniciada em 2021.
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Após décadas de sobrepesca, poluição e desaparecimento de 135 espécies, maior rio da China apresenta recuperação histórica com aumento de biomassa, crescimento de peixes de grande porte e avanço na preservação de espécies ameaçadas

Durante mais de sete décadas, o rio Yangtzé foi símbolo do crescimento econômico chinês — mas também do colapso ambiental silencioso. No entanto, uma decisão considerada extrema mudou o rumo dessa história. Em 2021, o governo decretou uma proibição total da pesca comercial por 10 anos em toda a bacia do rio, numa medida que muitos classificaram como a “opção nuclear” da conservação ambiental. Agora, os primeiros resultados indicam que a estratégia está funcionando.

A informação foi divulgada pela revista científica “Science”, conforme estudo conduzido por Fangyuan Xiong e equipe e publicado na edição 391 (páginas 719-723, 2026), com dados analisados entre 2018 e 2023. O trabalho mostra que a interrupção da pesca interrompeu sete décadas de declínio contínuo da biodiversidade no maior rio da China.

O Yangtzé é o rio mais longo e volumoso do país. Cerca de 30% da população chinesa vive dentro de sua bacia hidrográfica, enquanto as 11 províncias e municípios que compõem o Cinturão Econômico do Yangtzé são responsáveis por aproximadamente 47% do Produto Interno Bruto da China. Ou seja, trata-se de um dos sistemas fluviais mais estratégicos do planeta.

Sete décadas de degradação ambiental e extinções irreversíveis

Apesar da importância econômica, o desenvolvimento urbano acelerado desde a década de 1950, a construção de barragens, a poluição industrial, a degradação de habitats e décadas de sobrepesca levaram a uma crise ambiental sem precedentes. A qualidade da água caiu drasticamente, enquanto espécies emblemáticas desapareceram para sempre.

O golfinho-do-Yangtzé (Lipotes vexillifer) foi declarado extinto. O peixe-espátula chinês (Psephurus gladius) também desapareceu. Além disso, 135 espécies de peixes registradas em levantamentos históricos deixaram de ser encontradas.

Mesmo com a criação de áreas protegidas e investimentos superiores a US$ 300 bilhões em gestão e melhoria da qualidade da água, o declínio da biodiversidade continuou. Diante desse cenário, a China decidiu adotar uma medida radical: suspender completamente a pesca comercial em toda a bacia por uma década.

Para garantir o cumprimento da lei, a fiscalização foi intensificada com atuação da polícia fluvial, aplicação de penalidades rigorosas e continuidade de programas ambientais integrados.

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Dados mostram aumento de biomassa e recuperação de espécies ameaçadas

Para avaliar os efeitos da proibição, o hidro biólogo Yushun Chen, da Academia Chinesa de Ciências, em Wuhan, analisou dados coletados entre 2018 e 2023, comparando o período anterior e posterior ao início da medida.

Os resultados são expressivos. A massa total de peixes coletada nas amostras mais do que dobrou nesse intervalo. Além disso, houve aumento de 13% no número de espécies registradas nas coletas.

Embora o número total de indivíduos tenha permanecido relativamente estável, houve crescimento significativo das espécies de maior porte, situadas no topo da cadeia alimentar. Entre elas, destacam-se o black Amur bream (Megalobrama terminalis) e o white Amur bream (Parabramis pekinensis), que passaram a representar parcela maior da biomassa total.

Por outro lado, a massa total das espécies menores caiu 18%, um indício de reorganização estrutural do ecossistema.

Espécies migratórias também apresentaram recuperação. A língua-delgada (Cynoglossus gracilis) ampliou sua migração para regiões mais a montante do rio. Já espécies ameaçadas, como o esturjão-do-Yangtzé (Sinosturia dabryanus), o peixe-sugador chinês (Myxocyprinus asiaticus) e o peixe-tubo (Ochetobius elongatus), mostraram sinais consistentes de recuperação populacional.

Outro dado relevante envolve o único mamífero de água doce remanescente no rio: o boto sem nadadeira do Yangtzé (Neophocaena asiaeorientalis asiaeorientalis). Sua população cresceu de 445 indivíduos em 2017 para 595 em 2022 — um aumento de aproximadamente um terço.

Segundo os pesquisadores, essa recuperação pode estar relacionada à maior disponibilidade de peixes maiores para alimentação, à redução de mortes causadas por colisões com embarcações e à diminuição da captura acidental em redes. Além disso, houve queda nos níveis de ruído subaquático provocado por hélices de barcos.

Custo social bilionário e impactos econômicos profundos

Apesar dos avanços ambientais, a decisão trouxe custos humanos e financeiros significativos. A proibição envolveu o recolhimento de 111.000 embarcações de pesca e o reassentamento de 231.000 pescadores.

Além disso, foram investidos mais de US$ 2,74 bilhões na região do Cinturão Econômico do Yangtzé para mitigar impactos socioeconômicos.

O professor Steven Cooke, da Carleton University, no Canadá, afirmou que o fechamento total da pesca tem consequências profundas para comunidades e cadeias produtivas. Segundo ele, embora os resultados demonstrem resiliência ecológica, o ideal é que a gestão pesqueira seja conduzida com monitoramento contínuo e base científica, evitando a necessidade de medidas tão drásticas.

Ainda assim, especialistas destacam que o caso do Yangtzé oferece uma rara mensagem de esperança em meio a perdas globais sem precedentes de biodiversidade, especialmente em sistemas de água doce.

Pesquisadores continuam monitorando o rio e alertam que o progresso pode ser rapidamente revertido caso a pesca comercial seja retomada sem planejamento rigoroso. A recuperação duradoura dependerá da gestão contínua de todas as pressões humanas sobre o sistema fluvial.

Inclusive, os cientistas sugerem que estratégias semelhantes poderiam ser consideradas em grandes rios como o Mekong e até mesmo o Amazonas — embora reconheçam que cada contexto exige análise cuidadosa.

A experiência chinesa, portanto, mostra que decisões políticas fortes podem reverter danos considerados irreversíveis. No entanto, também deixa claro que o custo de agir tarde pode ser extremamente alto.

Fonte: livescience

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Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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